1 - ANTES, ALEC

Eu me lembro da primeira vez que vi a Sadie — ou melhor, do instante exato em que entendi que o mundo nunca mais seria o mesmo. Eu tinha quatro anos, e meus pais, como faziam quase todo fim de semana, me arrastaram até a casa dos amigos deles. A diferença é que, naquela tarde abafada de verão, havia uma novidade no berço encostado no canto da sala: uma recém-nascida de rosto amassado, vermelho, os olhos fechados como se ainda sonhasse com outro mundo.

— Ela se chama Sadie — disse a mãe dela, sorrindo.

Eu — um molequinho de camiseta de dinossauro, joelhos ralados e o cabelo grudado na testa — dei um passo tímido em direção ao berço. Ela era tão pequena. Tão frágil. E, mesmo tão novo, algo dentro de mim se acendeu. Não era amor, não ainda. Era outra coisa. Mais simples, mais instintiva. Um tipo de certeza que só uma criança é capaz de sentir: eu vou cuidar dela.

E foi exatamente o que eu fiz.

Durante toda a infância, a gente foi como duas peças do mesmo quebra-cabeça. Onde eu estava, ela estava. Dividíamos brinquedos, segredos, silêncios. Eu era sempre o primeiro a segurar a mão dela quando ela caía. O primeiro a enfrentar quem quer que fosse que a fizesse chorar — mesmo que fosse um adulto. O que eu sentia por ela era simples, limpo, e ao mesmo tempo grande demais pra um garoto saber dar nome.

Mas eu sentia.

O tempo parecia correr diferente quando estávamos juntos. A infância foi um verão sem fim: tardes nas casas dos nossos pais, aventuras no quintal, acampamentos de lençol amarrado na cadeira. Sadie era risonha, cheia de perguntas, inquieta. Sempre queria mais — subir mais alto, correr mais rápido, descobrir o que tinha depois da curva do caminho de terra. E eu, mesmo com meu jeito mais quieto, seguia atrás dela como uma sombra fiel. Porque era isso que eu era pra ela: escudo, chão firme, porto seguro.

A gente tinha nossos códigos, nossas músicas bobas, apelidos secretos. Ela me chamava de capitão porque, um dia, inventei uma missão de resgate em que ela era a princesa presa na torre — que, na real, era o galinheiro da avó dela. E eu chamava ela de meu cometa, porque ela sempre chegava de repente, cheia de luz, bagunçando tudo num caos bonito.

Mas teve um dia em especial que ficou cravado em mim como uma cicatriz boa. Daquelas que a gente passa o dedo e sorri.

Estávamos no parquinho do bairro, num fim de tarde qualquer. Sadie tinha uns cinco anos, e brincava na caixa de areia tentando fazer um castelo com um balde quebrado. Eu, com nove recém-completados, observava tudo sentado na borda do escorregador. Foi quando um moleque — um pouco maior que ela, de camiseta azul e cara de poucos amigos — correu até lá e deu um chute no monte de areia bem no meio do cabelo dela.

Ela tossiu, esfregou os olhos, sem entender, e ele já estava rindo.

Eu não pensei. Meu corpo se mexeu antes da minha cabeça alcançar.

Corri até ele e o empurrei com força.

— Ei! — gritei. — Não encosta nela!

Ele cambaleou, surpreso, e quando tentou falar alguma coisa, eu já tinha me colocado na frente dela, braços abertos feito escudo.

— Ela vai ser minha esposa quando a gente crescer, então você respeita!

Minha voz saiu alta, meio trêmula, mas cheia de convicção. E quando percebi o que tinha dito, já era tarde. Tinha escapado. Do fundo de mim.

Sadie me olhou com aqueles olhos enormes, espantados, brilhando com alguma coisa que eu não sabia decifrar na época.

— Você é bobo — disse ela.

Mas sorriu.

E, a partir daquele dia, eu soube que algo tinha mudado. Não na rotina — a gente ainda corria, ainda brigava pelo balanço, ainda inventava histórias pra fugir da hora de dormir. Mas dentro de mim, uma ideia começou a ganhar raízes. Que eu era dela. Que ela era minha. Que, de algum jeito, era assim que o mundo queria que fosse.

Claro que o tempo seguiu em frente, como sempre faz. Vieram os anos de escola, os amigos novos, as fases esquisitas. Mas mesmo quando a vida parecia puxar a gente pra lados diferentes, tinha algo que nos mantinha orbitando um ao outro. Uma força antiga. Como se aquele dia no parquinho ainda ecoasse entre nós.

Eu ainda chamava ela de meu cometa, principalmente quando surgia com alguma ideia maluca ou quando desaparecia por dias ocupada com os amigos novos. E ela, de vez em quando, ainda me chamava de capitão, baixinho, só pra mim.

E eu esperava. Em silêncio. Sabendo, lá no fundo, que talvez um dia o mundo deixasse a gente cumprir aquela promessa boba feita na areia.

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