Capítulo 6

Acordei no chão.

A pedra fria contra as costas. O pescoço rígido. O corpo preso numa posição mantida por horas. Por um segundo, não soube onde estava.

Depois, o silêncio me lembrou.

A mansão.

Eu não tinha dormido. Nem perto disso. Lembrava de ter me sentado encostada na parede em algum momento da noite. Vestida. Ainda de sapatos. Dizendo a mim mesma que deitaria depois.

Nunca deitei.

A cama estava a poucos passos. Perfeita. Intocada.

Eu não cheguei perto.

A luz da manhã entrava filtrada pelas cortinas, suave demais, controlada demais. Até o dia parecia se comportar diferente ali.

Uma batida cortou o silêncio.

Seca. Definitiva.

— Estão à sua espera.

Só isso.

Levaram-me de volta ao escritório dele.

O caminho pareceu mais curto. Ou talvez meu corpo já tivesse entendido que não escolhia mais a direção.

A porta estava aberta.

Matteo estava lá.

Em pé.

Claro.

Meu corpo o reconheceu antes da mente.

Não foi a roupa. Nem detalhes que eu já conhecia.

Foi a maneira como ele ocupava o espaço.

Imóvel. Centrado. Como se nada existisse sem permissão.

Quando me olhou, não analisou.

Fixou.

Olhos escuros. Firmes. Sem piscar.

Minha respiração encurtou.

Ele não mandou eu sentar.

— Você decidiu.

Não era pergunta.

— Eu não…

Ele levantou a mão.

Parei.

— Você ficou — disse com calma. — Isso foi a decisão.

Meu estômago afundou.

— Seus pertences foram buscados na casa da sua tia. Tudo que tinha valor.

Uma pausa.

— Exceto as roupas.

Meu peito apertou.

— Não quero roupas que foram tiradas por outro homem — disse, frio. — Elas não entram nesta casa.

Engoli em seco.

— Você não vai falar com ninguém sobre a sua situação — continuou. — Não vai receber visitas. Não vai sair sem autorização.

Cada frase fechava algo.

— Você está sob a minha proteção — disse. — O que significa que está sob a minha autoridade.

Não respondi.

— Vai ser levada para uma suíte. Vai comer. Vai descansar.

Ordem. Não cuidado.

— É só isso.

Um gesto mínimo da mão.

Dispensa.

Saí sem concordar com nada.

Mas os termos já estavam definidos.

A nova suíte era maior. Mais silenciosa. Mais confortável de um jeito que não importava.

Sala pequena. Quarto. Tudo organizado como se conforto também fosse uma forma de controle.

Eu não me troquei.

O guarda-roupa já estava cheio.

Roupas escuras. Tons fechados. Cortes limpos.

Eram do meu estilo.

Não do que eu usava como esposa.

Do que eu usava antes.

Isso me desestabilizou mais do que se estivessem erradas.

Fechei o armário.

As horas passaram.

Trouxeram o jantar.

Eu não comi.

Fiquei sentada no sofá, ainda com a roupa do dia, o corpo tenso demais para ceder. Alerta demais para descansar.

A noite caiu. O quarto esquentou.

Então a pressão mudou.

Levantei os olhos.

Matteo estava na porta.

Não bateu.

O ambiente se reajustou ao redor dele.

O olhar dele percorreu primeiro a bandeja intocada. Depois o sofá. Depois minha postura. Depois o vestido amarrotado.

— Você não comeu.

— Não estava com fome.

Silêncio.

— Continuou vestida.

— Sim.

— Isso não foi uma pergunta.

O calor subiu rápido. Cruel.

— As roupas estavam lá — continuou. — Você escolheu não usá-las.

— Eu não escolhi — disse. — Eu travei.

Ele deu um passo à frente.

Não invadiu. Reivindicou.

— Travar é uma escolha — disse. — Só não é corajosa.

As palavras bateram fundo.

Ele se aproximou mais.

Sem tocar.

Peso. Temperatura.

Meus ombros tensionaram antes que eu percebesse. A coluna se ajustou sozinha.

— Olha pra mim.

Meu queixo subiu sem decisão consciente.

— Assim — disse. — Melhor.

O ódio por obedecer veio logo depois.

— Você está exausta — continuou. — Com fome. Sobrecarregada.

Outro passo. O espaço virou intenção.

— E ainda reagindo.

— Eu não…

— Não minta pra mim.

A mão dele subiu.

Parou na minha cintura.

Sem tocar.

Minha respiração quebrou mesmo assim. A pele se contraiu. A consciência se acumulou onde eu não queria sentir nada.

— Você sente isso — disse. — E não sabe onde colocar.

— Eu não pedi por isso.

— Não — concordou. — Mas está carregando.

O polegar dele flexionou no ar. Teste.

Minhas coxas se pressionaram juntas sozinhas.

