Capítulo 5

Eu continuava de pé.

Não por escolha.

Por instinto.

Ficar de pé parecia a única forma de manter algum controlo, mesmo que ilusório. Sentar-me seria aceitar. Aproximar-me seria ceder. O corpo escolheu a rigidez como defesa, ainda que tremesse por dentro.

Matteo manteve-se sentado por alguns segundos depois da minha pergunta, observando-me com um olhar lento e pesado, que não se desviava, como se estivesse a percorrer-me por dentro, avaliando algo que não se media em palavras.

Não era um olhar curioso. Era um olhar que tomava notas. Que recolhia informação sem pressa.

Senti a pele reagir primeiro, um calor incômodo a subir pela nuca, a consciência súbita das pernas, da linha dos ombros, da forma como o vestido simples marcava mais do que eu gostaria de admitir.

Tive vontade de cruzar os braços. De me encolher. Não o fiz. Qualquer movimento parecia um convite, uma confirmação involuntária de que aquele olhar tinha efeito.

Aquele olhar não pedia licença.

Tomava.

— Don DeLuca — disse, esforçando-me para manter a voz firme apesar da tensão que me apertava o estômago —, eu não sei por que razão me mandou chamar.

O som do meu próprio nome na boca dele ecoou dentro de mim de forma errada, deslocada, como se tivesse sido dito para testar alguma coisa.

Ele levantou-se.

Devagar.

Sem quebrar o contacto visual.

O movimento foi controlado, seguro, e houve algo na forma como se colocou de pé que fez o espaço parecer menor, como se a sala tivesse sido redesenhada à volta dele.

A mudança de altura alterou tudo. De repente, eu estava consciente da diferença entre nós, do peso físico da presença dele, da forma como o corpo reagia a isso sem pedir permissão.

Dei por mim a prender a respiração, sem saber exatamente porquê.

— Mudou alguma coisa na situação do meu casamento? — acrescentei, agarrando-me à pergunta como a uma âncora. — Foi por isso?

Era uma pergunta segura. Objetiva. Uma tentativa de manter a conversa no território da razão, longe daquilo que eu sentia crescer de forma desconfortável sob a pele.

Ele não respondeu de imediato.

Começou a andar.

Não em linha reta.

À volta de mim.

Cada passo era medido, silencioso, e senti o corpo enrijecer à medida que ele passava pelas minhas costas, pelo meu lado, demasiado perto para ser casual.

A proximidade era calculada. Suficiente para ser sentida, insuficiente para ser denunciada.

Não me tocava, mas a proximidade era tão densa que parecia um toque suspenso, algo que podia acontecer a qualquer segundo.

A expectativa era pior do que o contacto. O corpo antecipava, a mente recusava, e eu ficava presa nesse intervalo perigoso.

Não devia estar a reparar nisto, pensei.

Na presença dele.

Na forma como o meu corpo reage.

Mas reparei.

O pensamento veio acompanhado de culpa. Eu não tinha o direito de sentir aquilo. Não depois de tudo. Não naquele contexto.

— Não — disse ele, finalmente, a voz surgindo atrás de mim, baixa, firme. — Nada mudou.

O som dele tão perto fez-me engolir em seco.

O timbre grave parecia desenhar-se diretamente na minha pele, mais do que nos meus ouvidos.

— O seu casamento acabou — continuou. — Não por minha causa. Não por decisão sua. Mas porque deixou de ser útil para o homem que a tinha.

As palavras atingiram-me como um golpe seco, e ainda assim foi o corpo que me traiu primeiro, um aperto estranho no baixo-ventre, uma reação absurda que me confundiu e me envergonhou.

A humilhação misturou-se com uma sensação física que não fazia sentido nenhum, e isso foi talvez a parte mais difícil de aceitar.

Eu fui casada, lembrei-me, com uma lucidez desconfortável.

E nunca senti isto.

Nunca com ele. Nunca em cinco anos de obrigações, de toques funcionais, de noites silenciosas.

Dei meia volta para o encarar.

Ele parou à minha frente, perto demais para ser confortável.

O espaço entre nós desapareceu sem que eu tivesse dado um único passo, e a respiração falhou por um segundo, como se algo em mim tivesse reconhecido aquela proximidade antes da minha mente conseguir rejeitá-la.

O corpo inclinou-se impercetivelmente para a frente antes que eu o travasse. O gesto mínimo denunciou-me.

Matteo ergueu a mão.

Um único dedo sob o meu queixo.

O gesto foi preciso, firme o suficiente para não permitir recusa, lento o bastante para que eu sentisse o controlo contido naquele contacto mínimo.

A pele ardeu sob o toque, não pelo contacto em si, mas pela intenção que ele carregava.

Quando ele me obrigou a levantar o rosto, um choque atravessou-me o corpo, não de medo, mas de consciência.

Do meu corpo.

Da presença dele.

Da forma como nunca me tinham tocado assim.

Nunca como se o toque fosse apenas um meio para observar a reação.

— Você já foi descartada — disse, baixo. — Isso é um facto.

As palavras não vieram como julgamento. Vieram como constatação.

O dedo manteve-se ali um segundo a mais, exigente, obrigando-me a sustentar o olhar dele enquanto o meu corpo reagia de forma errada, quente demais, sensível demais para o contexto.

A respiração tornou-se superficial. O coração acelerou. O corpo respondeu como se tivesse sido acordado de um longo torpor.

Isto não faz sentido.

Eu não devia estar a sentir isto.

Mas sentia.

Ele inclinou-se ligeiramente, o suficiente para que a presença dele se tornasse esmagadora, para que eu sentisse o calor do corpo dele tão perto do meu que todos os pensamentos se dissolveram numa confusão perigosa de alerta e desejo mal colocado.

O mundo reduziu-se àquele espaço mínimo. Ao cheiro discreto dele. À tensão acumulada entre dois corpos que não se tocavam.

— O que o seu marido fez — murmurou — não me interessa.

Soltou-me de repente.

A ausência do toque foi quase tão perturbadora quanto a presença tinha sido, o ar a regressar aos pulmões de forma abrupta, o corpo ainda preso à memória de algo que não chegara a acontecer.

O que mais me desestabilizou foi a vontade absurda de recuperar aquele contacto.

Matteo deu um passo atrás, recuperando a distância como quem recolhe o controlo de uma situação que nunca deixou verdadeiramente escapar.

— O que me interessa — acrescentou — é o que sobra depois do descarte.

Não explicou.

Não clarificou.

Deixou a frase aberta, como uma armadilha.

Virou-se ligeiramente, como se a conversa tivesse terminado antes mesmo de eu compreender o que estava em jogo.

— Pode ir.

Fiquei ali, imóvel.

O corpo ainda tenso.

A pele consciente demais.

A mente em conflito.

Demorei alguns segundos a perceber que a permissão era apenas aparente. Que sair não significava escapar.

Eu tinha sido esposa durante anos sem nunca sentir desejo.

E agora, diante de um homem que não me devia nada, que não prometia nada, o meu corpo tinha reagido primeiro.

Isso assustava-me mais do que qualquer ameaça explícita.

Ele não me tinha chamado para me querer.

E isso era precisamente o que tornava tudo muito mais perigoso.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App