Mundo de ficçãoIniciar sessão— É “Enfadonho me ter na cama.” — Quem te disse isso... É um completo idiota. Um incompetente que é o verdadeiro "sem talento". — Porque acha que ele está errado? — Porque uma mulher — ele continuou, o polegar roçando meu lábio inferior. — que cheira como você... que tem a boca que você tem... esse corpo... e que tem a coragem de agir como você fez... não foi feita para ser "enfadonha". Ele se inclinou, o hálito quente batendo na minha pele. — Ela foi feita para ser adorada. Ou fodida até perder o juízo. O homem que não soube fazer isso com você não é um homem. E ele não sabe absolutamente nada sobre mulheres. ***** Durante cinco anos, Camila Nogueira amou Felipe incondicionalmente, chegando a romper com sua família para se defender de um casamento arranjado com o poderoso Arthur Vasconcelos. Mas seu mundo desaba quando encontra Felipe na cama com sua própria tia. A traição dupla a deixa sem chão. A proposta que antes era uma ofensa, agora é sua única saída. Camila aceita o acordo com Arthur, trocando sua liberdade de coração partido pela segurança de uma gaiola dourada. Ela só não imaginava que a convivência com seu novo e controlador marido poderia ser muito mais perigosa do que a traição que a levou até ele.
Ler maisCAMILA NOGUEIRA
O ar na sala de estar de casa estava quase irrespirável. Eu sentia uma sensação ruim, parecia que algo terrível estava para acontecer naquele silêncio de velório. Meu pai, Roberto, um homem que sempre foi o retrato da confiança, agora parecia uma sombra de si mesmo. Ele andava de um lado para o outro, como um bicho na jaula, e só parava para encarar a garrafa de uísque, lutando com a tentação de beber. Minha mãe, Luzia, estava encolhida na ponta do sofá, apertando as próprias mãos com tanta força que os dedos estavam brancos. Eles tinham me mandado uma mensagem pedindo uma “conversa importante”. Só pelo tom, eu já tinha ficado com o pé atrás. Agora, olhando para eles, eu tive certeza que não era uma conversa, era o anúncio de um problema muito grande. — Então? — quebrei o silêncio. — Vão me dizer o que aconteceu ou vão me deixar aqui morrendo de curiosidade? Meu pai parou de andar. Quando ele me olhou, eu vi o tamanho do estrago nos olhos dele. O orgulho, a autoridade, a confiança, tudo tinha sumido. Só o que sobrava era um cansaço profundo. Ele abriu a boca, mas foi minha mãe quem falou. — Filha, a gente... precisa que você ouça com a cabeça no lugar. E com o coração aberto. — Mãe, você tá me assustando — respondi, sentindo um medo gelado tomar o lugar da impaciência. — O que aconteceu? — A gente quebrou, Camila. — Meu pai finalmente falou. A gente quebrou? Soava ridículo, uma piada sem graça. A família Nogueira não podia quebrar. Nós éramos sinônimo de grana e sucesso. A empresa do meu pai era uma fortaleza. Eu dei uma risadinha nervosa. — Isso é... algum tipo de brincadeira? Pai, se isso é pra me ensinar a ser humilde, é de péssimo gosto. — Quem dera fosse brincadeira — disse ele, se jogando na poltrona como se não tivesse mais forças e escondeu o rosto nas mãos. — Acabou, filha. Tudo. Investi errado, confiei em gente que não devia... foi uma bola de neve. As dívidas são gigantescas. A gente vai perder esta casa. A empresa já era. Acabou. Meu chão sumiu. A segurança que eu sempre tive na vida simplesmente evaporou, me deixando sem ar. Faculdade, carro, planos... tudo dependia deles. Minha mãe sentou do meu lado e pegou minha mão. — A gente sabe que é um choque, querida. Mas... tem uma solução. Uma única solução. — Que solução? — A família Vasconcelos — disse minha mãe, como se estivesse falando de deuses ou demônios. — Eles são nossos parceiros mais antigos. E sabem da nossa situação. Meu pai levantou a cabeça. A vergonha no rosto dele era tanta que eu mal conseguia olhar. — Arthur Vasconcelos fez uma proposta. Ele cobrirá todas as nossas dívidas e vai investir na empresa. Um pingo de alívio surgiu no meu peito, mas logo foi esmagado pela dúvida. — E o que ele quer em troca? Porque nenhum Vasconcelos faz esse tipo de caridade. O silêncio voltou, ainda mais suspeito. Minha mãe apertou minha mão, com seus olhos me implorando por alguma coisa. — Ele quer uma aliança — disse ela, medindo as palavras. — Uma fusão. Pra fechar o acordo... ele propôs um casamento. Eu puxei minha mão de volta como se tivesse levado um choque. Olhei pra ela, depois pra ele, e a ficha começou a cair, me dando enjoo. — Casamento? — repeti, a palavra soando estranha na minha boca. — Com você, filha — confirmou meu pai. — Ele quer casar com você. A ideia era tão absurda, tão