Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu não me lembro de ter saído da sala de reuniões.
Lembro-me do som da porta a fechar. Lembro-me do ar a mudar. Lembro-me da certeza brutal de que, de repente, não havia mais ninguém atrás de mim. Durante cinco anos, houve sempre alguém. Uma presença. Uma sombra. Um papel a cumprir. Mesmo quando o meu casamento se tornou frio, mesmo quando o carinho foi substituído por hábito, eu nunca estive verdadeiramente sozinha. Havia sempre um lugar ao qual eu pertencia, mesmo que não fosse confortável. Mesmo que não fosse feliz. Agora não havia nada. O corredor parecia não ter fim. Largo demais. Silencioso demais. O som dos meus saltos ecoava de volta para mim, alto e exposto, como se o prédio inteiro precisasse confirmar que eu ainda existia quando, naquele momento, eu não tinha certeza se queria. Ninguém disse o meu nome. Nem Ivy. Nem Mrs. Romano. E eu não sabia qual dos dois doía mais. As portas do elevador fecharam e, pela primeira vez desde a reunião, o meu peito apertou de verdade. Forte o suficiente para me obrigar a respirar com cuidado. Devagar. Como se um erro simples pudesse finalmente partir o que ainda restava. Cinco anos. Eles voltaram em pedaços soltos. Manhãs em que mal trocávamos palavras, mas ainda dividíamos o café. Jantares em que eu me sentava ao lado dele, sorrindo quando era esperado. O peso do braço dele na minha lombar em público, possessivo, afirmando, tranquilizador. Não tinha sido amor. Mas tinha sido alguma coisa. A garagem era fria. O cheiro de concreto e combustível virou o meu estômago. Um carro preto esperava, motor ligado, indiferente. Eu parei. Por um segundo, um pensamento idiota e desesperado atravessou a minha mente. Se eu não entrar, talvez isso ainda não seja real. Ninguém me apressou. Ninguém insistiu. Foi aí que caiu a ficha. Já não importava o que eu fizesse. Entrei no carro. A porta fechou, selando-me num silêncio tão completo que parecia acolchoado. O banco ainda estava quente, como se alguém tivesse acabado de sair. Aquilo apertou a minha garganta de um jeito inesperado. Encostei a testa no vidro. A cidade passava em luzes borradas e ruas familiares. Lugares que eu frequentara como esposa de alguém. Lugares onde o meu nome tinha peso porque estava ligado ao dele. Infértil. A palavra voltou, mais baixa agora, mais perigosa. E se fosse verdade? E se não tivesse sido crueldade, política ou conveniência… mas inevitabilidade? E se eu tivesse sido emprestada durante cinco anos e devolvida no momento em que me provaram defeituosa? As lágrimas arderam atrás dos olhos, súbitas e indesejadas. Pisquei com força, travando o maxilar até doer. Não chora. Ainda não. Aqui não. O meu telemóvel vibrou. Eu já sabia. Uma mensagem do meu marido. — Isto é para o melhor. Para o melhor. Anos de vida partilhada reduzidos a uma frase limpa, quase gentil, que soava como encerramento. Fiquei a olhar para o ecrã até a visão embaçar de novo. Depois bloqueei o telemóvel e deixei-o cair no banco ao meu lado. Eu não o odiava. Essa era a pior parte. Eu odiava a mim mesma por já sentir falta do peso da presença dele. Por lembrar a forma como ele costumava procurar-me durante o sono, meio inconsciente, como se o hábito ainda me reconhecesse quando o desejo já não reconhecia. O carro diminuiu a velocidade. Um portão abriu. Muros de pedra. Luzes discretas. Um lugar feito para conter, não para acolher. — É aqui que a senhora vai ficar — disse o motorista. Assenti, porque não confiava na minha voz. Quando desci, o ar frio atingiu-me com força suficiente para arrancar-me um suspiro. O carro foi embora imediatamente, deixando-me ali, sozinha, com nada além do som da minha própria respiração. Eu não me mexi. Pela primeira vez em cinco anos, não havia ninguém a quem me virar. Ninguém ao meu lado. Nenhum papel a representar. Envolvi-me com os próprios braços, os dedos cravando no tecido, na pele, no osso. Senti-me pequena. Senti-me perdida. Senti como se alguém tivesse apagado o contorno da minha vida e esquecido de desenhar outro. Em algum lugar, Don Matteo DeLuca continuava o dia dele como se nada tivesse acontecido. Ou talvez não. Talvez ele soubesse exatamente onde eu estava. Talvez aquela casa não fosse um acaso. Talvez nada tivesse sido. Ele não me defendeu. Não suavizou nada. Não me dirigiu uma única palavra quando tudo ruiu. E, ainda assim, era nele que os meus pensamentos insistiam em parar. No silêncio pesado daquela casa desconhecida, o nome dele surgia sem convite. Como uma ameaça. Como uma promessa. Eu não sabia o que ele via quando me observava. Não sabia por que aquele olhar tinha ficado comigo mesmo depois de eu sair da sala. Não sabia por que a ideia de estar fora da proteção de um homem me apavorava… Mas a de estar sob a proteção dele me deixava sem ar. O meu corpo reagia antes da razão. O peito apertava. O estômago revirava. Medo. Antecipação. Algo errado… e perigoso demais para ignorar. Eu tinha perdido tudo em menos de uma hora. O meu casamento. O meu lugar. O meu nome. E, mesmo assim, havia uma sensação perturbadora de que aquilo não era um fim. Era um movimento. Uma troca. Um deslocamento calculado. Eu já não era esposa. Não era protegida. Não era nada. Ainda. A casa parecia observar-me. As paredes guardavam silêncio demais. Como se soubessem que eu não estava ali para descansar. Estava ali para esperar. E, em algum ponto dessa espera, Don Matteo DeLuca faria a sua escolha. A pergunta que me tirava o ar não era se ele voltaria a cruzar o meu caminho. Era o que restaria de mim quando isso acontecesse.






