Capítulo 4

Os últimos dias tinham sido uma mistura insana de prazos, café quase frio, reuniões atrás de reuniões e uma vontade crescente de arrancar o próprio couro cabeludo. Desde que a Castellani Holdings assinou oficialmente o contrato, a agência estava em um modo frenético que eu secretamente amava. O caos criativo sempre foi meu habitat natural.

Alguns dias já tinham passado desde nossa primeira reunião, e eu ainda não conseguia decidir o que era mais exaustivo: o volume absurdo de demandas … ou o fato de que Lorenzo sempre aparecia na minha linha de visão quando eu menos esperava.

Estávamos no estúdio gravando a última sequência de anúncios. A equipe esbarrava em cabos, as câmeras eram ajustadas freneticamente, a luz refletia nos painéis brancos. E ele… ele observava tudo de braços cruzados, expressão impassível, como se estivesse avaliando até o ar.

A cada vez que eu sentia o olhar dele pousar em mim, meu estômago dava um micro salto irritante. E quando eu, sem querer, acabava retribuindo, ele segurava o contato com uma calma que era quase… perigosa.

Eu analisava um storyboard quando tudo apagou.

A luz piscou uma única vez antes de morrer por completo. O ar-condicionado desligou com um suspiro metálico.

— Caralho — murmurei sem pensar.

Um trovão explodiu do lado de fora, forte o suficiente pra tremer parte das paredes. A chuva veio logo depois, violenta, batendo contra as janelas enormes do décimo andar como se estivesse tentando entrar.

— Gente, calma! — gritei acima da confusão. — Todo mundo seguindo para a saída de emergência! Usem as escadas, nada de elevador!

Celulares se acenderam em pequenos feixes de luz tremida. O vento lá fora uivava entre as frestas, e por um instante eu tive a impressão de que o prédio inteiro iria desabar.

Enquanto todos seguiam para a saída, eu fui na direção contrária.

— Tem alguém aí ainda? — chamei, tateando o corredor. — Alguém ficou pra trás?

Eu sei. É um instinto idiota, mas é mais forte do que eu.

Um vento fortíssimo passou pelo corredor, e a porta atrás de mim bateu com tanta força que eu lentamente me virei já prevendo um desastre.

Girei a maçaneta uma vez. Duas vezes. Nada.

Na terceira, ela quebrou na minha mão com um estalo seco.

— Não, não, não… isso não tá… — suspirei, encostando a testa na porta. — Claro. Óbvio. Tem que ser comigo.

— Aparentemente, tem. — a voz grave atrás de mim fez meu corpo travar.

Virei devagar.

Ele estava ali.

Lorenzo Castellani estava ali. Encostado em uma mesa, mão no bolso, o rosto iluminado apenas pela luz fraca do celular que ele segurava de maneira quase negligente. Ele parecia absolutamente tranquilo, apesar do caos lá fora.

— Você? — perguntei, incrédula. — Tá todo mundo correndo e você tá aí… parado?

— Pânico não costuma ajudar ninguém —respondeu calmamente.

Revirei os olhos. Grande erro, porque um raio iluminou exatamente nesse momento, deixando meu sarcasmo registrado para sempre no universo.

— Certo. E ficar plantado no escuro enquanto o vento tenta arrancar o prédio do chão é a sua grande estratégia?

— E correr para o lado oposto da saída é a sua? — rebateu, dando um passo em minha direção.

Cruzei os braços. Parte pra me proteger. Parte pra disfarçar o fato de que eu estava tremendo só nos dedos.

— Eu vim conferir se alguém ficou pra trás. É o que pessoas responsáveis fazem.

Ele se aproximou um pouco, a luz do celular recortando seu rosto de um jeito que me obrigou a engolir em seco.

— Ou pessoas que acham que precisam resolver tudo sozinhas — ele devolveu, sem pressa.

A frase me atingiu em cheio.

— Desculpa se eu não sou do tipo que fica esperando o mundo desabar para então tomar uma decisão.

A sobrancelha dele arqueou com tanta elegância que era ofensiva.

— Então além dos palavrões sussurrados, você também solta umas verdades quando está nervosa. Interessante.

Franzi o cenho, irritada com o impacto que aquela frase teve dentro de mim.

Um trovão estourou justo naquele momento, tão forte que derrubou alguma coisa na sala ao lado. Dei um pulo involuntário, meu corpo instintivamente recuando — e recuando direto na direção dele.

Lorenzo me segurou pelo cotovelo num reflexo rápido.

Não invasivo.

Mas o suficiente pra despertar um arrepio que subiu pela minha pele como faísca elétrica.

Ele estava perto demais. Perto o suficiente para que eu sentisse o perfume amadeirado, envolvente que ele usava. Perto o suficiente pra eu perder completamente qualquer senso de espaço pessoal.

Meu coração parou por um microssegundo.

— Você é observador demais — murmurei, antes de ter a chance de impedir.

Ele sorriu de lado. Aquele sorriso. O discreto. O calculado. O que deixava meu corpo inteiro consciente da proximidade.

— Profissional deformação — disse, dando mais um passo. — É o que eu faço. Observar. Entender. Antecipar.

— Ótimo — sussurrei. — Deve ser maravilhoso nunca perder o controle.

— Quem disse que eu nunca perco?

O ar ficou mais quente e perigoso. Seus olhos estreitaram como se analisassem cada pedacinho do meu rosto sob a penumbra.

— Sabe, eu gosto do seu jeito! Você é diferente — ele disse, tão perto que eu senti sua respiração quente tocar minha bochecha. — Não tenta me impressionar. Não tenta me agradar. Não tem medo de me enfrentar.

Meu coração batia rápido demais. Dava pra ouvir?

— Você não devia me observar tanto assim — sussurrei.

— Talvez eu não consiga evitar.

Eu olhei para o rosto dele. Mas meus olhos, teimosos, desceram para a boca.

Foi instintivo.

E ele percebeu. Claro que percebeu.

A distância entre nós se dissolveu num silêncio que parecia puxar o ar pra dentro.

— Você… — comecei, sem saber exatamente o que ia dizer.

— Mila? Senhor Castellani? — uma voz ecoou pelo corredor. — Estão aí dentro?

O momento se quebrou como um vidro. Eu dei um passo para trás rápido demais.

Lorenzo nem se mexeu.

— Aqui, Júlio — respondeu, ainda olhando pra mim. — A maçaneta da porta quebrou.

O silêncio que veio a seguir foi quebrado por pés apressados no corredor. Ruídos de ferramentas.

Mas Lorenzo não desviou o olhar. Nem por um segundo.

E, enquanto eu tentava lembrar como se respirava normalmente, ele disse em voz baixa muito, muito perto do meu ouvido:

— Isso aqui não acaba aqui.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App