medieval, que meu cérebro se recusava a aceitar. De repente, uma vontade de rir de nervoso subiu pela minha garganta e eu gargalhei. — Vocês estão loucos — falei, me levantando em um pulo. A risada sumiu, dando lugar a uma raiva que queimava por dentro. — Vocês dois piraram de vez! Estão me dizendo que a solução é me vender pra um cara que eu nem conheço? — Não fale assim, Camila! — minha mãe se levantou também. — Não é uma venda, é a nossa salvação! Você não entende? — Eu entendo perfeitamente! — gritei, apontando para a sala. — Entendo que vocês querem jogar a minha vida no lixo pra salvar os móveis e o status de vocês! E o Felipe? Esqueceram que estamos noivos? Quando eu falei o nome dele, o rosto do meu pai se fechou. — Felipe? Aquele aproveitador não tem onde cair morto. O que você acha que ele vai fazer quando descobrir que o papai aqui não tem mais um centavo pra bancar os luxos de vocês? — Ele me ama! — defendi, sentindo meu peito doer. — O Felipe está comigo por quem eu sou, não pelo seu dinheiro! Ele é um cara bom, honesto, coisa que vocês nem lembram mais o que é! — Honesto? — minha mãe se meteu. — Camila, por favor, escuta a gente. Esse rapaz não presta. Ele te engana com esse papo bonito, mas só está de olho no que a gente pode dar. Nós vemos isso, por que você não vê? Aquilo foi o limite. Além de falidos, além de quererem me vender, ainda tinham a coragem de atacar a única coisa boa na minha vida. — CHEGA! — berrei, com a voz rouca de raiva. — Não quero ouvir mais nada. Vocês não vão me usar de moeda de troca. Não vão destruir a MINHA vida pra consertar a merda que VOCÊS fizeram! Virei as costas e marchei para o meu quarto. — Camila, espere! — minha mãe veio atrás de mim e segurou meu braço. — Não faz isso. Pensa na nossa família. — Minha felicidade também é importante! — me soltei dela. — E eu não vou passar o resto da vida presa a um estranho. Eu vou ficar com o Felipe. A gente vai dar um jeito, construiremos nossa vida juntos com amor e esforço. Entrei no quarto e bati a porta. Sem pensar duas vezes, peguei minha mala e joguei na cama. Com as mãos tremendo de adrenalina, comecei a enfiar minhas roupas de qualquer jeito lá dentro. Minha mão parou em cima do porta-retratos na cabeceira. Uma foto minha e do Felipe na praia, sorrindo. Olhar aquela foto me deu força. Meus pais estavam errados. O Felipe ia provar isso. Peguei minha bolsa, a mala e abri a porta. Minha mãe estava parada no corredor, arrasada. — Por favor, filha, não vai. Você está cometendo um erro terrível. O Felipe não é quem você pensa que ele é. — É mesmo, mãe? Descobri hoje que as únicas pessoas que não são quem eu pensava são vocês — falei, com a voz fria. Passei por ela sem olhar pra trás. Desci as escadas, passei pelo meu pai, que continuava sentado, paralisado, e abri a porta da frente. Joguei a mala no banco do carona e dei a partida. Enquanto eu me afastava da casa onde cresci, eu não sentia tristeza. Só uma raiva determinada. Eu estava indo para o meu verdadeiro lar. Para os braços do homem que me amava e que ia me proteger de tudo aquilo. Eu estava completamente enganada. Mas, naquele momento, enquanto pisava fundo em direção ao apartamento do Felipe, eu não fazia ideia da cena que ia encontrar.CAMILA NOGUEIRA SEIS ANOS DEPOIS SÃO PAULO, BRASIL – NOITE DE NATALNossa mansão no Jardim Europa estava iluminada como um farol dourado. As portas de vidro da sala de estar estavam abertas para o jardim, onde as luzes pisca-pisca se entrelaçavam nas palmeiras e nas jabuticabeiras. — Papai! O Matteo está tentando abrir os presentes antes da meia-noite de novo! A voz de Hope, agora com seis anos e meio, cortou o som de Jingle Bell Rock que tocava ao fundo. Ela entrou na sala correndo, com os cabelos negros soltos e um vestido de veludo vermelho, os olhos brilhando com a indignação de quem leva as regras do pai muito a sério. Arthur, que estava sentado no tapete da sala, ergueu os olhos. Ele estava com uma calça bege e uma camisa branca com as mangas dobradas, descalço, segurando um boneco de ação que precisava de pilhas. — Matteo. — Arthur advertiu, mas o sorriso no canto dos seus lábios traía a sua falsa severidade. — O que nós combinamos sobre a ansiedade? Matteo, nosso garoti
