Capítulo 2

A sala privada tinha aquele cheiro sofisticado de café fresco misturado com madeira encerada — um cheiro tão elegante que parecia combinar com o homem sentado à minha frente.

Eu me acomodei na cadeira oposta, tentando ignorar o fato de que minhas mãos ainda tremiam discretamente depois do encontro acidental no meio da cafeteria. Definitivamente não era a primeira impressão que eu queria causar, mas essa era minha chance de mostrar o que eu sei fazer de melhor: o meu trabalho.

Minha pasta estava alinhada milimetricamente na mesa. Meu notebook aberto. Meu sorriso treinado.

À minha frente, o senhor Castellani folheava as páginas que Lis havia organizado. Seus dedos longos, impecavelmente bem-cuidados, deslizavam pelo papel como se estivessem lendo mais do que apenas números.

Detalhista.

Observador.

Assustadoramente quieto.

O tipo de quieto que te faz imaginar tudo que ele não está dizendo.

Projetei o primeiro slide, mesmo percebendo que ele ainda não havia tirado os olhos da pasta.

— Antes de tudo, obrigada pela oportunidade, senhor Castellani — falei, mantendo a postura mais firme que o momento permitia.

Ele fez apenas um gesto leve com a mão, um aceno curto que dizia “prossiga” com a mesma naturalidade de quem respira. Era quase arrogante — mas de um jeito que parecia natural nele. Como se autoridade fosse algo que ele carregava sem esforço.

Respirei fundo e comecei a apresentar.

Expliquei números, estratégias, a proposta de reposicionamento da marca, o lado emocional do público, a criação de valor.

E ele me ouvia. Me ouvia de verdade.

Olhar fixo em mim, o cotovelo apoiado no braço da cadeira e um dos dedos encostando logo abaixo da boca. Ele não piscava muito, e cada vez que sua atenção se intensificava, eu sentia meu corpo reagir com um micro calafrio interno. Como se ele estivesse — silenciosamente — decodificando cada detalhe do que eu dizia. E do que eu não dizia.

A sala parecia pequena demais para aquela tensão corporal, aquela pressão que se acumulava entre nós sem aviso formal.

Quando finalizei, percebi que minhas mãos estavam suadas. A respiração um pouco curta. As bochechas quentes.

Lorenzo pousou os papéis.

Inclinou-se devagar para frente.

Entrelaçou os dedos sobre a mesa.

E disse:

— Interessante.

Uma palavra.

Uma única palavra que fez meu estômago contrair.

Meus olhos brilharam involuntariamente — e eu imediatamente tentei recuperar o autocontrole.

— Muito interessante — ele completou, com algo nos olhos que eu não consegui identificar. Uma espécie de avaliação profunda, misturada com… curiosidade?

Ele se recostou na cadeira, ainda me observando.

— Excelente apresentação, senhorita Moretti. Direta. Objetiva. E… — ele ergueu uma sobrancelha de leve — surpreendentemente criativa.

Surpreendentemente.

Por quê?

Que tipo de criativo ele esperava?

— Vou encaminhar essa proposta ao meu time jurídico para adiantar a parte burocrática — continuou, enquanto seus olhos permaneciam firmes nos meus. — Mas posso adiantar que gostei do que ouvi… e vi.

Tentei manter a postura profissional, mas não consegui evitar o calor que subiu pelo meu rosto. Por que esse “e vi” soou com duplo sentido?

Meu corpo reagiu imediatamente.

Um calor desconfortavelmente perceptível no peito.

Tentei manter a postura.

— Fico feliz em saber, senhor Castellani. Acredito que essa parceria pode trazer ótimos frutos para ambos.

Ele sustentou meu olhar por alguns segundos. Aqueles segundos que valem minutos. E havia algo ali.

Algo que escapava totalmente à frieza corporativa.

Uma avaliação silenciosa.

Uma curiosidade contida.

Um interesse que não deveria estar acontecendo ali.

Ele se levantou, e eu o acompanhei. Sua mão se estendeu — mais uma vez — e tocá-lo reacendeu instantaneamente a memória do toque acidental na cafeteria.

E senti de novo, a descarga elétrica quente subindo pelo braço.

Droga.

— Até breve, Mila — ele disse, com uma suavidade que definitivamente não combinava com a reputação dele.

“Até breve.”

Saí da sala com passos calculados — tentando parecer firme — mas o que eu realmente estava tentando era lembrar como se respirava normalmente.

Assim que abri a porta, Lis estava ali, encostada na parede como quem esperava notícias.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Então? — cruzou os braços. — Sobreviveu ao CEO mais inacessível de São Paulo?

— Sobrevivi — respondi, exausta. — Mas… Lis, eu juro que teve uma hora que eu achei que ele estava lendo minha alma.

Ela riu alto, porque claro, era fácil rir quando você não tinha sido alvejada pelos olhos de um Castellani.

— Não duvido. Ele pediu pra adiantar porque viaja daqui à pouco para Nova York. A filial tá com problemas.

Quer dizer… você vai trabalhar com ele. De perto.

Perfeito.

Exatamente o que meu coração descontrolado não precisava.

— Ótimo — revirei os olhos, tentando esconder o sorriso idiota que ameaçava aparecer. — Legal.

Mas no fundo… havia uma dúvida incômoda.

Um pensamento que insistia em provocar meu cérebro.

Um eco daquele olhar silencioso que ele me lançou várias vezes na reunião.

À noite, quando cheguei em casa, larguei o salto na porta como se ele tivesse me mantido refém o dia todo. Soltei o coque e senti meu couro cabeludo agradecer. Enchi uma taça generosa de vinho — mais generosa do que eu deveria — e fui para o sofá.

Liguei uma série qualquer.

Mas era como tentar preencher um buraco com algodão.

Minha cabeça estava em outro lugar.

Eu tentava assistir a série, mas só conseguia lembrar do modo como ele inclinou a cabeça enquanto eu falava. Do jeito que seu olhar apertava um pouco quando eu fazia uma pausa. Da entonação dele ao dizer “até breve”.

Suspirei fundo, apoiando a cabeça no encosto do sofá, encarando o teto como se a resposta estivesse escrita lá.

— Não, Mila… você só pode estar ficando louca — murmurei em voz alta. — É só trabalho. Só. Trabalho.

Mas o problema — o problema real — é que eu não acreditava nisso nem por um segundo.

E, no fundo, eu tinha a sensação perigosa de que ele também não.

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