Mundo de ficçãoIniciar sessãoEla foi descartada como inútil. Humilhada como infértil. Expulsa do único lugar onde acreditava pertencer. Após cinco anos de um casamento arranjado dentro da máfia, Ivy perde tudo em uma única noite. O marido a abandona para subir na hierarquia, apresentando exames que provam que ela nunca poderá gerar um herdeiro. Sem proteção, sem nome e marcada pelo passado dos pais, acusados de traição, Ivy se torna um risco vivo. Na máfia, risco é sinônimo de sentença. É então que Matteo, o Don que comanda a família, intervém. Frio. Calculista. Intocável. Ele não oferece compaixão. Oferece um acordo. Proteção em troca de obediência. Silêncio em troca de posse. Segurança em troca do próprio corpo. Ivy sabe que aceitar significa cruzar uma linha sem volta. Mas recusar pode custar muito mais do que a dignidade. Entre jogos de poder, desejo proibido e regras impostas com mão de ferro, Ivy se vê presa a um homem que desperta nela algo tão perigoso quanto a própria máfia: vontade. Porque Matteo não é um salvador. Ele é o homem mais perigoso que ela poderia desejar. E, na máfia, ninguém pertence ao Don sem pagar o preço.
Ler maisA primeira coisa que notei quando cheguei do almoço com as outras mulheres foi que o carro do meu marido estava em casa.
Geralmente, àquela hora, ele estava em uma das boates das quais tomava conta. Sempre. Sem exceção. O carro estacionado ali, imóvel demais, foi um detalhe pequeno, mas suficiente para apertar algo dentro do meu peito. Havia regras silenciosas naquela casa, e aquela era uma delas: ele nunca estava ali àquela hora. O horário dele era fixo, rígido, quase militar. Quando algo fugia a esse padrão, nunca era por acaso. Nunca era bom. Alguma coisa estava errada. Atravessei a casa em silêncio, sentindo o som dos meus próprios passos ecoar mais do que o normal. A casa sempre me parecera grande demais quando ele não estava, vazia de um jeito confortável, quase respirável. Naquele dia, porém, o ar estava pesado, como se cada divisão guardasse uma expectativa tensa. Até os móveis pareciam fora do lugar, testemunhas mudas de algo que eu ainda não sabia nomear. Quando cheguei ao escritório, a porta estava aberta. Ele estava lá. E Don DeLuca também. Meu coração acelerou no instante em que o vi. Sempre acontecia. Não era medo. Também não era respeito. Era uma reação instintiva, visceral, como se o meu corpo reconhecesse nele um tipo de autoridade diferente da do meu marido. Uma autoridade que não precisava ser exercida para ser sentida. Eu nunca soube dizer se era por causa do aspecto físico — alto, musculoso, sempre vestido com ternos de três peças impecáveis, as mãos e o pescoço cobertos por tatuagens que ele não se dava ao trabalho de esconder — ou pela forma como ele olhava para mim. Como se visse mais do que devia. Como se avaliasse algo que não estava à venda. Aquele olhar não tinha pressa, nem curiosidade comum. Era atento demais, pesado demais. Um olhar que não pedia explicações, apenas registava. Don DeLuca não sorriu. Não se levantou. Apenas ergueu os olhos quando entrei. — Boa tarde — murmurei, envergonhada sem saber exatamente por quê. Meu marido não respondeu ao cumprimento. Limitou-se a apontar para a cadeira à minha frente. — Senta. A palavra não veio acompanhada de um tom agressivo, mas não precisava. Cinco anos tinham sido suficientes para eu aprender que naquele escritório não havia espaço para perguntas nem para hesitação. Obedeci. O couro da cadeira rangeu sob o meu peso. Cruzei as mãos no colo para impedir que tremessem. Aquela cadeira sempre me parecera desconfortável, rígida demais, como se tivesse sido escolhida exatamente para lembrar quem estava ali apenas para ouvir. Nunca me sentei ali para algo bom. Don DeLuca permanecia em silêncio, recostado na cadeira, um dos anéis grossos batendo de leve na madeira da mesa, num ritmo lento demais para ser casual. O som repetitivo marcava o tempo da conversa antes mesmo de ela começar, como um aviso silencioso de que tudo já estava decidido. Meu marido pigarreou. — Eu pedi ao Don que viesse aqui hoje para tratar de um assunto importante. O tom era administrativo. Frio. Como se estivesse prestes a discutir números, não a minha vida. Era sempre assim quando ele queria distância emocional. A voz tornava-se neutra, técnica, como se eu fosse parte de um inventário que precisava ser reorganizado. — Pedi a anulação do nosso casamento. As palavras demoraram um segundo a fazer sentido. Depois afundaram. — Como é que é? — perguntei, a voz saindo mais baixa do que eu esperava. Não porque eu não tivesse ouvido, mas porque a ideia parecia absurda demais para existir. Cinco anos não se anulam com uma frase. Pessoas não se