Mundo de ficçãoIniciar sessãoA narrativa segue o romance de Alec e Sadie, construído em cima de anos de amizade, distância, segredos e desejo contido. Ambientada entre bases aéreas, cafés acolhedores e varandas iluminadas por estrelas, a história explora o retorno de Alec à vida de Sadie, os mistérios que cercam Liam, e a força do amor que sobrevive ao tempo, às dúvidas e às circunstâncias. Acompanhamos a jornada emocional de ambos enquanto enfrentam o passado, se redescobrem como adultos e enfrentam o desafio de recomeçar com coragem, entrega e verdade.
Ler maisA música pulsava como um coração descompassado. “Moth To a Flame” preenchia o ar denso do clube, cada batida vibrando no meu peito como se fosse feita para mim — ou melhor, para aquele momento. As luzes dançavam pelo salão como fantasmas elétricos, azuis e vermelhos, se misturando na névoa artificial que cobria o chão. E então eu a vi.
No centro da pista, com a cabeça jogada para trás, olhos fechados, como se estivesse flutuando entre o som e a luz. O vestido preto abraçava seu corpo com uma intimidade que me deixava hipnotizado. O feixe azul refletia na pele dela, fazendo com que parecesse irreal, como uma visão moldada por desejo e memória. O colar delicado no pescoço brilhava como uma estrela solitária.
Eu a conheço. Sempre a conheci. Desde os tempos em que dividíamos risadas ingênuas e tardes sem promessas. Mas fui covarde — ou cego. Nunca disse. Nunca ousei. Agora, ela está noiva de outro. Ele tem seu sorriso, seus sonhos, suas manhãs.
Mas olhando ela dançar, entregue, livre, eu entendi tudo. Entendi que sempre foi ela. Que cada relacionamento meu foi uma tentativa falha de esquecê-la. Que todas as músicas, todas as noites solitárias, tinham seu nome ecoando nos meus pensamentos.
E ali, parado entre corpos estranhos e desejos que não me pertencem, eu decidi. Eu vou lutar por ela.
Porque às vezes, mesmo quando tudo parece tarde demais, a chama ainda pode queimar. E eu sou só mais uma mariposa — louca, cega — que ainda acredita que pode tocar a luz sem se perder.
Ela girou devagar, como se o tempo obedecesse aos seus movimentos. Cada passo era uma confissão muda, cada gesto, uma poesia que só os atentos conseguiam ler. E eu lia. Como nunca antes.
Meu coração batia forte. Não por causa da música, mas por causa da decisão que acabara de tomar. A dúvida, que por anos me travou, agora parecia ridícula diante da certeza que nascia dentro de mim: ela não é dele. Ainda não. Ainda há tempo.
Caminhei em direção à pista, como quem invade um campo de guerra com o peito aberto. Ela não me viu, perdida naquele transe encantado. O noivo não estava ali. Talvez confiasse demais, talvez não entendesse o que tinha nas mãos. Ou talvez, no fundo, ele soubesse que a alma dela nunca foi completamente dele.
As luzes mudaram. Um feixe dourado caiu sobre ela, e por um segundo, eu juro que o mundo inteiro parou. Ela abriu os olhos. E me viu.
Por um instante, não havia passado, não havia noivado, não havia medo. Só nós dois. O olhar dela me atravessou com uma força que fez minhas pernas quase cederem. Mas eu não parei.
Me aproximei. Não disse nada. Apenas estendi a mão.
Ela olhou, hesitou por uma fração de segundo, e então — como se sempre soubesse que esse momento chegaria — segurou meus dedos.
O mundo voltou a girar. Mas agora era diferente.
Ali, no meio de tantos desconhecidos, dançamos. Pela primeira vez. E mesmo que ela não tenha dito uma palavra, eu ouvi tudo o que precisava. Ainda havia uma chama.
E eu estava disposto a incendiá-la com tudo que tenho.
