Mundo de ficçãoIniciar sessãoEla foi descartada como inútil. Humilhada como infértil. Expulsa do único lugar onde acreditava pertencer. Após cinco anos de um casamento arranjado dentro da máfia, Ivy perde tudo em uma única noite. O marido a abandona para subir na hierarquia, apresentando exames que provam que ela nunca poderá gerar um herdeiro. Sem proteção, sem nome e marcada pelo passado dos pais, acusados de traição, Ivy se torna um risco vivo. Na máfia, risco é sinônimo de sentença. É então que Matteo, o Don que comanda a família, intervém. Frio. Calculista. Intocável. Ele não oferece compaixão. Oferece um acordo. Proteção em troca de obediência. Silêncio em troca de posse. Segurança em troca do próprio corpo. Ivy sabe que aceitar significa cruzar uma linha sem volta. Mas recusar pode custar muito mais do que a dignidade. Entre jogos de poder, desejo proibido e regras impostas com mão de ferro, Ivy se vê presa a um homem que desperta nela algo tão perigoso quanto a própria máfia: vontade. Porque Matteo não é um salvador. Ele é o homem mais perigoso que ela poderia desejar. E, na máfia, ninguém pertence ao Don sem pagar o preço.
Ler mais— Senhora Romano. Sala de conferências. Agora.
A ordem ecoou pelo corredor antes mesmo de eu ver quem a dava. Meu corpo reagiu antes da mente, ombros tensos, passo contido, um frio rápido no estômago que não tinha nada a ver com medo comum. O corredor silenciou. Conversas cessaram. Risadas morreram no ar. Eu sentia os olhares me acompanhando sem que ninguém ousasse levantar a cabeça. Não parei. Meus saltos bateram no mármore em um ritmo controlado. Alto demais. Exposto demais. Cada passo parecia uma contagem regressiva. Eu conhecia aquele silêncio. Cinco anos casada naquela família me ensinaram isso. Não era respeito. Era expectativa. As portas da sala de conferências estavam abertas. Aquilo foi o aviso final. Entrei. Só homens. Todos sentados. Todos esperando. O cheiro de cigarro e colônia cara me atingiu primeiro. Depois, o peso do lugar. A mesa longa. As cadeiras de couro. O espaço desenhado para decisões que nunca incluíram mulheres como eu. Meu marido estava sentado a meio da mesa. Cinco anos de casamento e eu conhecia aquela postura melhor do que meu próprio reflexo. Ombros largos. Corpo relaxado. Nenhuma tensão. Ele não parecia preocupado. Ele não olhou para mim. Foi nesse instante que eu soube. Sentei na cadeira indicada sem que ninguém precisasse repetir. Costas retas. Joelhos juntos. Mãos entrelaçadas no colo. O couro frio atravessou o tecido fino do vestido. Eu estava sendo exposta. Eu era alta o suficiente para chamar atenção quando queria. Cabelo escuro preso com força, porque cabelo solto convidava comentários. Um vestido preto ajustado, escolhido com cuidado naquela manhã. Conservador o bastante para ser aceito. Elegante o suficiente para evitar piedade. Cintura fina, quadris suaves que eu aprendera a disfarçar. Aprendi a parecer composta. Aprendi a parecer grata. Nunca aprendi a ser suficiente. Na cabeceira da mesa estava Don Matteo DeLuca. Ele parecia exatamente um homem que nunca precisou se explicar. Mesmo sentado, dominava o espaço. Alto. Presença sólida. Cabelo escuro com fios grisalhos nas têmporas. Maxilar marcado. Boca controlada. Olhos tão escuros que pareciam engolir a luz. Terno cinza grafite impecável. Sem gravata. Gola aberta. Poder usado com descuido. E ele estava olhando para mim. Não de forma aberta. Nem rude. De forma precisa. O olhar percorreu meu corpo lentamente, deliberadamente. Não havia desejo ali. Nem gentileza. Era avaliação, como se medisse danos, como se decidisse o que ainda tinha valor. Minha respiração falhou antes que eu pudesse impedir. Calor se enrolou baixo no meu ventre, súbito e humilhante. Meus mamilos endureceram sob o tecido do vestido. Meu corpo reagia quando deveria ter desligado completamente. Cerrei o maxilar com força demais. Doeu. Não ajudou em nada. — Sente-se. Não importava quem disse. Meu marido pigarreou. Ele sempre fazia isso antes de momentos importantes. Antes de negócios. Antes de discursos. Antes da noite em que me pediu em casamento com um anel caro o suficiente para silenciar perguntas. — Solicitei a anulação — disse ele. Cinco anos. A palavra não pertencia àquele número. Virei a cabeça devagar, recusando-me a parecer surpresa. — Com base em quê? Ele finalmente me olhou. Não havia hesitação. Nem desconforto. Nem arrependimento. Só alívio. — Minha esposa é infértil. A palavra caiu na sala como uma sentença. Infértil. Meu estômago embrulhou. Por um segundo achei que ia vomitar. Não