Mundo de ficçãoIniciar sessãoO sol da tarde deixava tudo meio dourado, como se o mundo tivesse passado por um filtro velho de fotografia. A água da piscina refletia uns feixes de luz que dançavam na pele clara da Sadie, deitada ali do meu lado, com os pés dentro d’água e os olhos perdidos no céu. O cabelo dela, ainda úmido, colava de leve nas têmporas. Castanho com uns reflexos avermelhados que só apareciam quando ela tomava sol. Eu tentei não encarar por muito tempo. Tentei mesmo.
Mas ela estava crescendo. E isso me confundia mais do que eu estava pronto para admitir.
Ela soltou uma risadinha do nada e apontou pro céu.
— Aquela nuvem parece um coelho, olha — disse, como se tivesse descoberto um segredo genial.
Eu sorri também. Não pela nuvem, mas porque ver a Sadie feliz era um alívio. Um lembrete de que o mundo ainda podia ser simples.
— O que você quer ser quando crescer, Alec? — ela perguntou, sem nem olhar pra mim.
Deitei com os braços atrás da cabeça, tentando parecer relaxado. Aquele tipo de confiança que só garotos de dezesseis anos acham que têm de verdade.
— Piloto de caça. Da Força Aérea — respondi, já me vendo no alto, fardado, voando como se fosse dono do céu. — Vou voar acima das nuvens, quebrar a barreira do som…
Sadie virou o rosto pra mim. Tinha um brilho nos olhos que me desarmou na hora.
— E quando você passar com seu avião aqui por cima… — ela apontou pra casa dos pais dela, logo atrás da gente — ...eu vou estar na varanda. De vestido florido e um lenço colorido na mão, acenando pra você, igual aquelas moças dos filmes antigos.
Eu ri, mas a imagem grudou na minha cabeça. Sadie de vestido, cabelos ao vento, sorriso largo, me esperando.
— Promete? — perguntei, sem saber por que a pergunta tinha saído tão séria.
— Prometo — respondeu, esticando o mindinho pra mim.
Cruzei o meu com o dela. Um toque rápido, inocente. Mas que quase me fez prender a respiração.
Ficamos quietos depois disso. Só ouvindo o barulho das folhas com o vento e o som distante de algum avião cruzando o céu.
Fechei os olhos e tentei imaginar o futuro. Eu no cockpit, girando o manche com uma mão só, sorrindo por trás da viseira só porque sabia que ela estaria lá embaixo, me olhando. Sadie, linda, acenando como se fosse a única pessoa no mundo.
Mas o que eu não dizia em voz alta — nem pra ela, nem pra mim mesmo — era que, no fundo, eu não queria só voar.
Eu queria voltar.
E pousar nela.
Porque talvez, só talvez… a Sadie fosse o meu pouso seguro.
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