Mundo de ficçãoIniciar sessãoA vida tem esse jeito esquisito de correr justamente quando a gente mais queria que ela andasse devagar. Era como se alguém tivesse pisado no acelerador no último ano do ensino médio e esquecido onde ficava o freio. Um dia eu estava jogando no quintal, e no outro… empacotando meu quarto, preenchendo formulários e comprando casacos que eu nunca pensaria em usar na Califórnia.
Boston.
Frio, distante, prestigiado. Tudo o que eu sempre quis, tudo pelo qual lutei. Mas também tudo o que me afastava do que eu mais conhecia — do quintal poeirento, das praias douradas, do cheiro de maresia grudado na pele. Eu estava feliz, claro. Orgulhoso. Mas tinha algo fora do lugar. Algo que pesava nos ombros toda vez que eu pensava em ir embora.
Sadie.
Ela tinha 14 anos agora. Estava prestes a ir ao primeiro baile da escola. Vi quando experimentava vestidos com a mãe, outro dia, enquanto eu esperava meu pai na garagem. A janela da sala estava aberta. Por um segundo, foi como se eu a visse de novo, pequenininha, na caixa de areia... mas com outra luz. Um brilho agridoce. Indefinível. Quase doído. Ela estava crescendo. Rápido demais.
Naquela noite, eu realmente considerei me oferecer pra levá-la ao baile. Não como um par romântico. Pelo menos era o que eu repetia pra mim mesmo. Mas como alguém que sempre esteve lá. Que ela conhecia. Que faria ela se sentir segura.
E talvez… talvez porque uma parte de mim quisesse ser o primeiro cara com quem ela dançasse numa noite importante.
Talvez porque, bem no fundo, eu quisesse ser todas as suas primeiras vezes.
Com esse pensamento mal resolvido martelando na cabeça, fui até meu pai.
— Pai, você acha que seria estranho se eu levasse a Sadie na festa da escola?
Ele nem me olhou de primeira. Continuou limpando o carburador da caminhonete, como se estivesse processando cada palavra. Depois soltou um suspiro longo.
— Ela tem 14 anos, Alec.
— Eu sei, mas... eu não tô falando de levar como um encontro. Só... só pra ela não ir com um daqueles moleques idiotas.
Aí ele me encarou. Sério. Direto.
— Você já tem 18. Vai atravessar o país em dois meses. Sadie ainda é uma menina, por mais madura que pareça. Ela precisa viver essas coisas com gente da idade dela. E você... você precisa entender que o seu lugar ao lado dela talvez precise mudar agora.
As palavras dele me acertaram como um soco seco no estômago. Porque eu sabia que ele estava certo. E porque doía.
Na noite do baile, eu não fui ver ela.
Fiquei no meu quarto, fingindo que estudava. Fingindo que não estava com o estômago virado. Minha mãe bateu na porta mais tarde e disse que a Sadie tinha vindo mostrar o vestido. Que parecia nervosa. Que ficou desapontada quando eu "não estava". Ela não me cobrou nada, mas o olhar dela dizia tudo.
Depois, já deitado, rolando o feed do I*******m sem rumo, a foto apareceu.
Sadie de vestido azul-claro. Sorriso tímido. E um garoto ao lado. Da idade dela. Um desses meninos de rosto liso e olhar vazio, que ainda não aprenderam o que é se importar com alguém de verdade.
Meu peito apertou.
Não sei se era ciúmes. Ou saudade. Ou medo.
Medo de que o mundo começasse, de fato, a construir um espaço entre nós dois. Um espaço que talvez nunca mais se fechasse. Que ela fosse viver coisas sem mim. Que, quando eu voltasse, ela já tivesse se tornado outra. Que ela deixasse de ser o meu cometa. A garota da areia. A menina que me fazia sentir que eu pertencia a algum lugar.
Mas mesmo assim… eu fui.
Embarquei pra Boston com o coração pesado, carregando cada lembrança, cada detalhe, cada silêncio que só ela sabia preencher.
Porque, apesar de tudo, eu ainda sentia.
E, no fundo, talvez eu sempre fosse sentir.