Os olhos dele desceram por um segundo. Subiram de novo.

— Você está usando roupas de outro homem — disse baixo. — E seu corpo está reagindo a mim.

A vergonha queimou.

— Isso não te dá direito nenhum — falei rápido demais.

Ele se inclinou o suficiente para o hálito tocar meu rosto.

— Correto — disse. — Me dá informação.

A boca dele tocou a minha.

Só um roçar.

Controlado. Calculado.

Pergunta sem palavras.

Minhas mãos subiram… e pararam no ar.

A respiração se despedaçou.

O contato acabou antes que eu acompanhasse.

Ele se afastou.

O maxilar estava tenso agora. Controle visível.

— Aqui — disse. — É o limite.

Meu corpo avançou um milímetro antes de eu segurar.

— Você está com medo.

— Sim.

— E quer isso.

— Não…

— Eu descrevo o que está presente — disse. — Não o que é confortável.

Ele recuou de propósito.

A perda bateu mais forte que o toque.

— Eu não fico com mulheres assustadas — disse. — E não fodo hesitação.

Seco. Final.

— Então por que veio? — perguntei.

— Porque você precisa de estrutura — respondeu. — E porque seu corpo já entende isso.

— Isso não é consentimento.

— Não — concordou. — É consciência.

Ele não se aproximou.

O espaço entre nós ficou carregado, esticado, vivo. Meu corpo continuou inclinado na direção dele, a respiração curta, os nervos acesos em tudo que ele não tocava.

— Você está esperando que eu resolva isso por você — disse.

— Não espero nada.

— Não é verdade.

Ele mudou o ângulo, caminhando de lado. Eu o acompanhei sem querer.

— Você espera contenção — continuou. — Regras. Alguém decidindo o que é permitido.

— Interpretação sua.

— Observação minha.

Ele parou perto o suficiente para o ar mudar.

— Cinco anos sob a autoridade de outro homem — disse. — Você entende hierarquia.

— Eu entendo sobrevivência.

— Também.

O silêncio caiu. Denso.

— Você está tentando decidir se eu sou ameaça ou solução.

— E você?

— Eu sou inevitável.

A palavra pesou.

Ele circulou atrás de mim. A presença sem toque fez minha coluna endurecer.

— Eu poderia ter te tocado — disse. — Você sabe disso.

Meu fôlego falhou.

— Mas não toquei.

Ele voltou ao meu campo de visão.

— Porque o que você sente não é prontidão — disse. — É alívio.

Doeu porque era verdade.

— Você quer que alguém carregue o peso — continuou. — E se odeia por isso.

Não respondi.

— Você não confia — disse. — Porque já aprendeu o preço.

Ele me encarou.

— Você não é fraca. Está exausta.

Algo cedeu dentro do peito. Não conforto. Reconhecimento.

— Sente-se.

Dessa vez, sentei.

Ele ficou de pé. O desequilíbrio era proposital.

— Você vai ficar aqui — disse. — Sob meu teto. Minhas regras.

Assenti. Não era aceitação. Era compreensão.

— Não vai falar com ninguém. Não vai se explicar. Não vai procurar validação.

Cada regra fechava mais um caminho.

— Você vai comer. Vai dormir.

Quase ri. Saiu só ar.

— E em troca? — perguntei.

— Em troca — disse — eu garanto que ninguém confunda sua disponibilidade.

A palavra queimou.

— E se confundirem?

— Respondem a mim.

Minha pele arrepiou.

— Isso te assusta.

— Sim.

— Ótimo — disse. — Deve assustar.

Ele foi até a porta.

Achei que tinha acabado.

Ele parou com a mão na maçaneta.

— Mais uma coisa.

Fiquei imóvel.

— Você não me deve desejo — disse, sem virar. — Nem gratidão.

Uma pausa.

— Mas não nos insulte fingindo que seu corpo já não escolheu prestar atenção.

O calor voltou, rápido e cruel.

Ele abriu a porta.

— Você fica esta noite — disse. — Neste quarto.

Meu corpo endureceu.

— Sozinha — acrescentou. — Não porque eu não queira.

Virou o rosto o suficiente para eu ver o perfil.

— Mas porque você ainda não está pronta para me querer.

Engoli em seco.

— E se eu nunca estiver?

Ele parou.

Olhou.

Decidiu.

— Então isso termina — disse. — Antes que você confunda medo com rendição.

Ele saiu.

A porta se fechou.

O quarto ficou diferente sem ele. Não mais silencioso. Mais exposto.

Fiquei sentada, mãos inúteis no colo, respiração irregular, a pele viva em tudo que ele não tocou.

Nada aconteceu.

Nenhum acordo. Nenhum toque que pudesse ser nomeado.

E ainda assim, tudo em mim sabia que não tinha acabado.

Porque ele não tomou nada.

E era exatamente por isso que eu continuaria pensando nele.

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