Contrato com o Don

Contrato com o DonPT

Romance
Última atualização: 2026-01-19
Valeria Andrade  Atualizado agora
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Índice

Ela foi descartada como inútil. Humilhada como infértil. Expulsa do único lugar onde acreditava pertencer. Após cinco anos de um casamento arranjado dentro da máfia, Ivy perde tudo em uma única noite. O marido a abandona para subir na hierarquia, apresentando exames que provam que ela nunca poderá gerar um herdeiro. Sem proteção, sem nome e marcada pelo passado dos pais, acusados de traição, Ivy se torna um risco vivo. Na máfia, risco é sinônimo de sentença. É então que Matteo, o Don que comanda a família, intervém. Frio. Calculista. Intocável. Ele não oferece compaixão. Oferece um acordo. Proteção em troca de obediência. Silêncio em troca de posse. Segurança em troca do próprio corpo. Ivy sabe que aceitar significa cruzar uma linha sem volta. Mas recusar pode custar muito mais do que a dignidade. Entre jogos de poder, desejo proibido e regras impostas com mão de ferro, Ivy se vê presa a um homem que desperta nela algo tão perigoso quanto a própria máfia: vontade. Porque Matteo não é um salvador. Ele é o homem mais perigoso que ela poderia desejar. E, na máfia, ninguém pertence ao Don sem pagar o preço.

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Capítulo 1

Capítulo 1

— Senhora Romano. Sala de conferências. Agora.

A ordem ecoou pelo corredor antes mesmo de eu ver quem a dava.

Meu corpo reagiu antes da mente, ombros tensos, passo contido, um frio rápido no estômago que não tinha nada a ver com medo comum.

O corredor silenciou.

Conversas cessaram. Risadas morreram no ar. Eu sentia os olhares me acompanhando sem que ninguém ousasse levantar a cabeça.

Não parei.

Meus saltos bateram no mármore em um ritmo controlado. Alto demais. Exposto demais. Cada passo parecia uma contagem regressiva. Eu conhecia aquele silêncio.

Cinco anos casada naquela família me ensinaram isso.

Não era respeito.

Era expectativa.

As portas da sala de conferências estavam abertas.

Aquilo foi o aviso final.

Entrei.

Só homens. Todos sentados. Todos esperando.

O cheiro de cigarro e colônia cara me atingiu primeiro. Depois, o peso do lugar. A mesa longa. As cadeiras de couro. O espaço desenhado para decisões que nunca incluíram mulheres como eu.

Meu marido estava sentado a meio da mesa.

Cinco anos de casamento e eu conhecia aquela postura melhor do que meu próprio reflexo. Ombros largos. Corpo relaxado. Nenhuma tensão. Ele não parecia preocupado.

Ele não olhou para mim.

Foi nesse instante que eu soube.

Sentei na cadeira indicada sem que ninguém precisasse repetir. Costas retas. Joelhos juntos. Mãos entrelaçadas no colo. O couro frio atravessou o tecido fino do vestido.

Eu estava sendo exposta.

Eu era alta o suficiente para chamar atenção quando queria. Cabelo escuro preso com força, porque cabelo solto convidava comentários. Um vestido preto ajustado, escolhido com cuidado naquela manhã. Conservador o bastante para ser aceito. Elegante o suficiente para evitar piedade. Cintura fina, quadris suaves que eu aprendera a disfarçar.

Aprendi a parecer composta.

Aprendi a parecer grata.

Nunca aprendi a ser suficiente.

Na cabeceira da mesa estava Don Matteo DeLuca.

Ele parecia exatamente um homem que nunca precisou se explicar.

Mesmo sentado, dominava o espaço. Alto. Presença sólida. Cabelo escuro com fios grisalhos nas têmporas. Maxilar marcado. Boca controlada. Olhos tão escuros que pareciam engolir a luz.

Terno cinza grafite impecável. Sem gravata. Gola aberta. Poder usado com descuido.

E ele estava olhando para mim.

Não de forma aberta. Nem rude.

De forma precisa.

O olhar percorreu meu corpo lentamente, deliberadamente. Não havia desejo ali. Nem gentileza. Era avaliação, como se medisse danos, como se decidisse o que ainda tinha valor.

Minha respiração falhou antes que eu pudesse impedir.

Calor se enrolou baixo no meu ventre, súbito e humilhante. Meus mamilos endureceram sob o tecido do vestido. Meu corpo reagia quando deveria ter desligado completamente.

Cerrei o maxilar com força demais.

Doeu.

