6 - ALEC, 20 ANOS

Mal tinha passado pelo portão da casa dos Quinn e já senti o peito apertar com aquela mistura esquisita de saudade, ansiedade… e outra coisa que eu não sabia nomear. Um nó que se formava logo abaixo da garganta e não soltava por nada.

O jardim estava todo decorado com luzinhas brancas penduradas nas árvores, balões coloridos flutuando ao vento e uma mesa comprida cheia de doces, salgadinhos e refrigerantes. Era simples. Familiar. Do jeito que a Sadie sempre gostou. Algo que eu não via há dois anos, desde que me mudei pra Boston, direto pro treinamento da Força Aérea.

Eu achei que estava preparado. Que nada ali poderia me pegar de surpresa.

Mas então ela apareceu.

Sadie veio pela porta dos fundos rindo de alguma coisa — provavelmente Annabelle ou Lisa —, e o mundo ao redor parou por um segundo. Ela usava um vestido azul-claro que marcava suavemente o corpo. E por mais que ainda fosse ela — a menina que corria atrás de mim no quintal, que me vencia em todas as partidas de Uno, que usava pijamas de galáxia e falava dormindo — também não era mais.

Ela estava diferente.

Crescida.

Linda de um jeito quase doloroso.

O cabelo castanho caía em ondas soltas pelos ombros, e os olhos — os mesmos olhos que eu conheço desde que ela era um bebê — brilhavam com uma empolgação que me acertou em cheio. Mas havia algo mais. Um jeito novo de se mover. De jogar o cabelo pra trás. De rir com um toque de autoconfiança. Um jeito de ser... mulher.

E o jeito como os outros garotos olhavam pra ela...

Senti uma pontada no peito.

Controle-se, Gallagher, pensei. Você veio como amigo. Como irmão postiço. O cara que prometeu ser o primeiro a sentar no banco do passageiro quando ela tirasse a habilitação.

E então ela me viu.

— Alec! — gritou, abrindo os braços com um sorriso que desmontou todas as minhas defesas. — Meu Deus, você tá mesmo aqui!

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela me abraçou. Apertado. De um jeito que me fez esquecer como se respirava. O corpo dela contra o meu. Quente. Macio. O perfume doce e leve, ainda com aquele fundo familiar… mas agora com um toque mais maduro. Feminino. Inconfundivelmente feminino.

Retribuí o abraço, mas me forcei a recuar. Não podia ficar ali. Perdido nela. Perdido em mim mesmo.

— Feliz aniversário, mini piloto — falei, tentando soar leve, brincalhão, como sempre fui com ela.

— Mini? — ela arqueou a sobrancelha. — Eu já tenho carteira de motorista e uma playlist só com músicas pra dirigir. Acho que já passei do nível “mini”, capitão.

Sorri, balançando a cabeça.

— E está dirigindo com responsabilidade, espero.

— Totalmente. — Ela estendeu as chaves com aquele sorrisinho vitorioso. — E adivinha quem vai ser meu passageiro hoje?

Peguei as chaves das mãos dela, tentando ignorar o calor que subiu pelo meu braço. Fingindo que meu peito não apertava.

— Eu prometi. E eu cumpro.

Mais tarde, sentado no banco do passageiro, tentei me concentrar na estrada. Nas piadas dela. Na música que tocava — algo indie que eu não conhecia. Mas era impossível ignorar os olhares que ela atraía nos semáforos. O jeito como alguns garotos acenavam pra ela nos postos. Como ela sorria de volta, sem perceber o que causava.

E eu…

Eu queria protegê-la.

Mas mais do que isso… eu queria ser o único a tê-la por perto.

E isso… isso não era certo, era?

Talvez fosse só a saudade. Ou o medo de ter perdido espaço na vida dela. Talvez fosse o instinto de cuidar, que sempre esteve comigo.

Ou talvez...

Talvez fosse algo que eu não estava pronto pra admitir. Nem pra mim mesmo.

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