Mundo de ficçãoIniciar sessãoMila sobreviveu a um amor que quase a destruiu. Desde então, ela se protege, dos seus sentimentos, de tudo o que possa fazê-la perder o controle novamente. Até conhecer Lorenzo. O CEO mais respeitado do país. Um homem de presença marcante, acostumado a dominar salas inteiras — mas que diante dela, se torna um protetor. Ele é o oposto de tudo o que Mila acredita merecer. E, ainda assim, o único capaz de enxergar além do medo que ela carrega. Só que o passado não aceita ser esquecido. E o homem que um dia jurou amá-la está prestes a voltar… disposto a lembrar Mila de tudo o que ela mais tenta apagar. Entre o medo e você existe um abismo — e é nele que ela vai descobrir se o amor pode realmente curar o que o terror destruiu.
Ler mais— Como é, Lis? — quase engasgo com a torrada quando a voz da minha secretária preencheu minha cozinha. — Você tá brincando comigo, né?
— Queria estar, Mila… mas não estou. O senhor Castellani pediu para adiantar a reunião. Daqui a uma hora e meia. — Uma hora e meia? — minha voz reverberou pela cozinha enquanto eu tentava equilibrar o celular no ombro e empurrar metade do meu escritório dentro da bolsa. — Lis, eu levo quarenta minutos só pra cruzar a cidade! — Eu sei. Mas você é Mila Moretti. Se tem alguém que chega, impressiona e ainda finge que tá tudo sob controle… é você. Fechei os olhos por meio segundo. Lis sempre soube onde apertar. — Às vezes eu acho que você acredita mais em mim do que eu. — Eu tenho certeza. — ela riu. — Agora vai. Nos vemos lá. A chamada caiu e o silêncio que ficou ecoando na cozinha parecia zombar de mim. Aquele silêncio intrometido, quase insolente. Eu não era de muitos amigos. Não por frieza — mas porque meus limites eram claustrofóbicos e precisos. Aprendi a sobreviver sozinha. Aprendi a confiar pouco. Aprendi a não depender. Lis era a exceção. Olhei para a xícara de café amargo ainda cheia, o vapor já morrendo pela metade. — É… hoje não vai rolar reconciliação, não. — murmurei para a minha bebida. Corri pro quarto. Em dez minutos, fiz o impossível: virei de “mulher normal que tenta sobreviver” para “profissional que intimida a concorrência”. Vestido azul marinho impecável, que abraçava minha cintura do jeito certo. Salto médio que não mataria meus pés nem minha dignidade. O coque mais firme da história da humanidade e alguns acessórios dourados. Olhei meu reflexo no espelho. A mulher que me encarava parecia calma. Completamente segura. A melhor mentira que eu sabia contar. — Quem te vê assim acha que tá tudo sob controle — ri sozinha, sem humor. — Parabéns pela atuação. Já no carro, entre sinais vermelhos e gritos internos, fiz a maquiagem no retrovisor com a precisão de uma cirurgiã desesperada. — Fecha, fecha, fecha… — sussurrei dando palmadinhas no volante, torcendo pro farol colaborar. Cheguei no estacionamento da cafeteria cinco minutos antes do horário — um milagre digno de canonização. O lugar era chique do jeito que te faz endireitar a coluna só de olhar. Fachada elegante, poucos ruídos, salas privativas que brilhavam através dos vidros foscos. Antes de descer, reorganizei tudo no banco do passageiro, conferi mentalmente cada detalhe do que eu tinha que apresentar — e puxei ar como se fosse mergulhar numa piscina funda. — Esse lugar tem cara de café bom… melhor que o que eu tomei em casa, com certeza — murmurei, empurrando a porta. O aroma de grãos frescos bateu em mim como um abraço terapêutico. Era quente, reconfortante, um contraste quase emocional com o caos que eu tinha vivido nos últimos 40 minutos. O ambiente tinha aquele barulho confortável de xícaras, conversas baixas e elegância discreta. Ok, Mila, foco. Meu olhar ainda percorria o menu iluminado e imaginei rapidamente qual deles poderia salvar meu humor. Um latte bem cremoso? Um cappuccino? Até um simples espresso já pareceria um prêmio depois do que tomei em casa. Ou quase tomei, né. Mas então… aconteceu. Virei para o lado e senti o impacto com outro corpo apressado, com tanta força que meus papéis explodiram pelo chão. — Puta que pariu! — escapou antes que eu pudesse impedir. Levei as mãos à boca na mesma hora. — Desculpa, sério — comecei a falar sem respirar, sem olhar pra quem eu tinha atropelado. — Hoje tá sendo um caos, saí atrasada, meu café tava péssimo, fiquei presa em todos os sinais possíveis, e — — Até o que tinha pra dar