Não ajudou em nada.

— Sente-se.

Não importava quem disse.

Meu marido pigarreou.

Ele sempre fazia isso antes de momentos importantes. Antes de negócios. Antes de discursos. Antes da noite em que me pediu em casamento com um anel caro o suficiente para silenciar perguntas.

— Solicitei a anulação — disse ele.

Cinco anos.

A palavra não pertencia àquele número.

Virei a cabeça devagar, recusando-me a parecer surpresa.

— Com base em quê?

Ele finalmente me olhou.

Não havia hesitação. Nem desconforto. Nem arrependimento.

Só alívio.

— Minha esposa é infértil.

A palavra caiu na sala como uma sentença.

Infértil.

Meu estômago embrulhou.

Por um segundo achei que ia vomitar.

Não vomitei. Ainda.

Algo íntimo arrancado à força. Exposto. Dissecado sem permissão.

Uma pasta branca deslizou pela mesa.

Relatórios médicos.

Não toquei.

Eu lembrava da sala fria. Da voz educada explicando o que eu não poderia dar. Lembrava de assentir como se fosse apenas informação, não uma condenação.

— Isso não se anuncia assim — eu disse. Minha voz vacilou uma única vez. Engoli em seco. — Não em público.

Ninguém respondeu.

Alguém pigarreou.

Outro desviou o olhar.

Don Matteo se recostou na cadeira.

O movimento foi mínimo, mas atraiu minha atenção como gravidade. O paletó abriu levemente, revelando o peito firme sob a camisa. A respiração dele era lenta. Controlada.

— Nesta família — ele disse, com calma — sangue importa.

A voz era suave. Fria. Final.

— Um casamento sem herdeiros é uma responsabilidade.

Responsabilidade.

Não mulher.

Não esposa.

Não cinco anos de lealdade.

E ele não desviou o olhar de mim enquanto dizia isso.

— Tentamos por anos — meu marido acrescentou. — Eu a protegi. Dei tempo. Dei privacidade.

Protegi.

Ele mal me tocara no último ano. Evitava meus olhos. Recuava quando eu me aproximava.

— Ela se beneficiou desse casamento — continuou. — Status. Segurança. Proteção.

Algo rachou dentro de mim.

Cinco anos moldando meu corpo, minhas palavras, minha existência para caber ali.

E agora isso era caridade.

— A senhora estava ciente dessa condição? — alguém perguntou.

Assenti uma vez.

— Sim.

A palavra doeu mais do que eu esperava.

— E não informou antes do casamento?

— Eu não sabia — respondi.

Não importava.

Meu marido suspirou, ensaiado.

— Permaneci ao lado dela por anos.

A sala parecia concordar.

Don Matteo observava tudo sem interromper. O olhar fixo em mim. Constante. Meu pulso acelerou de novo. Meu corpo reagia quando não deveria.

— A senhora contesta a anulação? — perguntaram.

Pensei na aliança no meu dedo.

Pensei que ainda estava lá.

Não estava.

Abri a boca.

— Não.

A palavra caiu pesada.

Meu marido respirou aliviado.

Don Matteo falou novamente.

— O casamento está anulado com efeito imediato.

Simples assim.

— A senhora Romano deixará a residência da família. Será alojada em outro local.

Alojada.

— E quanto ao status dela? — alguém perguntou.

O olhar de Matteo passou brevemente pelo meu marido, depois voltou para mim.

— Ela não está mais sob a proteção do marido. Todos os privilégios decorrentes dessa união estão revogados.

Algo em mim ficou nu.

Sem proteção.

Eu senti meu corpo inteiro de novo, o vestido, a pele, o olhar dos homens.

Levantei-me com cuidado.

Minhas pernas tremeram, mas eu não cedi.

— Senhora Romano — um homem que eu não conhecia se aproximou. — Por favor, acompanhe-me.

Caminhei até a porta.

Antes de sair, senti.

O olhar de Don Matteo.

Agora sem disfarces. Avaliador. Possessivo. Não gentil.

Meu corpo traiu de novo. Calor. Um aperto baixo no ventre. Vergonha misturada a algo pior.

Ele não disse nada.

Apenas observou enquanto eu deixava a sala como uma mulher já retirada do jogo.

As portas se fecharam atrás de mim.

O corredor parecia mais frio. Mais longo.

Cinco anos casada.

E em menos de dez minutos, eu não era mais esposa de ninguém.

Apenas Senhora Romano.

O nome soou estranho.

Como se ainda não fosse meu.

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