Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu não dormi.
Passei a noite sentada no chão do quarto, as costas apoiadas na parede fria, os joelhos dobrados contra o peito. O vestido que eu vestia desde a casa da minha tia estava amarrotado, pesado no corpo. O tecido grudava na pele. A cabeça encostada no reboco duro. Os olhos abertos. A casa não dormia. Passos distantes no corredor. Portas fechando em algum lugar que eu não via. O som baixo e constante do ar circulando. Tudo funcionava. Tudo seguia. Menos eu. Quando bateram à porta, já era manhã. Não foi um pedido. Foi um aviso. — O Don está esperando. Levantei devagar. As pernas doeram ao esticar. O corpo inteiro parecia deslocado, como se eu tivesse passado a noite inteira em alerta, sem nunca baixar a guarda. O corredor parecia mais longo do que na noite anterior. O escritório era o mesmo. A mesma mesa. O mesmo silêncio. A mesma sensação de que ali nada acontecia por acaso. Matteo DeLuca estava em pé. Como se nunca tivesse saído. Ele me olhou uma única vez. Não havia curiosidade. Nem pressa. — Você decidiu — disse. Não era uma pergunta. Abri a boca. Nenhuma palavra saiu. Minha garganta estava seca demais. Meu corpo ainda estava preso à noite no chão, ao cansaço acumulado, ao medo que não tinha ido embora. Ele não esperou. — Então vamos estabelecer os termos. A palavra caiu seca entre nós. — Você fica — continuou. — Sob meu teto. Fora de circulação. Não recebe visitas. Não fala sobre sua situação. Não responde a ninguém sem autorização. Cada frase era curta. Fechada. Definitiva. — Seus pertences já foram retirados da casa da sua tia — disse. — Tudo que tem valor está aqui. Meu pulso acelerou. — Exceto as roupas. Levantei o olhar. — Não quero que você use roupas que outro homem tirou de você. Não houve alteração no tom. Nenhuma emoção. Meu estômago contraiu. — Você não sai sozinha — continuou. — Não negocia. Não promete. Não pede favores. Ele se aproximou da mesa. — Você não pertence mais ao mundo — disse. — Pertence a esta casa. O silêncio se esticou. — A mim. Ele ergueu a mão. Não para tocar. Para encerrar. — Leve-a. A ordem não foi para mim. Uma mulher apareceu na porta. Eu não tinha percebido quando. Saí do escritório sem olhar para trás. O quarto para onde me levaram não era o mesmo. Era maior. Luxuoso. Organizado demais. Uma suíte. Cama ampla. Poltronas. Uma pequena sala. Um banheiro impecável. Era bonito. Isso me deixou inquieta. As horas passaram sem que eu realmente me movesse. Sentei na beira da cama. Depois na poltrona. Depois voltei para a cama. A comida chegou em silêncio. Pratos caros. Bem apresentados. Não consegui comer. Continuei com a mesma roupa. Em algum momento, abri o guarda-roupa. As roupas estavam lá. Novas. Mas estranhamente familiares. Os cortes que eu usava antes. As cores que eu escolheria. Tecidos semelhantes aos meus. Como se alguém tivesse observado com atenção o que me moldava… e replicado. Não era aleatório. Era estudo. Controle que começava antes do toque. Quando a noite caiu, eu ainda não tinha me trocado. Foi então que ele entrou. Sem aviso. Sem pressa. A presença dele mudou o ar do quarto de imediato. A mesma camisa aberta no colarinho. As mangas dobradas. O corpo ocupando o espaço com naturalidade absoluta. Os olhos passaram por mim lentamente. Pela roupa amarrotada. Pelo cabelo preso de qualquer jeito. Pela rigidez do meu corpo. Ele se aproximou. Não tocou. Parou perto o suficiente para que eu sentisse o calor. Meu corpo reagiu antes da mente. A respiração ficou curta. Um aperto baixo e involuntário se formou, tenso demais para ser ignorado. — Você está com medo — disse. Assenti. Ele inclinou a cabeça levemente. — E excitada. Meu corpo traiu qualquer negação possível. O silêncio se adensou. Ele não se apressou. Observou. Meu peito subia e descia rápido demais. Minhas mãos estavam cerradas ao lado do corpo. A pele parecia sensível em lugares que ele ainda não tinha tocado. Ele ergueu a mão devagar. Dois dedos sob o meu queixo. O toque foi firme. Controlado. Inevitável. Meu olhar subiu contra a vontade. O rosto dele estava próximo demais. O cheiro mais intenso. Meu corpo inclinou para frente antes que eu decidisse. Ele me beijou. Não foi suave. Não foi violento. Foi exato. O tipo de beijo que exige resposta. Minha respiração se perdeu. O corpo cedeu por um segundo perigoso. O calor se espalhou rápido demais. Ele se afastou antes que eu pudesse segui-lo. Os olhos dele escureceram. — Não — disse. — Assim não. A mão caiu. — Eu não tomo uma mulher contra a vontade dela. Houve um passo para trás. Distância imposta. — Pense — disse. — Amanhã você decide de verdade. Virou-se e saiu. A porta se fechou atrás dele. Fiquei sozinha no quarto grande demais. O beijo ainda marcado na boca. O corpo em alerta. A respiração irregular. O calor baixo, persistente, irritante. Eu não tinha aceitado. Mas algo em mim já sabia que resistir ali não seria apenas dizer não. Seria aprender a jogar. E naquela casa, quem errava o tempo… pagava com o próprio corpo.