vomitei. Ainda. Algo íntimo arrancado à força. Exposto. Dissecado sem permissão. Uma pasta branca deslizou pela mesa. Relatórios médicos. Não toquei. Eu lembrava da sala fria. Da voz educada explicando o que eu não poderia dar. Lembrava de assentir como se fosse apenas informação, não uma condenação. — Isso não se anuncia assim — eu disse. Minha voz vacilou uma única vez. Engoli em seco. — Não em público. Ninguém respondeu. Alguém pigarreou. Outro desviou o olhar. Don Matteo se recostou na cadeira. O movimento foi mínimo, mas atraiu minha atenção como gravidade. O paletó abriu levemente, revelando o peito firme sob a camisa. A respiração dele era lenta. Controlada. — Nesta família — ele disse, com calma — sangue importa. A voz era suave. Fria. Final. — Um casamento sem herdeiros é uma responsabilidade. Responsabilidade. Não mulher. Não esposa. Não cinco anos de lealdade. E ele não desviou o olhar de mim enquanto dizia isso. — Tentamos por anos — meu marido acrescentou. — Eu a protegi. Dei tempo. Dei privacidade. Protegi. Ele mal me tocara no último ano. Evitava meus olhos. Recuava quando eu me aproximava. — Ela se beneficiou desse casamento — continuou. — Status. Segurança. Proteção. Algo rachou dentro de mim. Cinco anos moldando meu corpo, minhas palavras, minha existência para caber ali. E agora isso era caridade. — A senhora estava ciente dessa condição? — alguém perguntou. Assenti uma vez. — Sim. A palavra doeu mais do que eu esperava. — E não informou antes do casamento? — Eu não sabia — respondi. Não importava. Meu marido suspirou, ensaiado. — Permaneci ao lado dela por anos. A sala parecia concordar. Don Matteo observava tudo sem interromper. O olhar fixo em mim. Constante. Meu pulso acelerou de novo. Meu corpo reagia quando não deveria. — A senhora contesta a anulação? — perguntaram. Pensei na aliança no meu dedo. Pensei que ainda estava lá. Não estava. Abri a boca. — Não. A palavra caiu pesada. Meu marido respirou aliviado. Don Matteo falou novamente. — O casamento está anulado com efeito imediato. Simples assim. — A senhora Romano deixará a residência da família. Será alojada em outro local. Alojada. — E quanto ao status dela? — alguém perguntou. O olhar de Matteo passou brevemente pelo meu marido, depois voltou para mim. — Ela não está mais sob a proteção do marido. Todos os privilégios decorrentes dessa união estão revogados. Algo em mim ficou nu. Sem proteção. Eu senti meu corpo inteiro de novo, o vestido, a pele, o olhar dos homens. Levantei-me com cuidado. Minhas pernas tremeram, mas eu não cedi. — Senhora Romano — um homem que eu não conhecia se aproximou. — Por favor, acompanhe-me. Caminhei até a porta. Antes de sair, senti. O olhar de Don Matteo. Agora sem disfarces. Avaliador. Possessivo. Não gentil. Meu corpo traiu de novo. Calor. Um aperto baixo no ventre. Vergonha misturada a algo pior. Ele não disse nada. Apenas observou enquanto eu deixava a sala como uma mulher já retirada do jogo. As portas se fecharam atrás de mim. O corredor parecia mais frio. Mais longo. Cinco anos casada. E em menos de dez minutos, eu não era mais esposa de ninguém. Apenas Senhora Romano. O nome soou estranho. Como se ainda não fosse meu.Vieram me buscar pouco depois das sete. Não foi uma pessoa só. Foi uma pequena equipe, como se aquilo fosse logística. Duas mulheres e um homem que não olhou para o meu rosto nenhuma vez. As mulheres se moviam com calma e rapidez, o tipo de eficiência que vem de trabalhar sob regras que não se dobram. — É para esta noite — disse uma delas. Ela colocou a capa de roupa sobre a cama e abriu o zíper com um movimento limpo, treinado. O vestido surgiu como uma decisão já tomada. Preto. Longo até o chão. Ombros nus. Tecido pesado. Costuras estruturadas. Nada de suavidade. Nada de fluidez. Ele manteria a forma independentemente do que eu quisesse. Não tinha sido escolhido para me valorizar. Tinha sido escolhido para controlar a maneira como eu seria vista. Não perguntei para onde iríamos. Não perguntei por quê. Nesta casa, perguntas eram tratadas como ruído. A informação chegava apenas quando servia a quem detinha o poder. Começaram pelo cabelo. Puxado para trás com força. Grampos pr
