4 - ALEC, 17 ANOS

Eu mal tive tempo de reagir.

A porta se abriu e, de repente, ela estava ali. Sadie. Parada na entrada do quarto, com os olhos arregalados e aquela expressão... Deus, aquela expressão. Como se eu tivesse acabado de quebrar algo sagrado entre nós. Como se eu tivesse traído algo que ela nunca disse em voz alta, mas que eu sempre soube que existia.

— Sadie...? — murmurei, erguendo o tronco de supetão.

Mas ela já não estava mais ali. Só ficou o som dos passos correndo pela escada, da porta batendo com força... e o silêncio que veio depois. Um silêncio pesado. Cortante. Quase cruel.

Ficou só o cheiro dela no ar. E a sensação de que algo precioso tinha escapado por entre os meus dedos.

— Que diabos você fez? — me virei pra Jordan, tentando conter a raiva que já se espalhava como fogo.

— Eu? — ela arqueou a sobrancelha, ajeitando a blusa com um gesto de desprezo. — Eu não fiz nada. Ela entrou aqui como uma intrometida. Essa sua amiguinha vive se metendo onde não deve.

— Não a chame assim.

Minha voz saiu firme. Fria. Um corte limpo no meio daquela palhaçada.

Levantei da cama e passei as mãos pelo rosto, como se isso fosse o suficiente pra apagar o gosto amargo da culpa. Não era.

— Ela só queria me dar um presente. Hoje é meu aniversário e ela... — Olhei pro corredor. Foi aí que vi. A caixinha caída no chão. O papel rasgado. O laço torto. Pequena demais pra conter tanta intenção.

Meu peito apertou.

Jordan bufou, cruzando os braços como se estivesse entediada com tudo.

— Alec, pelo amor de Deus. Ela tem treze anos. Vai crescer e superar. Você trata essa garota como se fosse sua irmã ou sei lá o quê.

— Ela não é minha irmã — falei baixo, como se até pra mim aquilo doesse. — E o que ela sente... o que eu sinto... não diz respeito a você.

Jordan soltou uma risada seca, sem graça.

— Ah, entendi. Está apaixonado pela menininha? É isso?

Fiquei parado. O maxilar travado. E, pela primeira vez, encarei aquilo de verdade. Talvez eu já soubesse. Não era uma paixão boba, nem algo que eu conseguia nomear com facilidade. Era mais profundo. Um tipo de vínculo que nasceu comigo. Que cresceu junto com ela. Não era desejo. Era instinto. Era cuidado. Era... amor?

Não sei. Mas era forte. E real. E a última coisa que eu permitiria era ver alguém machucando a Sadie. Especialmente alguém como Jordan.

— Isso aqui acabou, Jordan — falei com calma. Mas não tinha volta. — Você nunca mais fala dela com desrespeito. Nunca mais.

Ela me olhou como se eu tivesse enlouquecido.

— Tá terminando comigo por causa de uma pirralha?

— Tô terminando com você porque você não respeita ninguém além de você mesma. Nem a ela. Nem a mim.

Saí do quarto antes que ela pudesse responder.

Me abaixei no corredor e peguei a caixinha com cuidado, como se fosse feita de vidro. O laço ainda estava lá, amassado. Abri com os dedos trêmulos.

Era um avião de caça. Prateado. Igualzinho ao que eu tinha mostrado pra ela, meses atrás, num catálogo velho da escola de aviação.

Ela lembrava.

Ela pensou em mim.

E eu... eu tinha acabado de magoá-la de um jeito que talvez não pudesse consertar tão cedo.

Mas juro por Deus. Eu ia tentar. De verdade. Mesmo que levasse anos.

***

Eu soube que ela não tinha ido pra aula assim que cheguei na escola.

A árvore onde ela sempre esperava pela Lisa, com um livro no colo e as pernas cruzadas de um jeito distraído, estava vazia. O sol batia do mesmo jeito de sempre, mas o lugar parecia... errado. Faltando alguma coisa. Faltando ela.

