Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu odiei aquele vestido azul no segundo em que o vesti.
Apertado demais no peito, solto demais na cintura. Um meio-termo estranho que, segundo a minha mãe, era “romântico e apropriado para a idade”. Tradução: virginal. Mas eu sorri, fiz pose no espelho e soltei um “Uau, tô praticamente a Cinderela depois do divórcio”, só pra ver ela rir enquanto me maquiava como se minha vida dependesse daquele rímel.
Era o meu primeiro baile da escola. Eu devia estar empolgada. E, de certo modo, estava. Minhas amigas mandando fotos, gifs animados, mensagens com emoji de vestido e sapatinho de cristal. O clássico frenesi de ensino fundamental.
Mas, no fundo, alguma coisa doía.
E não era o sapato.
Era o fato de que ele não ia estar lá.
Alec.
O nome que eu repeti mentalmente mais vezes do que gosto de admitir. Ele era… tudo. O garoto que segurou minha mão quando eu levei ponto na testa, que me ensinou a andar de bicicleta (e gritou “freia!” quando já era tarde demais). O cara que me carregava nas costas quando eu empacava nas trilhas da praia. O que fazia cara feia pra qualquer um que me tratasse mal — e, bom, que uma vez disse em voz alta, na frente de todo mundo, que eu ia ser a esposa dele. Eu tinha cinco anos. Ele, nove. Eu achei ridículo.
Mas nunca esqueci.
O problema era que ele cresceu.
Enquanto eu ainda fazia pulseiras de miçanga e colava adesivos nas capas dos cadernos, Alec virou o tipo de cara que todo mundo olhava. Capitão do time de futebol, cabelo bagunçado no jeito certo, aquele sorriso meio torto que fazia até as líderes de torcida esquecerem onde estavam. E ele sorria de volta.
Eu também sorria. Por fora.
Porque por dentro… doía. Um pouquinho. Só que eu sabia meu lugar. Ele era o garoto de dezoito anos com uma vida inteira pela frente. E eu era a garota de catorze que ainda fazia prova de geografia com mapa mudo e canetinha colorida.
E, além disso, ele me via como uma irmãzinha. Sempre viu, né? Era assim que ele agia. Carinhoso. Protetor. Presente. Aquele tipo de amor que é seguro demais pra ser perigoso. Ou romântico.
Mesmo assim… naquele dia, uma parte de mim desejou. Desejou que ele aparecesse. Que surgisse na porta, meio desajeitado, e dissesse: “Quer que eu te leve? Só pra garantir que ninguém jogue refrigerante no seu vestido.” Eu teria rido. Teria dito sim. E o mundo teria feito um pouco mais de sentido.
Mas isso não aconteceu.
Fui até a casa dele antes da festa. Com o coração acelerado, o vestido me sufocando. Bati na porta. A mãe dele atendeu. Disse que o Alec estava ocupado, estudando, alguma coisa assim. E que eu estava linda.
Eu sorri. Agradeci. E virei de costas antes que ela visse meus olhos encherem d’água.
No baile, posei pras fotos. Dancei com um garoto qualquer — Jake ou Josh, acho. Ele era fofo. Riu das minhas piadas, tentou até me girar na pista. Mas ele não era o Alec.
Ninguém nunca era.
Naquela noite, me deitei com a maquiagem ainda nos olhos, o vestido jogado no chão. Fiquei olhando pro teto, em silêncio, e me perguntei: será que ele pensou em mim hoje? Será que, no meio dos pensamentos sobre aviões e Boston, ele lembrou que a menina da caixa de areia foi ao primeiro baile dela?
Claro que não. Ele tinha outras coisas. Outras meninas. Uma vida de verdade.
E eu?
Eu era só a garota que ele jurou casar quando tinha nove anos.
Nada mais.







