Mundo de ficçãoIniciar sessãoEles me levaram até a mansão dele.
Não me disseram o motivo. Os portões se abriram sem fazer barulho. O carro avançou devagar, o cascalho estalando sob os pneus. Eu estava rígida no banco de trás, as mãos cerradas no colo. Meu coração batia rápido demais. Nada ali parecia convite. Era uma convocação. Por dentro, a casa engolia qualquer som. Não vazio. Controle. Um silêncio que te obriga a ouvir a própria respiração. O som dos sapatos contra a pedra. A noção exata de quão pequena você é dentro de um espaço feito para homens que nunca precisaram ser contestados. Fui conduzida por corredores que eu reconhecia sem querer. Limpos demais. Calculados demais. Cada passo parecia contado. A porta se abriu. Entrei. E a porta se fechou atrás de mim. Matteo DeLuca estava perto da mesa, de costas. Ele não se virou. Parei a alguns passos, sem saber se avançar seria um erro. Meu corpo reagiu antes de qualquer pensamento, coração acelerado, pele sensível, respiração curta. O medo veio rápido… e, por baixo dele, algo que eu não queria sentir. O escritório cheirava a ele. Não perfume. Couro. Papel. Algo limpo e afiado. O ar parecia mais denso a cada respiração. — Você está se perguntando por que está aqui — ele disse. Ainda de costas. A voz era calma. Controlada. A voz de quem não precisa disputar atenção. — Sim — respondi. Ele se virou devagar. De perto, era esmagador. Não agressivo. Não teatral. Presente. Alto. Forte. A camisa aberta no colarinho, mangas dobradas, antebraços marcados por força contida. Nada nele era decorativo. Tudo parecia funcional. Controle usado como segunda pele. Os olhos se fixaram em mim, atentos demais. — Você está aqui — disse — porque não está mais protegida. As palavras pesaram. Engoli em seco. — Protegida… como? Ele avançou um passo. O cheiro ficou mais quente. Mais próximo. Meu corpo recuou antes que eu decidisse. — Por um nome — continuou. — Por uma posição. Por um homem entre você e o resto do mundo. Meu peito apertou. — Você não tem mais isso. Assenti. — Existem pessoas — prosseguiu — que acreditam que seus pais traíram esta família. Minha respiração falhou. — Essa ideia nunca desapareceu. Só foi contida. Ele avançou de novo. O calor dele me alcançou antes do corpo. Não toque. Temperatura. O ar entre nós ficou pesado. — Sem proteção — disse, com calma — essas crenças viram permissão. Demorei um segundo para entender. Depois entendi. O frio percorreu minha espinha. — Permissão para quê? — perguntei. Ele parou à minha frente. Perto demais. — Para pressionar. — Para testar limites. — Para fazer o que homens fazem quando acreditam que ninguém vai impedir. Meu estômago afundou. — E você? — sussurrei. Ele me olhou de cima. — Eu decido se são impedidos. O silêncio caiu pesado. Minha respiração saiu errada. Rápida demais. Não excitação. Alerta. O tipo de reação que o corpo tem quando reconhece domínio. — Você não me trouxe aqui só para dizer isso — falei baixo. — Não. Ele se moveu. Não havia mais espaço para recuar. Apoiou uma mão na mesa ao meu lado, fechando o ambiente sem me tocar. O tecido da camisa esticou no peito. O antebraço contraiu uma vez. O maxilar travou. Por um instante. Contenção. — Eu te trouxe aqui — disse, a voz baixa — para que você entenda sua posição. Minha pele parecia apertada demais. — E para te oferecer proteção. A palavra soou diferente vinda dele. — E o custo? — perguntei. O olhar dele desceu. Devagar. — Você fica onde eu posso ver. Não era gentileza. Era controle. — Você pertence a mim — disse. — Em privado. O calor subiu sem pedir permissão. Minha respiração falhou. Minhas coxas se apertaram. Dei um passo para trás. — Não. Ele não se mexeu. — Pode recusar — disse. — É um direito seu. O alívio durou pouco. — E se eu recusar? Ele se inclinou levemente. O hálito quente roçou meu rosto. — Então eu não faço nada. — Me retiro. — E deixo o mundo agir como quiser com uma mulher sozinha. A porta atrás de mim fez um clique suave. Fechada. A mão dele se ergueu. Parou a centímetros da minha cintura. Sem tocar. Dominando o espaço. Os dedos se fecharam no ar uma vez. Depois ficaram imóveis. — O mundo não é gentil com mulheres sem proteção — disse. Fiquei imóvel. Eu não tinha concordado. Mas entendia por que estava ali. E por que sair poderia ser pior.