Meu peito afundou de um jeito estranho. Pesado. Eu tentei prestar atenção nas aulas, mas a cada vez que piscava, era o rosto dela que me vinha à cabeça. O olhar. A tristeza. A decepção cravada fundo como uma ferida que fui eu quem causei.

Quando o sinal tocou, saí direto. Nem pensei.

Passei no mercadinho da esquina e comprei o chocolate que ela gostava — aquele com recheio de caramelo que ela sempre escondia no fundo da mochila pra fazer durar a semana inteira. Eu sabia disso porque ela sempre me dava o último pedaço, mesmo fingindo que não queria dividir.

Fui até a casa dos Quinn. O portão dos fundos estava destrancado, como sempre. O cheiro das roseiras da mãe dela me atingiu de cheio. Quase me fez tropeçar na memória — os verões, a piscina, a risada da Sadie ecoando no quintal. O tempo em que tudo era simples. O tempo em que eu ainda não tinha estragado tudo.

Subi os degraus da varanda com o coração na garganta e bati de leve na porta de tela.

Foi a mãe dela, dona Lidia, quem atendeu. Os olhos dela suavizaram quando me viu, mas tinham algo a mais ali... um tipo de dor silenciosa. Compreensão.

— Ela está no quarto. Não quer sair desde ontem — disse, baixinho. — Mas talvez… talvez ela precise ver você.

Assenti, agradecido. Subi as escadas como se cada degrau pesasse o dobro. Meus pés pareciam de chumbo. Parei diante da porta dela. Bati duas vezes, com o coração disparado.

— Sadie?

Nada.

— Eu… eu trouxe isso pra você — falei, deixando a caixinha de chocolate no chão, encostada no batente. — E o avião. Ele tá na minha estante. Se quiser pegar de volta, pode. Mas… eu espero que não queira. Eu adorei ele.

Virei o corpo, pronto pra descer. Mas então ouvi o rangido da porta. Fraco. Hesitante.

Ela apareceu.

Os olhos vermelhos. O rosto inchado de tanto chorar. Estava de moletom, com o cabelo preso de qualquer jeito, uma mecha caindo no rosto. Mas, pra mim... ela nunca pareceu tão bonita.

— Por que você não trancou a porta? — perguntou, baixinho, sem olhar nos meus olhos.

Engoli em seco.

— Porque… sei lá. Não achei que ia chegar ninguém em casa naquela hora...

Ela ficou em silêncio por um instante. Depois levantou os olhos. Aqueles olhos.

— Ela disse que era “a mulher que você precisava.” Que eu era só uma garotinha.

A raiva subiu, quente, mas eu respirei fundo. Não era hora de explodir.

— Sadie… você é a pessoa mais incrível que eu conheço. Sempre foi. Eu nunca... nunca quis te magoar. Eu não sabia que você viria. E se soubesse, teria feito qualquer coisa pra impedir aquilo. Eu juro.

Ela me olhou por um momento que pareceu uma eternidade. Depois baixou o olhar de novo.

— Foi meu primeiro presente comprado com dinheiro que eu juntei sozinha.

Dei um passo mais perto, devagar.

— Foi o melhor presente que eu já ganhei na vida.

Ela cruzou os braços, como se estivesse tentando se proteger de mim... ou de si mesma.

— Você vai parar de falar comigo agora? Porque eu sou só uma “menina”?

Balancei a cabeça.

— Nunca. Você é minha melhor amiga, Sadie. E… mais do que isso. Eu só não sabia como lidar com tudo que eu sinto quando estou perto de você. Talvez ainda não saiba. Mas tem uma coisa que eu posso prometer: eu nunca mais vou deixar ninguém te fazer sentir pequena. Nem mesmo eu.

Ela soltou um suspiro longo. E, pela primeira vez desde ontem, abriu mais a porta.

— Então entra. Mas não fala mais nada por enquanto, tá? Só… fica aqui.

Eu entrei.

Sentei ao lado dela, no carpete do quarto. E ela encostou a cabeça no meu ombro. Quietinha. Com os olhos fechados.

Naquele instante, no meio de todo o caos que eu mesmo criei, eu soube: por mais que a gente se machucasse às vezes, eu ainda era o lugar seguro dela.

E ela era tudo pra mim.

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