Capítulo 3

O barulho da chuva batendo no vidro do meu escritório era praticamente a trilha sonora do meu humor. A segunda-feira parecia ter acordado decidida a me testar. A caixa de entrada estava abarrotada, meu café tinha esfriado, e Lis estava há dez minutos narrando, indignada, o fiasco da festa da prima dela no fim de semana.

— …e aí, pra completar, ele ainda teve coragem de reclamar da decoração — ela dizia, mexendo os braços como se estivesse expulsando um espírito maligno.

— Lis… — massageei a têmpora. — Você tem noção que são nove da manhã e você já falou umas mil palavras?

— E daí? Tragédia não tem horário. — Ela se jogou na poltrona. — Mas enfim, me conta de você. Teve crise de ansiedade pós-CEO?

Eu bufei.

— Lis, nada aconteceu. Foi uma reunião. Uma reunião intensa… ok. Mas só isso.

Ela estreitou os olhos como quem não acredita em uma palavra sequer.

— Hum-hum. Claro. Só trabalho. Igual quando você disse que só iria “dar uma olhada rápida” no perfil de seu ex? E depois ficou uma hora stalk—

— LIS. — a repreendi, envergonhada. — Não invoque o passado, por favor.

Ela ergueu as mãos, rendida.

— Tá, tá. Sem fantasmas.

O dia passou arrastado. Entre planilhas, e-mails e uma reunião com um cliente que achava que “impactante” era sinônimo de “usar três fontes neon na mesma arte”, eu já estava no limite da sanidade quando meu celular vibrou.

L. Castellani

“Preciso que revise o relatório 04 e reenvie até às 18h. Obrigado.”

Meu coração deu aquele tranco idiota. Ridículo. Absolutamente ridículo.

Eu reli a mensagem três vezes para garantir que tinha entendido corretamente. Nada sugerindo dupla intenção, nada além de… profissionalismo.

Mas mesmo assim.

O nome dele iluminando a tela causava um efeito que eu não queria admitir nem sob tortura.

Digitei a resposta com a postura mais profissional disponível:

“Claro, senhor Castellani. Revisarei e enviarei no horário solicitado.”

Apaguei.

Reescrevi.

“Claro, senhor Castellani. A versão revisada estará na sua caixa de entrada até às 18h.”

Ok.

Equilíbrio.

Profissional, mas humana.

Enviei.

Lis, que surgia sempre nos piores momentos, apareceu atrás de mim como um fantasma fofoqueiro.

— Foi ele? — perguntou, inclinando-se com uma cara indecente de curiosidade.

— Não. — respondi rápido demais. — Quer dizer… foi. Mas é sobre trabalho.

Ela deu dois tapinhas dramáticos no meu ombro.

— Mila… você tá perdida.

— Cê pode, por favor, trabalhar?

— Posso. — Ela parou na porta, virou-se e completou: — Mas você devia começar a aceitar que isso aí pode não ser só trabalho pra você.

Eu fiquei encarando a porta por alguns segundos depois que ela saiu.

O problema é que uma parte de mim — uma parte teimosa — começava a pensar o mesmo.

Passei o resto da tarde revisando o relatório como se minha vida dependesse daquilo. Talvez dependesse mesmo — ou pelo menos minha reputação diante do homem mais exigente que já me encarou como se estivesse lendo meus pecados.

Às 17h42, o arquivo estava revisado, nomeado, enviado.

Eu me afundei na cadeira, exausta.

Quando o relógio marcou 18h20, meu e-mail notificou:

L. Castellani

Recebido. Excelente trabalho como sempre, Mila.

À noite, resolvi caminhar até o mercado da rua de baixo. Precisava de ar, de normalidade, de qualquer coisa que não envolvesse um terno cinza chumbo e olhos castanhos que pareciam atravessar paredes.

Coloquei um moletom grande, peguei a bolsa e desci as escadas com passos lentos. O ar estava úmido, cheirando asfalto molhado. A cidade tinha aquele brilho amarelado dos postes refletindo nas poças.

Entrei no mercado, peguei um pacote de macarrão, molho, queijo parmesão, e quase bati com o carrinho em uma pilha de biscoitos.

Minha cabeça estava em Nova York.

Ou melhor… em alguém em Nova York.

Cheguei em casa e preparei um jantar simples. A verdade é que cozinhar me acalmava — e eu precisava desesperadamente de calma.

Enquanto a massa cozinhava, o celular vibrou. Não era trabalho dessa vez.

Era Lis:

Precisamos conversar amanhã cedo. É sério.

Droga.

Respondi:

Tô com medo. O que houve?

Ela:

Você tem um crush no CEO, e eu vou te fazer aceitar isso. Boa noite.

Rolei os olhos tão forte que quase vi meu próprio cérebro.

— Eu NÃO tenho… — murmurei irritada.

Mas minha voz não tinha convicção.

Ele ainda não tinha feito nada.

Nada.

Nenhuma insinuação.

Nenhuma quebra de profissionalismo.

Mas o perigo estava justamente aí.

A química estava fazendo sozinha. Ou talvez eu só estivesse fantasiando.

Eu estava perdendo o controle. Devagar. Silenciosamente.

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