Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu tinha me afastado da festa por alguns minutos. Não que estivesse lotada ou barulhenta demais, mas havia algo dentro de mim que parecia querer explodir se eu não respirasse sozinho por um tempo. O quintal ainda estava vivo com risadas espalhadas pelo gramado, música leve tocando de fundo, o cheiro doce de pipoca recém-feita e aquele perfume inconfundível de bolo de baunilha que parecia abraçar o ar. Tudo tão familiar. Tão confortável. E, ao mesmo tempo, tão diferente. Depois do passeio de carro com a Sadie, eu precisava de espaço. Um intervalo para reorganizar os pensamentos, para entender o que exatamente tinha me atravessado enquanto estávamos sozinhos dentro daquele carro. Porque, por mais que eu tivesse me convencido de que aquilo seria só um momento entre velhos amigos, algo se deslocou dentro de mim. Foi o jeito como ela sorria, confiante e leve, os dedos soltos no volante, a cabeça jogada para trás quando ria das próprias piadas, os olhos brilhando como se o mundo estivesse exatamente onde ela queria. Eu estava acostumado com a Sadie. Conhecia suas expressões desde antes de entender o que elas significavam. Mas agora... agora era diferente. Ela era a mesma, mas havia algo nela que crescia, que se expandia, que me puxava com uma força que eu não queria — ou não conseguia — nomear.
Caminhei pela lateral da casa, onde a iluminação suave das luzinhas penduradas nos galhos ia sumindo aos poucos, engolida pela sombra. O silêncio ali era mais denso, mais íntimo, e por isso talvez eu tenha escutado com tanta clareza o som abafado de risadas e o sussurro arrastado de uma conversa cúmplice. Os passos apressados sobre o cascalho chegaram aos meus ouvidos antes que eu visse qualquer coisa. Meu corpo, por reflexo, desacelerou, atento. E então eu vi. Ali, entre a cerca de madeira e os arbustos altos que dividiam o quintal da casa vizinha, a cena se formou diante de mim como um soco mal dado. Sadie estava encostada na parede de madeira, os ombros relaxados, o corpo levemente inclinado, e um garoto — alguém que eu definitivamente não conhecia, mas que provavelmente estudava com ela — estava curvado sobre ela. A mão dele repousava no quadril dela com uma intimidade que não deveria me incomodar... mas incomodou. E a outra, lenta e insinuante, deslizava os dedos pelo pescoço dela com uma naturalidade que me fez querer atravessar aquele espaço e tirá-lo de lá.
Eu fiquei imóvel por um instante, congelado no próprio espanto, tentando compreender o que exatamente estava sentindo. Não era só ciúmes. Era mais complicado que isso. Era raiva, era frustração, era uma dor inesperada no peito que parecia crescer a cada segundo em que ela não o afastava. Porque ela não o afastava. Ela ria — baixinho, envergonhada, com aquele jeito contido que eu conhecia bem —, mas não recuava. E, de algum modo, isso foi o que mais me atingiu. Não por ela estar ali com alguém. Mas por estar ali com alguém que não era eu. E isso, claro, me colocou contra a parede das minhas próprias convicções.
Porque que direito eu tinha, afinal? Ela não era minha. Nunca foi. Era só uma garota de dezesseis anos, vivendo sua adolescência como qualquer outra, com as primeiras experiências, os primeiros beijos, os primeiros riscos. Era exatamente o que eu sempre soube que ela faria. O que eu, em muitos momentos, encorajei que ela fizesse. E eu? Eu era um homem de vinte anos, vivendo em outra cidade, com uma farda no armário e um cronograma de treinos que incluía acordar antes do sol nascer. Eu era feito de regras. De disciplina. De limites. E, ainda assim, o instinto de proteger a Sadie era mais forte do que qualquer código de conduta.
Respirei fundo, virando o rosto devagar, tentando apagar aquela imagem da retina, como se fechar os olhos fosse suficiente para desfazer a cena. Mas não era. O som abafado da risada do garoto ainda ecoava nos meus ouvidos como um zumbido persistente, incômodo, que me acompanhava mesmo depois que comecei a andar de volta para o centro da festa. Mantive os passos firmes, contidos, como se eu pudesse, com esforço suficiente, engolir o nó que se formava na garganta.
Quando voltei para o gramado, a luz parecia mais forte, e o riso das pessoas mais alto do que antes. Lisa me viu se aproximando e balançou a cabeça na minha direção, erguendo o copo de refrigerante como se brindasse sozinha.
— Você sumiu, Gallagher. Achei que tinha fugido da animação — comentou, com aquele sorriso que ela usava quando sabia que havia algo errado, mas preferia fingir que não.
— Fui procurar mais gelo — respondi, e me surpreendi com a neutralidade da minha própria voz.
Peguei um copo e me encostei no batente da porta dos fundos, observando a movimentação com uma calma que era toda encenada. Foi então que ela reapareceu. Sadie voltava de trás da casa, o rosto corado, os cabelos um pouco bagunçados, os olhos procurando algo — ou alguém. Quando me encontrou, abriu um sorriso pequeno, tímido, quase automático, e por um instante, eu quis devolver esse gesto com alguma palavra, alguma atitude... mas tudo o que consegui fazer foi levantar o copo em um aceno discreto, como se aquilo fosse suficiente para manter o mundo em equilíbrio.
Naquele momento, enquanto ela voltava para o grupo das amigas, rindo e mexendo no cabelo do jeito que fazia quando estava sem graça, eu percebi com uma clareza quase cruel que ela estava crescendo, se afastando, se tornando alguém que o mundo inteiro ia olhar. E eu? Eu precisava ser tudo aquilo que prometi a mim mesmo que seria: constante, confiável, seguro. Mesmo que isso significasse manter uma distância que me rasgava por dentro.
Ela ainda era quatro anos mais nova, ainda vivia no universo das playlists adolescentes, das séries de romance e dos crushes passageiros. Eu, por outro lado, era o cara que tinha deixado tudo isso pra trás. O homem feito de escolhas e renúncias. E talvez essa fosse a maior de todas.
No fim daquele dia, sentado no quintal de sempre, com o copo de refrigerante na mão e o coração em ebulição, eu assisti Sadie rir com as amigas, rodando um pedaço de balão estourado entre os dedos e parecendo feliz de um jeito quase etéreo. E naquele instante, entendi — talvez mais claramente do que nunca — que ela era uma estrela em ascensão, crescendo e brilhando cada vez mais forte. E que o meu papel, agora, era o de ser o céu ao redor dela. Silencioso, constante, discreto. Mesmo que o que eu mais quisesse fosse voar em sua direção, tocá-la com as próprias mãos e não deixar nunca mais.







