Capítulo 2

Mal Don DeLuca saiu do escritório, o meu marido riu-se.

Um riso aberto demais para aquele espaço fechado, como se a presença dele tivesse sido apenas um detalhe burocrático — e não a sentença que acabara de cair sobre a minha vida.

O riso ecoou pelas paredes como algo deslocado, quase obsceno naquele contexto, e tive a sensação estranha de que ele não estava apenas a celebrar o fim do nosso casamento, mas a libertar-se de um peso antigo que nunca tivera coragem de nomear em voz alta.

O silêncio calculado de Don DeLuca ainda parecia suspenso no ar quando Ricardo se levantou sem me olhar e foi até ao bar encostado à parede. Serviu-se de uma bebida com a tranquilidade de quem tinha acabado de resolver um problema antigo.

Aquela tranquilidade não era nova. Eu conhecia-a bem. Era a mesma que surgia sempre que ele tomava decisões sem me consultar, sempre que algo saía exatamente como ele queria.

— Ivy… você nem imagina o quanto fiquei contente.

Fiquei sentada, imóvel, sentindo o peso daquelas palavras se acomodar dentro de mim antes mesmo de conseguir reagir. Conhecia aquele tom. E sabia que nada de bom vinha depois dele.

Era o tom que antecedia comparações, cobranças, pequenas crueldades disfarçadas de sinceridade.

— Contente? — perguntei, a voz saindo mais baixa do que pretendia.

Ele bebeu um gole longo, apoiando-se no balcão como se o assunto não exigisse mais do que isso.

— Achei que isso nunca mais ia acontecer. Mas aconteceu. Finalmente.

O escritório pareceu encolher. As paredes aproximaram-se num silêncio espesso, sufocante, como se não houvesse para onde fugir.

Senti o mesmo aperto que tantas vezes me acompanhara naquele espaço, a sensação constante de estar encurralada, avaliada, reduzida a algo que precisava sempre de justificar a própria existência.

— Ricardo… — comecei, tentando organizar os pensamentos. — O que foi que aconteceu, exatamente?

Ele virou-se então para mim, recostado ao bar, relaxado demais para alguém que tinha acabado de pedir a anulação de um casamento de cinco anos.

— Nosso erro foi corrigido.

Erro.

Foi assim que resumiu tudo.

A palavra caiu entre nós como algo definitivo, apagando qualquer resquício de história, de convivência, de tempo partilhado.

Não tinha sido um casamento por amor, eu sempre soube disso. No nosso mundo, amor raramente entra na equação. Tinha sido um acordo. Uma escolha funcional.

Uma escolha feita entre homens, discutida em salas como aquela, longe de mim, longe da minha vontade.

E eu aceitei porque não havia muitas alternativas para alguém que perdera os pais cedo demais e crescera sob o olhar cansado de tios que nunca esconderam o alívio quando deixei de ser responsabilidade deles.

Quando Ricardo me escolheu, todos sorriram.

Como se tivesse sido uma solução prática, conveniente, algo a celebrar.

E eu acreditei — de forma quase vergonhosa — que talvez pudesse aprender a ser amada.

Acreditei porque queria acreditar. Porque precisava que aquilo significasse mais do que sobrevivência.

— E agora? — perguntei, sentindo a garganta apertar. — O que vai ser feito de mim?

Ele soltou um suspiro curto, impaciente, e caminhou até à secretária. Abriu uma gaveta e retirou alguns documentos.

— Vai ficar com roupas, algumas joias, certos bens. Nada fora do razoável.

Falava como se estivesse a listar objetos sem importância.

Como se estivesse a esvaziar uma gaveta.

Talvez fosse exatamente isso que eu representava naquele momento.

— O nosso casamento foi anulado — disse, ainda tentando acompanhar a lógica fria daquilo. — Como se… nunca tivesse existido?

Ricardo ergueu uma sobrancelha, claramente cansado da conversa.

— Ivy, você sabia desde o início que isso podia acontecer.

Sempre.

A palavra ecoou.

Sempre fora usada como arma. Sempre fora a resposta para qualquer tentativa minha de questionar, de pedir, de esperar algo diferente.

Vieram-me à memória as perguntas mensais, o olhar atento demais ao meu corpo, a contagem silenciosa dos dias.

Como se eu fosse um relógio defeituoso que insistia em falhar.

Cada atraso, cada silêncio, cada mês sem resposta transformava-se numa acusação velada.

Vieram também as comparações, sempre ditas com um sorriso que não chegava aos olhos.

— As mulheres das boates não são frias como você — dizia. — Pelo menos sabem servir para alguma coisa. Você nem para transar serve.

Ele nunca gritava quando dizia isso. Nunca precisava. A crueldade vinha exatamente da naturalidade com que as palavras eram lançadas.

— Eu tentei — murmurei, mais para mim do que para ele.

Ricardo deu de ombros, indiferente.

— Tentativa não gera herdeiro.

A frase caiu pesada, definitiva.

Como uma sentença técnica, sem espaço para debate ou emoção.

Senti algo dentro de mim se partir com uma clareza que doeu mais do que qualquer grito teria doído.

— Então é isso? — perguntei. — Cinco anos… e acabou assim?

Ele terminou a bebida e pousou o copo sobre o balcão com cuidado excessivo.

— Acabou quando ficou claro que você não servia para o que era necessário.

Servia.

A palavra ficou.

Porque nunca se tratara de amor. Nunca de parceria. Apenas de utilidade.

Foi ali que compreendi, com uma lucidez quase cruel, que nunca tinha sido esposa. Nem companheira. Nem sequer alguém a ser preservada.

Eu tinha sido uma função.

E agora, uma função descartada.

Levantei-me devagar.

Alisei o tecido do vestido por reflexo, um gesto aprendido para momentos em que não se pode demonstrar fraqueza.

Um gesto que eu repetira inúmeras vezes diante dele, como se a postura pudesse compensar tudo o que me faltava aos olhos dele.

A mão procurou a aliança.

Ainda estava lá.

Pesada.

Inútil.

Um símbolo que perdera o significado no exato momento em que deixara de cumprir o propósito que lhe tinham atribuído.

Olhei para a porta por onde Don DeLuca tinha saído.

Algo dentro do meu peito mudou de forma, ajustando-se a uma realidade ainda mais perigosa do que a solidão.

Porque perder o casamento talvez não fosse o pior destino.

O pior tinha sido chamar a atenção de um homem que não descartava o que considerava útil.

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