CAMILA NOGUEIRA LONDRES – HOSPITAL ST. MARY'SLá fora, a chuva de Londres continuava a cair. Eu estava sentada numa poltrona desconfortável ao lado da cama, os meus olhos ardendo de exaustão e de tanto chorar, mas recusava-me a fechá-los. A minha mão segurava a de Arthur. A mão dele estava cheia de arranhões, os nós dos dedos esfolados e arroxeados pela violência com que ele lutou pela minha vida. Ele estava pálido. Os médicos disseram que foi um colapso físico total. A perna dele, que foi machucada no acidente meses atrás e que ele forçou além do limite para subir aquela passarela, estava imobilizada novamente. O ombro direito, deslocado no impacto contra a grade com Anabela, tinha sido colocado no lugar. Arthur tinha operado no limite da adrenalina e do desespero por quatro dias seguidos, sem dormir, sem comer, movido apenas pela obsessão de nos encontrar. Olhei para o sofá no canto do quarto. Zoe estava lá, dormindo numa posição impossível, com a cabeça apoiada no braço do
ARTHUR VASCONCELOS Estacionei o carro a cem metros da entrada do antigo moinho. O vento soprava forte vindo do rio, agitando a barra do meu sobretudo preto. Verifiquei a arma no coldre nas minhas costas e a faca presa na minha perna. Respirei fundo o ar salgado e entrei no prédio. Olhei para cima. Havia uma passarela de metal enferrujado que circulava o saguão principal, cerca de cinco metros acima do chão. E lá estavam eles. Camila estava amarrada a uma cadeira, com uma mordaça de pano na boca. Seus olhos estavam arregalados, vermelhos de chorar, e quando me viram, o pânico neles se transformou em um desespero urgente. Ela tentou gritar, mas o som saiu abafado. Ao lado dela, num carrinho de bebê sujo, estava Hope. Anabela estava em pé ao lado de Camila, segurando uma taça de champanhe como se estivesse em uma galeria de arte. E Felipe estava um pouco atrás, segurando uma pistola apontada para a cabeça de Camila. — Bem-vindo à festa! Você foi pontual. Gosto disso. — S
ARTHUR VASCONCELOS Quatro dias. Esse foi o tempo exato desde que o mundo acabou. Eu não sentia mais o meu ombro. A dor da cirurgia recente, dos pontos repuxando a carne rasgada pela bala, havia se tornado um ruído de fundo. O apartamento em Kensington havia se transformado em um centro de comando improvisado. As janelas quebradas foram tapadas com compensado, bloqueando a luz do dia. Monitores brilhavam na escuridão, lançando luz azul sobre os rostos exaustos da minha equipe. Russo estava ao meu lado, digitando furiosamente em um laptop. Ninguém dormia. Se eu fechasse os olhos por um segundo, eu ouvia o grito de Camila. Passei a mão pelo rosto, sentindo a barba por fazer arranhar minha pele. Eu estava me desintegrando. A cada hora que passava, as estatísticas gritavam na minha cabeça. Após 48 horas, as chances de recuperação caem para 50%. Após 72 horas... Eu não permitia que meu cérebro completasse essa frase. Camila estava viva. Eu sabia disso. Ela era minha. E o unive
CAMILA NOGUEIRA O tempo perdeu o sentido na escuridão daquele furgão. Poderiam ter sido minutos ou horas. A única medida de tempo era o ritmo acelerado do meu coração e a respiração curta de Hope contra o meu peito. Felipe estava sentado à minha frente no banco de metal do veículo em movimento, iluminado apenas pelas luzes ocasionais dos postes que passavam pelas frestas da lataria. Ele mantinha a cabeça baixa, as mãos inquietas brincando com a trava da pistola que ele claramente não sabia usar direito. Finalmente, o veículo parou. A porta lateral correu com um rangido metálico agressivo, e o ar frio e úmido da noite invadiu o espaço, trazendo consigo o cheiro de mofo, rio e decadência industrial. — Saiam — ordenou um dos mascarados, puxando-me pelo braço. Tropecei para fora, protegendo a cabeça de Hope. Olhei ao redor, tentando identificar onde estávamos. Parecíamos estar nos fundos de um complexo antigo, talvez uma fábrica abandonada ou um daqueles armazéns esquecidos nas docas
ARTHUR VASCONCELOS O mundo voltou para mim em ondas de dor aguda. Não houve um despertar suave, nenhum momento de confusão sonolenta. Fui arrancado da inconsciência pelo bip rítmico e irritante de um monitor cardíaco e pelo cheiro penetrante de antisséptico que queimava minhas narinas. Antes mesmo de abrir os olhos, senti o ombro esquerdo pulsando, como se alguém tivesse enfiado um ferro em brasa na minha carne e o deixado lá. Abri os olhos. A luz fluorescente do teto agrediu minhas retinas, forçando-me a piscar várias vezes. Hospital. O ataque. Os vidros quebrando. Homens de preto. Felipe. E então, o grito dela. — Camila! — O nome saiu da minha garganta como um rasgo, seco e desesperado. Tentei me sentar, mas o mundo girou violentamente, e uma mão firme me segurou no colchão. — Senhor, não se mova. Por favor. A voz era familiar, embora rouca e fraca. Girei a cabeça para a direita. Russo estava sentado em uma cadeira de plástico desconfortável ao lado da cama. Havia um curati










Último capítulo