certo… — uma voz masculina completou a frase em uníssono, era grave, com uma ironia discreta que me gelou por dentro. — Dá errado. Minha mão congelou sobre o papel. A voz dele parecia tocar direto na espinha. Levantei o olhar devagar. E aí o mundo fez aquele truque idiota de desacelerar. Lá estava ele. Alto de um jeito que fazia você recalcular sua postura. O terno cinza chumbo assentava no corpo dele como se tivesse sido moldado a mão. A postura era controlada, calculada, como alguém que tinha plena consciência do próprio impacto. O olhar castanho-escuro… intenso. Aquele tipo de intensidade que desmontava defesas, que analisava além da superfície, que parecia ler coisas que eu jamais tinha permitido que alguém lesse. Um relógio caríssimo no pulso — porque claro que teria — e uma sombra de barba que parecia proposital demais para ser acaso. E eu, claro, estava ajoelhada no chão, recolhendo papéis e fragmentos da minha dignidade. — Eu… desculpa, senhor… — engasguei, com a boca seca. Castellani. Lorenzo Castellani. O nome veio como um alerta. Como um aviso. Como um lembrete de que o universo adorava brincar comigo. Ele se abaixou para pegar o restante dos papéis. Com movimentos precisos e elegantes. E quando nossas mãos se tocaram — mesmo que de leve — um arrepio subiu pelo meu braço com tanta força que eu quase derrubei tudo de novo. Concentra, Mila, pelo amor de Deus. — Não precisa se desculpar — ele disse, entregando os papéis com um sorriso mínimo, quase enigmático. — Parece que o universo decidiu conspirar contra nós dois hoje. Sorri de nervoso. Daqueles sorrisos que não chegam nos olhos. — Ah, então não sou só eu? Achei que fosse perseguição pessoal. Ele soltou um riso suave pelo nariz. Lorenzo Castellani. O homem que comandava uma holding bilionária. O homem cuja agenda tinha poder de decidir fusões, investimentos, carreiras. O homem que todo mundo temia decepcionar. E eu tinha acabado de trombar nele com uma criança desastrada. — Mila Moretti? — Eu mesma — ajeitei o coque, apesar de não ter mexido um fio sequer. Ele não comentou nada sobre a minha entrada dramática, nem o meu festival de desculpas. Apenas caminhou comigo em direção à sala privativa. Por dentro, um pensamento martelava: Se ele for mesmo tão exigente quanto dizem, estou ferrada. Se for tão atento quanto esse olhar sugere… estou mais ferrada ainda. No fundo, eu sabia que deveria estar focada na proposta, nos números, na argumentação. Mas a verdade é que, depois daquele toque, ele não parecia apenas um nome numa pasta de contratos. Ele parecia um desafio. Um daqueles que mexem com mais do que a sua reputação profissional. E, quando a porta da sala se fechou atrás de nós, tive a certeza de que aquele encontro não seria apenas sobre negócios.~ POV do Lorenzo ~ Passei a maior parte da madrugada sentado na poltrona do quarto, encarando a tela do celular como se as manchetes pudessem tomar outra forma se eu piscasse tempo suficiente.“VÍDEO DE NOVA NAMORADA DO EXECUTIVO AGREDINDO EX-NOIVA VAZA NA INTERNET.”“QUEM É MILA MORETTI? A MULHER POR TRÁS DO NOVO CAOS CORPORATIVO.”A cada frase, o estômago parecia encolher.E no meio disso tudo… a imagem da Mila, encolhida na cama, respirando de forma leve, os cabelos espalhados pelo travesseiro.A sala de conferências da Castellani Holdings sempre me pareceu grande demais.Mas hoje… estava pequena.Pequena e cheia de gente demais com opinião demais sobre a minha vida.As janelas panorâmicas deixavam entrar a luz fria da manhã, refletindo no tampo envernizado da mesa oval. Os conselheiros já estavam todos sentados — cada um com seu tablet, seus relatórios e seus olhares que diziam mais do que qualquer coisa .Eu fechei a porta atrás de mim. O silêncio caiu.Vittorio estava à cabecei
Acordei com a sensação estranha de não estar no meu próprio corpo.O quarto tinha um cheiro suave de sabão neutro e madeira polida, tão diferente do perfume doce e enjoativo de champanhe que eu lembrava cobrindo minha pele horas antes.A cabeça pulsava devagar, como se alguém batesse um tambor dentro dela.Respirei fundo — e senti um peso sobre minha cintura.Meu corpo ficou rígido.Virei o rosto só o suficiente para confirmar.Lorenzo estava ao meu lado, ainda dormindo, a respiração profunda, o cabelo bagunçado de um jeito íntimo demais para o caos da noite passada.Olhei para mim mesma, ainda com a mesma lingerie da noite anterior. Sem meu vestido, meus brincos, minha maquiagem… Ele me trocou…Mas não me despiu completamente.Um nó quente subiu até meus olhos antes que eu pudesse impedir.Eu estraguei a surpresa.Fechei os olhos com força quando a lembrança do bar veio inteira, como se alguém tivesse jogado um balde de gelo na minha coluna.Uma vergonha esmagadora caiu sobre mim com
