Arrumei as malas sem cerimónia, sem dramatização, sem aquela pausa teatral que costuma acompanhar as despedidas importantes, porque naquele momento não havia nada para lamentar nem para preservar. Peguei apenas no essencial, documentos, o caderno gasto, a caneta, algumas poucas coisas pequenas que reconhecia como minhas de verdade, e deixei tudo o resto onde estava, pendurado ou dobrado, intacto, como se aquelas roupas nunca tivessem pertencido ao meu corpo. Não olhei para trás quando fechei a mala. Não precisei. A porta abriu-se sem aviso. A minha tia entrou no quarto com passos seguros, lançou um olhar rápido à mala aberta, às gavetas vazias e ao armário quase intacto, e sorriu com uma satisfação evidente, como alguém que finalmente tinha recebido a confirmação que esperava. — Então é isso — disse. Fez uma pausa curta, calculada. — Saiu como esposa… e voltou como puta. A palavra caiu limpa, sem emoção, sem esforço, dita como se fosse apenas uma constatação social inevitável. C
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