Mundo de ficçãoIniciar sessãoPoucas horas depois, com a ajuda silenciosa das empregadas, reuni os poucos pertences que realmente me pertenciam e despedi-me da casa onde, durante cinco anos, acreditei que um dia seria tratada como senhora e não apenas como algo provisório.
As empregadas moviam-se com cuidado excessivo, evitando cruzar olhares comigo, como se a minha presença já tivesse deixado de ser apropriada naquele espaço. Nenhuma delas disse nada. Não era crueldade. Era hábito. Naquela casa, o silêncio sempre fora a forma mais segura de atravessar mudanças indesejadas. Dobrei vestidos que nunca escolhi, recolhi joias que nunca usei por vontade própria e fechei malas com uma calma estranha, quase anestesiada, como se o meu corpo estivesse apenas a cumprir um ritual automático enquanto a mente ainda tentava acompanhar a dimensão do que tinha sido perdido. Cada peça dobrada era uma lembrança da ausência de escolha. Tecidos que não me representavam, cores que nunca pedi, roupas pensadas para agradar a outros olhares, nunca ao meu. Não havia ali nostalgia. Apenas constatação. Quando desci as escadas pela última vez, a casa estava limpa demais, arrumada demais, indiferente demais à minha saída. Nenhum objeto fora deslocado. Nenhum espaço parecia ressentir-se da minha ausência iminente. Era como se eu nunca tivesse ocupado realmente aquele lugar. O motorista de Ricardo esperava junto ao carro. Abriu a porta traseira sem me olhar diretamente nos olhos e, pela primeira vez desde que o conhecia, não disse “boa tarde, senhora Romano” com aquele respeito mecânico que sempre acompanhava as palavras. Limitou-se a um aceno curto. Eu já não era a senhora Romano. E isso ficou claro no silêncio. O título desaparecera antes mesmo de eu compreender o que ele realmente significara. Sem ele, eu era apenas alguém a ser transportada de um ponto a outro. Durante o trajeto, observei a cidade pela janela sem realmente vê-la, sentindo a identidade que tinha usado durante anos escorrer pelos dedos como algo que nunca foi verdadeiramente meu, deixando para trás apenas uma pergunta desconfortável, insistente. Se eu não era mais esposa, então o que eu era agora? A pergunta repetia-se com uma insistência cruel, sem oferecer resposta. Nenhuma alternativa parecia suficientemente sólida para substituir o vazio que se instalara. Meia hora depois, o carro parou diante da casa onde cresci desde os meus quatro anos, uma construção antiga, imponente, marcada mais pela autoridade do que pelo afeto. O peso conhecido instalou-se no meu peito antes mesmo de sair. Aquela casa sempre fora menos um lar e mais um território. Um lugar onde se obedecia antes de compreender. O meu tio já tinha morrido. A minha tia, agora viúva, tinha finalmente encontrado aquilo que nunca lhe faltara coragem para assumir: liberdade. Liberdade construída sobre o cumprimento exato das regras daquele mundo. Sobre ter feito tudo o que se esperava dela. No mundo dela, um mundo feito de mulheres mais velhas da máfia, copos sempre cheios e histórias repetidas com orgulho, o papel de esposa tinha sido cumprido. E isso bastava para que começasse a viver como se tivesse sido recompensada. Mal me viu, o olhar percorreu-me de cima a baixo com a mesma frieza avaliadora que eu conhecia desde criança. Era o mesmo olhar que sempre procurara falhas, inadequações, sinais de fraqueza. O copo de bebida ficou suspenso na mão por um segundo antes de o pousar. O sorriso que surgiu foi curto, afiado, carregado de julgamento. — Então é verdade — disse, sem sequer me convidar a entrar. — Não serviu nem para isso. Entrei mesmo assim. Aprendera cedo que pedir permissão nunca alterava o veredicto naquela casa. Cada passo dentro daquela casa reacendeu memórias antigas de obediência e silêncio, de escolhas feitas por mim antes mesmo de eu aprender a questioná-las. — Cinco anos — continuou ela, caminhando até a sala. — E nem um filho. Uma mulher em condições não falha assim. Sentei-me devagar, sentindo o peso daquelas palavras se acumularem sobre feridas que ainda estavam abertas demais para cicatrizar. A cadeira parecia pequena, dura, como se tivesse sido escolhida para lembrar-me da minha posição. Ela gostava de repetir os próprios feitos como quem exibe troféus. Dois filhos. Um preso. Outro morto pelos russos. Na lógica distorcida daquele mundo, isso ainda era prova de valor. O sofrimento era aceitável desde que tivesse produzido resultados. — Pelo menos cumpri o meu papel — disse, servindo-se de outra bebida. — Você nem isso. Não respondi. Não porque concordasse, mas porque aprendera cedo que naquela casa as palavras nunca tinham servido para me proteger. Responder só prolongava a humilhação. E foi assim que passei os quatro meses que se seguiram ao fim do meu casamento. Trancada naquela casa não por falta de espaço, mas por vergonha. A vergonha era uma prisão invisível, mais eficaz do que qualquer porta fechada. Na lógica daquele mundo, não havia lugar para uma mulher descartada por um dos soldados mais promissores da cidade. Eu não saía. Não porque não pudesse, mas porque não devia. Cada passo fora daquela casa seria interpretado como afronta, como insistência indevida em existir. Quando a minha tia recebia visitas, homens e mulheres que circulavam naquele universo com naturalidade, eu era instruída a permanecer no quarto, longe dos olhares curiosos, como se a minha presença fosse um lembrete inconveniente de um erro que todos preferiam fingir que não tinha existido. Eu ouvia as vozes atravessarem a casa, risos soltos, copos a tilintar, vidas a acontecer sem mim. A casa continuava cheia de vozes, risos e copos a tilintar, enquanto eu permanecia em silêncio, sentada na cama, ouvindo tudo através das paredes finas, sentindo-me cada vez mais pequena, cada vez mais irrelevante. O quarto tornou-se refúgio e punição ao mesmo tempo. A minha única sorte, se é que podia chamar assim, foi ter encontrado refúgio na escrita. Escrevia em cadernos velhos, em folhas soltas, às vezes no verso de papéis que não serviam para mais nada. Pequenas histórias. Histórias que eu teria gostado de conhecer quando era criança. Histórias onde o valor não vinha de um útero funcional. Onde ser escolhida não era a única forma de existir. Histórias onde as meninas não precisavam ser escolhidas para ter valor, nem descartadas para desaparecer. Não escrevia para ser lida. Escrevia para existir. Cada palavra era uma forma silenciosa de resistência. E, durante aqueles quatro meses, foi a única forma que encontrei de não me perder completamente.