apagam assim. Ele deslizou uma pasta sobre a mesa, empurrando-a na minha direção com a ponta dos dedos. O som seco do couro contra a madeira pareceu alto demais. — Cinco anos — disse. — Cinco anos de casamento e você não foi capaz de me dar um herdeiro. Ali estava ele. O argumento que atravessara todos os nossos anos juntos como uma sombra constante. Cada mês sem resposta, cada silêncio prolongado, cada olhar avaliador dirigido ao meu corpo como se eu fosse uma máquina defeituosa. Abri a pasta com mãos rígidas. Laudos médicos. Assinaturas. Carimbos. Palavras técnicas que reduziam o meu corpo a um diagnóstico. Infertilidade. O papel tremia ligeiramente entre os meus dedos, não de surpresa, mas de exposição. Aquilo que sempre fora dito em privado agora estava ali, oficial, validado, transformado em prova. — Há relatórios suficientes aqui para comprovar que o problema não é meu — continuou ele, sem me olhar. — O Don precisava ver isso para autorizar a anulação. Autorizar. Foi nesse momento que entendi. Meu marido falava, mas quem decidia era Don DeLuca. Levantei os olhos devagar. Ele me observava com atenção absoluta. Não havia piedade ali. Nem surpresa. Apenas interesse. Um interesse silencioso, calculado, que me fez prender a respiração. Como se aquele momento não fosse apenas o fim de algo, mas o início de outra coisa que eu ainda não conseguia compreender. — Você está a pedir para me descartar — consegui dizer, sentindo os dedos se fecharem com força ao redor da borda da pasta. Meu marido deu de ombros. — Estou a pedir para corrigir um erro. A palavra erro doeu mais do que qualquer insulto. Porque não vinha carregada de raiva, apenas de indiferença. O anel de Don DeLuca bateu mais uma vez na mesa. Então ele se inclinou para a frente. Não falou alto. Não precisou. — Cinco anos é tempo suficiente — disse, a voz grave, controlada. — Um homem precisa de continuidade. Olhou diretamente para mim. — E você falhou em dar isso. As palavras não vieram como insulto. Vieram como sentença. Senti o rosto queimar. Não chorei. Não implorei. Porque naquele mundo, lágrimas não mudavam decisões. Apenas confirmavam fraquezas. Apenas permaneci ali, sentada, sentindo algo dentro de mim se quebrar com uma clareza quase cirúrgica. Don DeLuca levantou-se. O movimento foi lento, deliberado. A presença dele ocupou o espaço inteiro do escritório quando deu a volta na mesa. Parou perto demais. Próximo o suficiente para que eu sentisse o perfume caro, escuro, contrastando com o ar fechado do ambiente. — O casamento pode ser anulado — disse, por fim. Meu marido soltou o ar que parecia prender desde o início da conversa. Mas Don DeLuca não tinha terminado. — Mas nem todas as dívidas acabam com um papel assinado. O olhar dele desceu até mim por um breve segundo. Depois voltou ao meu marido. — Vamos conversar sobre o que vem a seguir. Quando ele saiu do escritório, o silêncio que ficou foi diferente. Mais pesado. Mais definitivo. Eu continuei sentada, a pasta ainda aberta sobre o colo, os relatórios médicos expostos como uma prova pública da minha falha. O meu marido já não me olhava. Para ele, eu já tinha deixado de existir naquele momento. Mas algo tinha mudado. Porque, pela primeira vez, eu tive a estranha certeza de que deixar de ser esposa talvez não fosse o pior destino possível. Talvez fosse apenas o início de algo muito mais perigoso.Eu não consegui dormir, mas também não consegui fugir da frase.Desde o dia em que eu te vi eu quis você.Ela não combinava com a memória que eu tinha dele.Porque Matteo nunca foi gentil comigo no passado. Nunca foi curioso. Nunca foi suavemente interessado. Ele era frio. Distante. O tipo de homem que não sorri quando não precisa. O tipo de homem que, sempre que me via ao lado de Ricardo, cerrava o maxilar como se estivesse avaliando um erro grave demais para comentar.E eu sempre achei que o erro era eu.A primeira vez que nossos olhares se cruzaram de verdade foi num salão cheio demais, onde eu ainda estava vestindo o papel que Ricardo me deu. Eu me lembro do barulho, das risadas altas, da mão de Ricardo firme demais na minha cintura enquanto ele me apresentava como extensão da própria influência. Eu estava sorrindo, fazendo o que se esperava, sentindo a pressão dos dedos dele como algo normal demais para ser questionado.E então eu senti.Aquela sensação incômoda de estar sendo ob
