Capítulo 5

Quando cheguei em casa, o barulho do meu sapato molhado contra o chão pareceu alto demais. Tudo ali parecia amplo demais, silencioso demais, vazio demais. Era como se o eco da tempestade ainda vibrasse no meu corpo, e junto com isso um pensamento ainda mais complicado.

Lorenzo.

O nome dele entrou na minha cabeça como uma pressão súbita no peito, me fazendo fechar os olhos. Eu ainda conseguia sentir o cheiro dele, o calor do corpo tão perto do meu, o ar preso na garganta quando ele disse aquilo no escuro.

“Isso ainda não acabou.”

Aquela frase ainda ecoava na mente repetidas vezes.

Joguei a bolsa no sofá e fiquei parada no meio da sala, encarando o vazio como se ele fosse me dar respostas. Mas a única coisa que ele me dava era um silêncio cruel, onde todos os pensamentos que eu preferia evitar vinham com força dobrada.

Meus dedos tremiam um pouco.

Talvez fosse a adrenalina?

Eu precisava de alguém.

De uma voz conhecida.

De um toque de realidade.

Peguei o celular, já sabendo quem poderia puxar meu pé de volta pro chão.

“Lis… preciso conversar. Você tá aí?”

A resposta veio antes mesmo de eu raciocinar.

“Me encontra no Reviera, em 20 minutos.”

Olhei o relógio, já se passavam das nove dá noite.

Vesti qualquer coisa, prendi o cabelo num rabo de cavalo e pedi um Uber.

A cidade ainda respirava aquela umidade densa pós-tempestade, com as ruas refletindo luzes e pedaços de folhas grudadas no asfalto. Dentro do carro, eu tentava organizar os pensamentos em caixinhas lógicas, mas eles simplesmente… não se encaixavam.

O caminho foi silencioso, quebrado apenas por perguntas protocolares do motorista.

Lis me esperava no canto reservado do restaurante, aquele que ela sempre escolhia quando sabia que a conversa ia ser séria.

O ambiente rústico, com mesas de madeira maciça, plantas em abundância davam um ar aconchegante e discreto.

Fui recebida por um abraço caloroso, sem nada dito, mas que falava mais que qualquer palavra. Ela sabia que eu estava precisando.

— Você tá horrível! — comentou, sem cerimônia.

— Por dentro eu tô bem pior, amiga. — murmurei, tentando brincar, mas a voz saiu meio falha.

— Pode começar do começo, quero todos os detalhes — disse, ajeitando-se na cadeira com aquele sorriso curioso.

A luz amarela refletia no vinho, fazendo tudo parecer um pouco mais seguro.

Sentei e contei tudo: a escuridão, o pânico do pessoal, a porta quebrada, a tempestade balançando tudo.

Lis ouviu tudo sem me interromper, apenas com aqueles olhos de radar emocional que ela sempre carregava.

— E isso te incomodou? — Ela abriu um sorrisinho perigoso.

— Eu não sei. Sim. Não. Talvez. — Apertei o guardanapo entre os dedos. — Eu organizei a equipe para saída… e acabei ficando presa. Com ele.

Ela bateu na mesa.

— Você ficou trancada no escuro com Lorenzo Castellani?

— Fiquei.

— E aconteceu o quê, Mila? O QUÊ?

Revirei os olhos, mas o rosto queimou.

— Ele… estava muito perto. Muito mesmo. E teve um momento que não parecia só profissional. E antes que eu pudesse dizer… qualquer coisa… o Júlio apareceu.

Lis reclamou tão alto que duas mesas olharam na nossa direção.

Ri, nervosa, apoiando o rosto na mão.

— Eu não sei o que fazer — admiti baixinho.

— Ah, sabe sim — ela retrucou, incisiva. — Você só não quer admitir.

Meu silêncio disse tudo.

— Tá — ela disse por fim, cruzando os braços. — Então você está me dizendo que ficou presa com um homem lindo, inteligente, cheiroso, bilionário e altamente interessado em você… e a sua reação é “estou apavorada”?

— Sim. — Suspirei. — Porque eu tô. Lis… eu gostei dele. Eu gostei demais. E isso me assusta.

— Mila — ela disse, mais suave — ninguém tá pedindo pra você casar com esse homem.

— Não é tão fácil assim.

Ela apoiou os cotovelos na mesa.

— É por causa do Marcos?

A forma direta como ela disse o nome me cortou.

Engoli seco.