~ POV do Marcos ~O cheiro de água sanitária queimava minhas narinas. A sala onde ficavam os telefones era uma espécie de caixote abafado, sem janela, com paredes encardidas de mofo e suor velho.Um ventilador de teto girava devagar demais para ser útil — fazia mais barulho do que vento.Eu já conhecia aquele lugar melhor do que gostaria. Algumas semanas aqui dentro são suficientes para transformar qualquer um em especialista no próprio inferno. Mas hoje… hoje estava diferente.O carcereiro que me trouxe até aqui me chamou de “senhor Marcos”.“Senhor”.Aqui. Nesse buraco.Ele abriu a porta pra mim como se estivesse abrindo para um juiz.Quando a voz dela entrou na linha, a sala pareceu diminuir.— Boa tarde, Marcos.A Dama.Sempre naquele tom baixo, doce, que parecia conversar por cima da minha cabeça — não comigo, mas com alguém mais importante.Eu respirei fundo, encarando o azulejo rachado da parede.— Então é a senhora hoje… — Minha voz saiu baixa. — A Dama resolveu honrar meu di
O corredor até o jardim parecia mais longo do que antes, e talvez fosse porque minhas pernas não estavam colaborando muito. Chiara me entregou para Lorenzo como quem entrega um cachorro molhado para o dono, ele simplesmente me pegou pelo braço de forma firme. Mas não disse nada. O silêncio dele era pior do que um discurso inteiro.A porta para o exterior se fechou atrás de nós com um baque surdo. A brisa fria bateu no meu rosto quente de álcool e vergonha, e eu fechei os olhos.Lorenzo passou a mão pelos cabelos, irritado. O gesto era forte, rápido, quase agressivo. Ele parecia uma tempestade prestes a romper as nuvens e eu sabia que eu era o motivo.O frio fez meu corpo todo estremecer, então Lorenzo me soltou só por tempo suficiente pra tirar o paletó e colocar nos meus ombros. Eu agarrei o tecido de reflexo, sentindo o cheiro dele grudado no forro.Andamos até um banco de pedra próximo da fonte. Lorenzo me fez sentar, como se eu fosse desmaiar a qualquer segundo. E antes que eu pud
O som do tapa ainda vibrava no meu pulso.O champanhe escorria pelo meu rosto, gelado, misturado ao calor que se acumulava no meu peito. Eu respirava rápido demais. O mundo dava leves empurrões para os lados — não o suficiente pra me derrubar, mas suficiente pra avisar: você bebeu demais, idiota.E então veio a voz. O ar do salão pareceu trincar.Lorenzo avançava pelo corredor como uma tempestade humana. Terno impecável, máscara na mão, o olhar escuro varrendo o ambiente até parar em mim.Primeiro, o meu rosto molhado.Depois, Bianca segurando o próprio rosto como se tivesse sido atropelada.Depois, as dezenas de celulares apontados.E eu nem conseguia dizer nada.A cabeça estava leve.O chão, estranho.Lorenzo parou entre nós, a respiração pesada, o maxilar duro.— Mila… — ele deu um passo na minha direção, mas Bianca se enfiou na frente dele como uma barata atirada na luz.— Lorenzo! — ela gritou, histérica, apontando pra mim como se eu tivesse puxado uma arma. — Ela me agrediu! Ela
As luzes âmbar do bar pareciam ter sido espalhadas com pincel, refletindo nos vidros, nas garrafas e no balcão de mármore como se alguém tivesse passado mel quente em tudo. O som distante da festa chegava abafado, como música tocando do outro lado de uma porta grossa. Um contraste gritante com o caos que ainda fervia dentro da minha cabeça.Sentei no banco alto, soltando a taça de champanhe sobre o balcão num gesto que mais parecia devolver um problema. Meus dedos tremiam levemente, e eu nem sabia se era do frio, da adrenalina ou do tanto de sentimento preso entalado no peito.— Um uísque. Duplo. — minha voz saiu firme, mas minha mão tremia levemente.Chiara virou o rosto tão rápido que quase derrubou a própria máscara.— Mila?!O bartender empurrou um copo de cristal pesado na minha direção. O líquido âmbar, quase vermelho sob aquela luz baixa, subiu quente antes mesmo de eu encostar o nariz no copo. Um cheiro que queimava por dentro.Segurei com as duas mãos — o cristal estava gelad





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