Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu mal conseguia parar de sorrir enquanto ajeitava o laço da caixinha azul-clara. Meus dedos tremiam um pouquinho, mas era de ansiedade boa, daquela que faz a barriga parecer um balão prestes a flutuar. Dentro da caixa, o aeromodelo prateado brilhava ainda embalado com todo cuidado — exatamente como veio da loja. Eu levei semanas juntando minha mesada. Recusei sorvete, cinema, até deixei de comprar um caderno novo que eu queria só pra conseguir pagar por aquilo. Mas valia a pena. Porque era o modelo que o Alec tinha comentado semanas atrás, meio distraído, como se nem percebesse que estava falando alto.
E hoje… hoje era aniversário dele. Dezessete.
Quando vi o carro dele parar na garagem dos Gallagher, meu coração disparou como se eu estivesse correndo. Eu podia só bater na porta, como sempre fazia, mas hoje queria algo diferente. Uma surpresa. Um momento só nosso. Eu subiria as escadas devagar e apareceria no quarto dele com a caixinha nas mãos. Bobo, talvez. Infantil, com certeza. Mas pra mim, parecia mágico. Quase romântico.
Empurrei a porta entreaberta da casa como se estivesse entrando num segredo. O silêncio parecia cúmplice. Cruzei a sala, subi os degraus dois a dois com a caixinha apertada contra o peito. Eu sabia o caminho até o quarto dele de olhos fechados. A gente já tinha brincado tantas vezes ali. Já tínhamos rido até doer a barriga, contado segredos em voz baixa, jogado videogame até tarde.
Mas naquele dia... o riso ficou preso em mim.
Eu empurrei a porta com cuidado, ainda sorrindo. E então tudo parou.
Jordan.
Em cima dele.
A saia curta subindo pelas coxas. O sutiã escuro aparecendo por baixo da blusa aberta. As mãos dela nos ombros dele. A risadinha abafada. Alec deitado, sem camisa, os olhos fechados. As mãos... nos quadris dela.
Meu coração parou junto com a cena. Como se tivesse esquecido como bater.
O som da porta foi baixo, mas Jordan ouviu. Ela virou o rosto na hora. E o que eu vi nos olhos dela não foi susto. Foi algo pior. Foi aquela superioridade cruel que só algumas garotas sabem ter. Um tipo de riso que não sai da boca, mas arde mesmo assim.
— Ai, que fofa — ela disse, rindo com deboche. — A mascote veio fazer visita.
Alec virou o rosto. Nossos olhos se encontraram. E eu vi. Primeiro confusão. Depois, vergonha. Ele se moveu, como se fosse se sentar, falar alguma coisa. Mas já era tarde demais.
Eu corri.
Nem pensei. Só corri. Escadas, porta, rua — tudo virou borrão. O vento batia no meu rosto, mas não era o suficiente pra secar as lágrimas. Elas já escorriam quentes, grossas, sem nem pedir licença.
A caixinha escorregou da minha mão no corredor e caiu no chão com um som seco. Pequeno. Mas dentro de mim pareceu um estrondo. Como se tudo tivesse desmoronado de uma vez só.
Eu só queria sumir.
Talvez, lá no fundo, eu já soubesse que ele não era meu. Não ainda. Mas ver com os próprios olhos que ele era de outra — uma garota mais velha, mais bonita, mais... mulher — foi como levar uma facada no peito. Uma daquelas que a gente nem vê chegando.
Naquele dia, eu descobri que a gente pode sentir saudade mesmo estando a dois passos de distância. E que o amor, às vezes, dói antes mesmo de começar.