— Eu não quero me machucar de novo, Lis. Eu mal consegui juntar meus pedaços depois dele. E o Lorenzo…

— É a primeira pessoa que faz você se sentir viva de novo depois de dois anos.

Lis apoiou sua mão na minha, sem dó, mas com carinho.

— Mila… querer e ter medo ao mesmo tempo é normal. Aliás, é aí que mora a coragem. Você não precisa se jogar de cabeça. Só precisa… se permitir. No seu ritmo.

Meu peito apertou, o corpo entrando naquele estado de luta e fuga.

— E tem outra. — Lis apoiou o queixo na mão, analisando. — Ele te olha como se quisesse decifrar você até na frente dos outros. Isso pode ser perigoso… mas também pode ser muito, muito bom.

Ri, sem humor.

— Ele disse que aquilo… — balancei as mãos em círculos — ainda não tinha terminado.

Lis quase derrubou a taça.

— Mila, pelo amor de Deus, esse homem quer você.

E aquela frase ficou presa na minha mente como uma nota que continua vibrando depois da música acabar.

Felizmente o resto da noite passou rápido, entre confidências, fofocas e risadas. Eu estava me sentindo mais leve.

Quando finalmente nos despedimos já se passavam das onze. Lis já tinha ido embora. Eu fiquei ali, embaixo da marquise, tentando pedir um Uber enquanto o vento começava a soprar de novo.

Foi quando o SUV preto desacelerou diante de mim, devagar, como se estivesse escolhendo o melhor segundo para me encontrar.

O vidro desceu.

— O que faz perdida a essa hora na rua, senhorita Moretti? — perguntou com um sorriso surpreendentemente relaxado.

Era ele.

Eu arregalei os olhos, e um suspiro escapou sem a minha permissão, como uma criança sendo pega fazendo alguma coisa errada.

— Encontrei uma amiga aqui. Mas não estou conseguindo carro…

Antes que eu pudesse terminar de falar ele desceu, deu a volta e abriu a porta do passageiro.

— Acabou de encontrar. E eu não aceito “não” como resposta.

Senti meu rosto queimar por um momento.

— Uh… É um belo upgrade — forcei um sorriso — Mas, sério! Não quero incomodar, senhor Castellani.

— É meu dever cuidar da segurança dos que trabalham comigo.

— Pessoalmente? — provoquei, arqueando uma sobrancelha.

Sua expressão endureceu, sua mandíbula ficou contraída como se eu tivesse tocado em um ponto sensível.

— Foi coincidência eu estar passando por aqui. E, o que você tem a perder?

Olhei ao redor como se buscasse uma resposta, o tempo estava se fechando novamente, e eu definitivamente não queria pagar pra ver.

— Porque não né?! — Assenti e entrei.

O carro era luxuoso, elegante e impecavelmente limpo. Me segurei para não parecer impressionada demais.

Coloquei o cinto e olhei pra ele, por um momento o silêncio pairou no ar, aquele mesmo silêncio que vivemos horas antes naquela sala escura.

Senti minha boca afastar ligeiramente, e um leve suor surgindo em minhas mãos.

Era como se cada respiração, cada batimento cardíaco meu dissesse uma palavra.

Nossos olhos se encontraram. O choque foi o mesmo. Mas uma buzina do carro de trás nos tirou daquela transe.

Ele acelerou o carro, e deixou escapar:

— Seu namorado não se importa com tantas horas de trabalho?

A pergunta veio afiada, mas o tom…

O tom era presunçoso.

— Não tenho namorado. — disse arqueando uma sobrancelha.

— Não? — ele desviou o olhar rapidamente para mim, como quem analisa uma informação importante. — E sua família? Amigos? Alguém espera você chegar em casa?

— Só a Lis. — dei um sorriso sem graça. — Minha família está em Santa Catarina. E… a gente não se fala muito.

Desde que eu saí de Floripa, falar da minha família ainda era complicado.

Ele percebeu o incômodo antes de eu conseguir disfarçar. A mão dele relaxou no volante.

— Não precisamos falar disso — disse com uma gentileza que eu não esperava.

Soltei um suspiro que eu nem sabia que estava segurando.

— E você? — perguntei, tentando retomar o equilíbrio. — Tem namorada?

Um sorriso lento, quase imperceptível, surgiu no canto dos lábios dele.

— Não, Mila. Não tenho.

Meu nome na voz dele com aquele tom fez meu corpo estremecer.

Olhei pela janela, tentando organizar o caos dentro da minha cabeça.

Mas a verdade é que, por um momento, não havia passado, nem medo, nem história pra fugir.

Havia só ele.

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