Três noites se passaram, e eu não saí do quarto. A comida chegava em horários regulares. Eu comia o suficiente para funcionar, nunca o bastante para sentir prazer. A água vinha também, e eu bebia quando minhas mãos começavam a tremer. Dormir nunca vinha de verdade. Quando meu corpo finalmente desligava, era raso e fragmentado, um descanso que não resolvia nada. Então eu escrevia. Página após página, até os dedos doerem e os pensamentos pararem de girar nos mesmos lugares. Medo. Raiva. Desejo. Cálculo. Escrevi o nome dele uma vez e arranquei a página. Escrevi de novo mais tarde, menor, como se reduzir o nome no papel pudesse torná-lo menos perigoso dentro da minha cabeça. Na terceira noite, algo se encaixou. Aquilo não era segurança. Era alavanca. Matteo DeLuca não era refúgio. Era tempo. E tempo podia ser negociado, como tudo naquele mundo. Por dinheiro. Por acesso. Por uma saída, eventualmente. Eu não precisava fugir amanhã. Precisava sobreviver hoje. Na terceira noite, batera
Acordei no chão.A pedra fria contra as costas. O pescoço rígido. O corpo preso numa posição mantida por horas. Por um segundo, não soube onde estava.Depois, o silêncio me lembrou.A mansão.Eu não tinha dormido. Nem perto disso. Lembrava de ter me sentado encostada na parede em algum momento da noite. Vestida. Ainda de sapatos. Dizendo a mim mesma que deitaria depois.Nunca deitei.A cama estava a poucos passos. Perfeita. Intocada.Eu não cheguei perto.A luz da manhã entrava filtrada pelas cortinas, suave demais, controlada demais. Até o dia parecia se comportar diferente ali.Uma batida cortou o silêncio.Seca. Definitiva.— Estão à sua espera.Só isso.Levaram-me de volta ao escritório dele.O caminho pareceu mais curto. Ou talvez meu corpo já tivesse entendido que não escolhia mais a direção.A porta estava aberta.Matteo estava lá.Em pé.Claro.Meu corpo o reconheceu antes da mente.Não foi a roupa. Nem detalhes que eu já conhecia.Foi a maneira como ele ocupava o espaço.Imóv
Eu não dormi.Passei a noite sentada no chão do quarto, as costas apoiadas na parede fria, os joelhos dobrados contra o peito. O vestido que eu vestia desde a casa da minha tia estava amarrotado, pesado no corpo. O tecido grudava na pele. A cabeça encostada no reboco duro. Os olhos abertos.A casa não dormia.Passos distantes no corredor. Portas fechando em algum lugar que eu não via. O som baixo e constante do ar circulando. Tudo funcionava. Tudo seguia.Menos eu.Quando bateram à porta, já era manhã.Não foi um pedido.Foi um aviso.— O Don está esperando.Levantei devagar. As pernas doeram ao esticar. O corpo inteiro parecia deslocado, como se eu tivesse passado a noite inteira em alerta, sem nunca baixar a guarda.O corredor parecia mais longo do que na noite anterior.O escritório era o mesmo.A mesma mesa.O mesmo silêncio.A mesma sensação de que ali nada acontecia por acaso.Matteo DeLuca estava em pé.Como se nunca tivesse saído.Ele me olhou uma única vez.Não havia curiosid
Eles me levaram até a mansão dele.Não me disseram o motivo.Os portões se abriram sem fazer barulho. O carro avançou devagar, o cascalho estalando sob os pneus. Eu estava rígida no banco de trás, as mãos cerradas no colo. Meu coração batia rápido demais. Nada ali parecia convite.Era uma convocação.Por dentro, a casa engolia qualquer som.Não vazio.Controle.Um silêncio que te obriga a ouvir a própria respiração. O som dos sapatos contra a pedra. A noção exata de quão pequena você é dentro de um espaço feito para homens que nunca precisaram ser contestados.Fui conduzida por corredores que eu reconhecia sem querer. Limpos demais. Calculados demais. Cada passo parecia contado.A porta se abriu.Entrei.E a porta se fechou atrás de mim.Matteo DeLuca estava perto da mesa, de costas.Ele não se virou.Parei a alguns passos, sem saber se avançar seria um erro. Meu corpo reagiu antes de qualquer pensamento, coração acelerado, pele sensível, respiração curta. O medo veio rápido… e, por b
A casa cheirava a coisa antiga.Não a lar.Não a vida.A algo preservado por hábito, como se estivesse à espera de pessoas que nunca voltariam.Fiquei parada no corredor estreito sem nada nas mãos.Sem mala.Sem bolsa.Ninguém tinha perguntado se eu precisava de uma.Minha tia fechou a porta atrás de mim. O som ecoou mais pesado do que devia, como um ponto final mal disfarçado.Ela parecia uma mulher que um dia esperou mais da vida e nunca a perdoou por não cumprir. O corpo era magro demais, quase frágil, envolto em roupas escuras escolhidas para desaparecer, não para agradar. O cabelo grisalho estava preso com força excessiva, puxando a pele do rosto até cada linha parecer mais funda, mais dura. A boca era fina, permanentemente caída, como se estivesse sempre decepcionada, mesmo em silêncio.Os olhos eram o pior.Pequenos. Vigilantes. Ressentidos.Olhos que mediam pessoas não pelo que eram, mas pelo custo de mantê-las.Ela não me olhou como família.Olhou como um peso que chegara sem





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