Cheguei dez minutos antes. Escolhi de propósito uma cafeteria discreta em Silver Lake, longe dos lugares que costumávamos frequentar juntos. Mesas externas, movimento suave da rua, nenhum cheiro de memória grudado nas paredes. Eu precisava de um território neutro. Um lugar onde eu não fosse puxada para trás por lembranças que já não me serviam.Eu estava de jeans escuro, um suéter cinza simples e o cabelo preso num coque baixo. Por fora, calma. Por dentro, um nó apertado na garganta, daqueles que fazem a respiração sair mais curta do que deveria.Liam chegou logo depois. Camisa social com as mangas dobradas até os cotovelos, blazer pendurado no braço. O sorriso ensaiado apareceu no rosto, mas morreu antes de alcançar os olhos. Eu notei na mesma hora. Talvez porque, pela primeira vez, eu estivesse olhando para ele sem filtros.— Você tá bem? — ele perguntou, puxando a cadeira em frente à minha.Assenti sem responder. Esperei o garçom anotar os pedidos — café preto pra mim, chá verde pr
A porta se fechou atrás de mim com um clique quase tímido, e eu encostei as costas na madeira como se minhas pernas tivessem finalmente lembrado que existiam. O ar saiu dos meus pulmões em um suspiro longo, desses que parecem ter ficado presos por anos. Meu coração batia forte demais para ser só nervosismo. Era desejo, alívio, medo e uma estranha sensação de liberdade, tudo misturado no mesmo ponto do peito.Afastei-me da porta e atravessei a sala tentando parecer normal, mas não dei dois passos no tapete quando senti dois pares de olhos cravados em mim. Lisa e Annabelle estavam sentadas no sofá, lado a lado, com aquela expressão inconfundível de quem não estava assistindo nada, apenas esperando o caos acontecer.— Meu Deus — Lisa disparou, arregalando os olhos. — Sua boca tá inchada. Você beijou ele.Annabelle largou a caneca de chá na mesinha e apontou pra mim, rindo: — Tá toda vermelha, Sadie. Tá com cara de protagonista de romance histórico depois do primeiro beijo proibido. Fala
O gosto da Sadie ainda estava nos meus lábios. Doce, urgente, impossível de confundir com qualquer outra coisa que eu já tivesse vivido. Era como se, naquele beijo, todos os anos de silêncio, distância e medo finalmente tivessem encontrado um sentido. Como se o tempo tivesse se curvado, exausto, diante daquele instante.Ela continuava tão perto que eu podia sentir o calor do corpo dela, o peito subindo e descendo rápido demais, como se o ar fosse insuficiente. Os olhos brilhavam de um jeito que me desarmava por completo.— Eu não quero mais esperar, Alec. Já esperei demais…Aquilo bateu em mim como uma liberação. Como se algo que eu mantive represado por anos tivesse finalmente encontrado uma fresta por onde escapar. Fechei os olhos por um segundo, puxando o ar com dificuldade, tentando processar o que aquelas palavras significavam. Não era só desejo. Era escolha. Era coragem.Levei a mão até o rosto dela com um cuidado quase reverente, desenhando o contorno do maxilar com os dedos, c
A casa dele ainda cheirava a sabonete e café. Um cheiro limpo, familiar, quase íntimo demais para alguém que eu estava tentando encarar com racionalidade. Tudo ali parecia simples e acolhedor, tons neutros, móveis de madeira clara, nada excessivo. A cara do Alec.Sentei no sofá e ajeitei o casaco no colo como se fosse uma armadura improvisada. Um gesto pequeno, automático, para me proteger da avalanche emocional que eu sabia que vinha.Ele ficou encostado no batente da porta por um instante, os braços cruzados. A luz da sala desenhava sombras suaves pelo abdômen dele, e eu precisei fazer um esforço consciente para manter os olhos no rosto dele. No lugar certo.— Eu descobri algo sobre o Liam — falei, direta, antes que a coragem evaporasse.Alec descruzou os braços e se aproximou. O semblante mudou, ficou sério de um jeito que fez meu estômago afundar. — Eu também.Levantei os olhos na mesma hora. — Como assim?— Fala você primeiro — ele disse, sentando-se à minha frente, os cotovelos
A campainha tocou com um som seco, direto, atravessando o silêncio da casa como um estalo no ar. Eu estava na cozinha, encostado na bancada, bebendo um copo d’água depois do banho, ainda tentando desligar a cabeça do dia longo. Franzi o cenho na hora.Eu não estava esperando ninguém.Larguei o copo ali mesmo, a água ainda vibrando levemente no vidro, e caminhei até a porta descalço, sentindo o piso frio sob os pés. Vestia só uma calça de moletom cinza, caída relaxada nos quadris. O banho tinha sido quente demais, do jeito que eu gosto quando preciso que os músculos parem de reclamar. Minha pele ainda estava sensível, o vapor parecia não ter ido embora completamente.Abri a porta sem pensar muito.E por um segundo inteiro, tudo dentro de mim parou.Sadie.Ela estava ali, parada sob a luz amarelada da varanda, que tocava os cabelos dela de um jeito quase cinematográfico. O castanho parecia mais quente, mais profundo. Os olhos dela percorreram meu corpo devagar. Sem disfarçar. Subiram do
O quarto estava mergulhado na penumbra, iluminado apenas pelo feixe amarelado do abajur na mesinha de cabeceira. Eu estava deitado de costas, uma das mãos apoiada atrás da cabeça, o olhar preso ao teto como se pudesse encontrar respostas nas sombras invisíveis que se formavam ali. O ventilador girava lento acima de mim, marcando o tempo com uma constância quase irritante, como se cada volta fosse um lembrete de tudo que eu não consegui controlar.Era nela que eu pensava. De novo. Não que eu tivesse realmente parado em algum momento.Desde que Sadie reapareceu na minha vida — de forma real, física, viva — era como se partes de mim que eu mantive adormecidas por anos tivessem despertado de uma vez só. Mas naquela noite, não era o presente que me consumia. Era o passado. Ele me puxava como um redemoinho silencioso, me arrastando para memórias que eu enterrei fundo, achando que o tempo faria o trabalho sujo por mim. Não fez.Eu me lembrava de tudo. De como foi ver aquela garotinha cheia d





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