Ele não saiu quando a porta fechou atrás dele no final da discussão anterior. Ficou ali, a poucos passos de mim, como se o próprio corpo estivesse indeciso entre atravessar o corredor ou voltar para onde eu estava. O telefone ainda vibrava sobre a mesa, insistente, lembrando que o mundo lá fora estava em movimento, mas a tensão que se acumulava entre nós era mais imediata do que qualquer ameaça externa, mais urgente do que qualquer plano estratégico. Ele passou a mão pelo rosto, mas o gesto não organizou nada; só denunciou que a contenção estava no limite. Eu sabia que aquilo ainda não tinha terminado. — Eu nunca pedi para ser sua amante. A palavra saiu enquanto ele ainda estava de costas, e eu vi o impacto antes mesmo de ele se virar. O corpo dele ficou imóvel por um segundo que não foi curto, não foi casual, foi o tipo de pausa que antecede reação instintiva. Quando ele se voltou para mim, não havia frieza no olhar. Havia algo mais perigoso, algo que misturava irritação com algo
Eu percebi que tinha mexido em algo irreversível no momento em que ele ficou em silêncio, mas não foi um silêncio comum, não foi pausa para organizar resposta ou medir palavras, foi aquele tipo de silêncio que antecede impacto, em que o corpo inteiro parece recalcular antes de decidir qual versão de si mesmo vai aparecer. Matteo não se moveu de imediato quando terminei de falar. Ele permaneceu parado atrás da mesa do escritório, as mangas da camisa já arregaçadas, as tatuagens subindo pelo antebraço como se o próprio músculo estivesse mais tenso do que o normal, o curativo no ombro escondido sob o tecido mas a rigidez denunciando que ainda doía. Ele não parecia ferido, parecia contido, e contenção nele sempre foi mais perigosa do que explosão, porque explosão é barulho e contenção é escolha. Ele contornou a mesa devagar, não porque estivesse calmo, mas porque estava escolhendo onde colocar cada palavra antes de atravessar o espaço entre nós. O olhar não saiu do meu rosto, não piscou,
Eu fiquei duas horas andando pelo mesmo corredor antes de tomar a decisão de entrar no escritório dele, e isso por si só já dizia mais sobre a gravidade da situação do que qualquer argumento racional que eu tentasse construir. Não era medo de confronto. Era a consciência clara de que, no momento em que eu dissesse o nome de Ricardo em voz alta, aquilo deixaria de ser uma suspeita solta na minha cabeça e se transformaria em variável ativa dentro do mundo de Matteo, e no mundo dele variáveis nunca ficam paradas. Elas são investigadas, pressionadas, eliminadas. A porta estava entreaberta quando eu finalmente empurrei, e a primeira coisa que me atingiu não foi a tensão no ar, mas a postura dele. Matteo estava de pé atrás da mesa, camisa branca arregaçada até os cotovelos, as tatuagens correndo pelos antebraços como mapas que não foram desenhados por estética, mas por história. O tecido ainda marcava o ombro onde a bala tinha raspado dias antes, e a cicatriz recente parecia lembrar que mi
Eu acordei antes dele outra vez, mas não porque tivesse dormido pouco. Acordei porque meu corpo parecia atento demais ao silêncio, como se algo estivesse fora do lugar mesmo sem fazer barulho. O braço de Matteo ainda estava atravessado na minha cintura, pesado, firme, e havia algo naquele gesto que já não parecia apenas hábito. Ele dormia, mas não completamente entregue. O maxilar ainda tinha tensão e a respiração nunca desacelerava por inteiro, como se mesmo inconsciente ele estivesse pronto para reagir. Fiquei imóvel por alguns minutos, olhando para o teto, tentando organizar uma linha de pensamento que insistia em voltar para o mesmo ponto. Ricardo. O tom daquela conversa não tinha sido provocação barata nem joguinho de ex-marido ressentido. Ele não tentou me tocar, não tentou invadir espaço, não tentou me desestabilizar. Falou como quem já sabia de algo, como quem estava esperando um movimento que ainda não tinha acontecido, mas que ele tinha certeza de que viria. E depois hou
Eu soube que algo tinha acontecido pelo jeito que bateram na porta. Não foi educado. Não foi hesitante. Foi firme demais para ser rotina. A mansão nunca é silenciosa de verdade, mas naquele instante parecia que o ar tinha ficado espesso, como se até o som precisasse pedir permissão antes de sair. — Senhora. A voz do lado de fora estava controlada. Profissional demais. Isso me deu um frio estranho na nuca. Eu abri a porta. O homem da segurança não estava correndo, não estava ofegante. Estava alinhado, postura reta, olhar fixo. — O Don sofreu um ataque. A palavra não ecoou. Ela caiu direto dentro de mim. — Ele está vivo? Minha voz saiu antes que eu pensasse. Houve uma pausa curta. Pequena. Mas existiu. — Está. Só isso. Não disseram que estava bem. Não disseram que estava sob controle. Disseram está. — Ele está a caminho. Eu não lembro de ter atravessado o corredor. Lembro do corrimão sob meus dedos e de uma sensação estranha de que minhas pernas estavam funcionando sem





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