Capítulo 6

Ele não se afastou.

Depois de dizer que o que lhe interessava era o que sobrava depois do descarte, Matteo manteve-se ali, sólido, imóvel, como se aquele espaço à minha frente lhe pertencesse por direito e não houvesse qualquer necessidade de o devolver.

Eu ainda estava a tentar reorganizar a respiração.

O corpo atrasado em relação à mente.

A pele demasiado consciente.

A sensação desconfortável de estar exposta de uma forma que nunca tinha estado, nem mesmo durante os cinco anos em que fui esposa.

O silêncio alongou-se apenas o suficiente para se tornar uma pressão física, como se ele estivesse à espera de que eu dissesse alguma coisa errada, algo que o autorizasse a avançar mais um passo. Não disse nada. O meu corpo, no entanto, denunciava-me. A respiração irregular, o peso deslocado de uma perna para a outra, a atenção demasiado focada nele.

Matteo inclinou ligeiramente a cabeça, observando-me com atenção clínica.

— Você não serve como mulher — disse, de forma direta.

Não elevou a voz.

Não dramatizou.

Disse como quem constata um facto.

O impacto foi imediato.

A frase não doeu apenas pelo conteúdo, mas pela forma como foi dita, sem raiva, sem desprezo visível, como se eu fosse um objeto mal classificado, algo que simplesmente não cumpria a função para a qual tinha sido destinado.

— Perdeu todo o seu poder — continuou. — Primeiro com o seu marido. Depois com a exposição.

Senti o estômago afundar.

— Toda a gente sabe — acrescentou, aproximando-se um passo. — Sabe que não deu um herdeiro. Sabe porquê.

O nome não precisou ser dito.

Infértil.

A palavra ecoou na minha cabeça como um selo, uma marca social que eu não podia apagar. Vi-a refletida no olhar dele, não como pena, mas como dado. Um facto utilizável.

— Nenhum homem vai querer você agora — disse, sem pressa, o olhar preso ao meu como se estivesse a medir cada reação. — Não depois disto.

A humilhação veio quente, sufocante, misturada com uma raiva impotente que me fez cerrar os dentes.

— Você é um risco — continuou. — Uma mulher descartada. Falhada. Sem utilidade social.

Engoli em seco.

O corpo, traidor, não concordava com aquela leitura.

E isso confundia-me ainda mais.

Eu sabia que devia recuar, quebrar o contacto visual, proteger-me. Em vez disso, fiquei. Parada. Como se alguma parte de mim estivesse à espera do próximo golpe. Ou do próximo toque. A constatação fez-me estremecer por dentro.

— Mas — acrescentou ele, e houve algo naquele tom que me fez prender a respiração — ainda tem algum uso.

A frase ficou suspensa.

O meu coração acelerou, não de esperança, mas de alerta. Uso significava posse. Função. Um papel que não tinha escolhido.

Matteo aproximou-se o suficiente para invadir de novo o meu espaço e, com a ponta dos dedos, passou lentamente a mão pelo meu braço, do cotovelo até ao pulso, um toque deliberadamente leve, quase distraído.

O arrepio foi imediato.

Violento.

Incontrolável.

A pele acendeu-se sob aquele contacto mínimo, a respiração falhou por um segundo, e um calor errado espalhou-se pelo meu corpo, rápido demais para ser negado.

O choque não foi o toque em si, mas a resposta do meu corpo, aquela entrega involuntária, aquela memória muscular que nunca tinha existido com o meu marido. Nunca. Nem uma vez em cinco anos.

Ele viu.

O canto da boca de Matteo curvou-se num sorriso pequeno, predador, satisfeito, como se tivesse acabado de confirmar uma hipótese.

— O seu corpo não esqueceu o que é ser mulher, mesmo depois de tudo o que perdeu.

Afastou a mão.

A ausência do toque foi quase tão perturbadora quanto a presença.

O braço ficou a arder, a pele demasiado consciente, e tive de fechar os dedos com força para não estender a mão atrás da dele, um impulso tão absurdo que me encheu de vergonha.

— Para o papel que eu quero que assuma — continuou, com calma —, não me interessa se é infértil ou não.

As palavras caíram pesadas, definitivas.

— Eu não preciso de herdeiros — acrescentou. — Preciso de discrição. Disponibilidade. Silêncio quando for necessário.

Cada requisito era dito como uma camada a mais de uma gaiola invisível. Eu conseguia vê-la a formar-se à minha volta, mesmo sem barras.

Deu mais um passo.

— Enquanto for minha amante, será intocável.

Levantei os olhos de imediato.

A palavra amante bateu-me no peito com uma violência inesperada. Não como fantasia, mas como estatuto. Um lugar definido. Um rótulo que o mundo entenderia.

— Ninguém se aproxima — continuou. — Ninguém comenta. Ninguém ousa tocar-lhe sem a minha autorização.

O tom não era de promessa.

Era de regra.

— Terá proteção — disse. — Nome. Presença. Um lugar claro. Não ficará à mercê de olhares ou de favores.

Ele falava e eu odiava o facto de cada frase resolver um medo concreto que eu tinha tentado ignorar nas últimas semanas. O dinheiro. A casa da minha tia. O peso de ser um fardo. Ele sabia. Claro que sabia.

Fez uma pausa curta, calculada.

— E quando o nosso acordo terminar, não a deixarei na mão.

Senti o peito apertar.

— Não sairá sem dinheiro — acrescentou. — Não sairá dependente de um familiar que a vê como um fardo. Não voltará a implorar por um teto ou por silêncio.

A palavra implorar fez-me estremecer. Porque ele não estava a exagerar. Estava a descrever o meu futuro com precisão cruel.

Cada palavra era uma faca precisa.

— Eu cuido do que é meu — concluiu.

O choque misturou-se com uma reação que me fez odiar cada fibra do meu corpo.

— Eu não sou sua — disse, a voz a trair-me.

Matteo inclinou-se ligeiramente, o suficiente para que a presença dele voltasse a esmagar o ar entre nós.

— Ainda não — respondeu. — Mas ninguém mais vai querer.

A proximidade voltou a desorganizar-me. O cheiro dele, discreto, caro, o contraste com o tom brutal das palavras, tudo conspirava para me manter ali, presa entre repulsa e uma atração que eu não reconhecia como legítima.

O silêncio que se seguiu foi denso, pesado, impossível de ignorar.

Ele endireitou-se, recuperando a distância apenas o suficiente para me obrigar a respirar.

Percebi então que aquela distância era concedida, não recuperada. Que ele a controlava como controlava tudo o resto.

— Então, Ivy — disse, finalmente, o olhar fixo no meu, atento demais, paciente demais — qual vai ser a sua resposta?

O corpo ainda ardia onde ele tinha tocado. A mente gritava para fugir. E, no meio do caos, uma pergunta horrível insinuou-se, baixa, traidora: e se aceitar for a única forma de sobreviver?

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