Capítulo 3

A casa cheirava a coisa antiga.

Não a lar.

Não a vida.

A algo preservado por hábito, como se estivesse à espera de pessoas que nunca voltariam.

Fiquei parada no corredor estreito sem nada nas mãos.

Sem mala.

Sem bolsa.

Ninguém tinha perguntado se eu precisava de uma.

Minha tia fechou a porta atrás de mim. O som ecoou mais pesado do que devia, como um ponto final mal disfarçado.

Ela parecia uma mulher que um dia esperou mais da vida e nunca a perdoou por não cumprir. O corpo era magro demais, quase frágil, envolto em roupas escuras escolhidas para desaparecer, não para agradar. O cabelo grisalho estava preso com força excessiva, puxando a pele do rosto até cada linha parecer mais funda, mais dura. A boca era fina, permanentemente caída, como se estivesse sempre decepcionada, mesmo em silêncio.

Os olhos eram o pior.

Pequenos. Vigilantes. Ressentidos.

Olhos que mediam pessoas não pelo que eram, mas pelo custo de mantê-las.

Ela não me olhou como família.

Olhou como um peso que chegara sem aviso e demoraria demais a ir embora.

— Então… mandaram você pra cá.

Não “bem-vinda”.

Não “entra”.

Mandaram.

Assenti, porque não havia outra resposta.

Ela virou e seguiu pelo corredor sem verificar se eu a acompanhava. Eu fui. O piso de pedra estava frio sob meus sapatos. As paredes pareciam se aproximar conforme eu andava.

— O quarto é no fundo. Você vai ficar lá.

Não “seu quarto”.

Apenas lá.

Ela empurrou a porta e se afastou.

O quarto era pequeno. Uma cama estreita. Uma cadeira. Um guarda-roupa que não fechava direito. Uma única janela voltada para um muro de pedra tão próximo que bloqueava quase toda a luz.

Entrei.

E parei.

Havia roupas sobre a cama.

Dobras cuidadosas.

Minhas.

Por um segundo, minha mente se recusou a aceitar. Fiquei imóvel, o peito apertando, algo frio descendo pela minha coluna.

Eu não tinha trazido nada.

Caminhei devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse desfazer aquilo. Abri o guarda-roupa.

Mais roupas. Sapatos alinhados. Vestidos que eu reconhecia. Blusas que eu lembrava de ter escolhido com cuidado, sempre dentro do que era aceitável.

Alguém tinha empacotado minha vida sem mim.

A constatação caiu pesada. Planejada. Organizada. Definitiva.

Voltei-me para a mesa de cabeceira.

Nenhuma caixa de joias.

Meu pulso acelerou.

Abri as gavetas. Uma. Outra. Mais rápido agora. Meus dedos tocaram madeira, tecido, papel, já sabendo o que não encontrariam.

Nada.

O colar do primeiro aniversário.

Os brincos que ele exigia que eu usasse em jantares formais.

A pulseira que nunca saía do meu pulso.

Tudo tinha sumido.

Olhei para as mãos.

O anel de noivado ainda estava ali. Pesado. Familiar.

A aliança ao lado, lisa de cinco anos de uso.

— Levaram o que pertencia à família — disse minha tia atrás de mim.

Virei devagar.

Ela ocupava a porta, braços cruzados, olhar afiado, sem constrangimento algum.

— O que nunca foi seu — completou.

— Eram presentes — respondi.

Minha voz saiu fina. Contida.

Ela riu uma vez. Curto. Amargo.

— Você realmente é inútil — disse. — Nem pra segurar um homem.

As palavras acertaram mais fundo do que eu esperava.

Ela se aproximou.

— Cinco anos casada e nada pra mostrar — continuou. — Sem status agora. Sem proteção. E ainda falhou na única coisa que devia fazer.

Meu peito apertou.

— Inútil — repetiu, mais devagar. — Nem filhos conseguiu dar.

O quarto pareceu encolher. O ar ficou denso demais para entrar direito nos pulmões.

Ela estendeu a mão.

— Os anéis.

Fitei a palma aberta.

Por um instante humilhante, pensei em discutir. Explicar. Implorar.

Não fiz nada disso.

Tirei primeiro a aliança. A pele abaixo estava pálida, marcada, como se meu corpo ainda lembrasse algo que minha vida já não tinha. Depois o anel de noivado. Pesava mais do que nunca quando o coloquei na mão dela.

Ela fechou os dedos sem olhar.

— O jantar é às sete — disse, já se virando. — E não se atrase. Já falam demais.

A porta se fechou.

Sentei na beira da cama, encarando a mão nua.

Cinco anos.

Não amor.

Não escolha.

Mas tinha sido uma vida.

Naquela noite, fiquei acordada olhando o teto. Minha mão voltava sozinha para onde os anéis tinham estado. Vazio.

As joias nunca tinham sido sentimentais. Não de verdade. Não representavam romance nem devoção. Representavam segurança. Seguro. Prova de que, se tudo desse errado, eu ainda teria algo meu.

Algo para vender.

Algo para trocar.

Algo que comprasse tempo.

Agora nem isso.

Passei a catalogar o que restava, do jeito que minha mãe me ensinara. Por hábito. Por medo. Roupas. Sapatos. Papéis. Nada de valor real. Nada que protegesse.

Eu não tinha marido.

Não tinha título.

Não tinha dinheiro próprio.

Não tinha bens.

Só um corpo que todos tinham decidido chamar de defeituoso.

A compreensão veio devagar.

Eu não tinha sido apenas descartada.

Tinha sido exposta.

Pela primeira vez desde que me casara, não havia nada entre mim e o mundo. Nenhum nome para invocar. Nenhuma proteção para exigir. Nenhuma vantagem.

Encolhi-me de lado, joelhos junto ao peito, braços apertados ao redor do próprio corpo.

Não pensava no fim do meu casamento.

Não pensava em desejo ou poder.

Pensava em como uma mulher podia virar nada rápido demais.

Os dias seguintes foram pequenos e cruéis.

Apresentações vagas.

Sussurros que cessavam quando eu entrava.

Olhares que deslizavam por mim como se eu já estivesse apagada.

Foi assim que aprendi como o exílio realmente funcionava.

Não com confronto, mas com olhares.

As amigas da minha tia apareciam à tarde. Mulheres da idade dela. Bem vestidas. Vozes baixas por hábito, não por gentileza.

Olhavam para mim como se olha algo lamentável que não se quer tocar.

Olhos demorando demais.

Depois desviando.

E os murmúrios vinham logo atrás.

— Coitada.

— Que vergonha.

— Depois de tudo…

Às vezes nem se davam ao trabalho de disfarçar.

Peguei palavras soltas ao passar por portas entreabertas.

Palavras que grudavam na pele.

— Inútil.

— Fracassada.

— Vai ficar aqui por quanto tempo?

Uma vez, ao entrar na cozinha, a conversa parou abruptamente. Uma delas olhou para mim, depois para minha tia, e disse com um sorriso fino:

— Deve estar sendo exaustivo.

Minha tia não negou.

Outra vez ouvi algo que fez meu estômago se revirar.

Baixo.

Mas claro o suficiente.

— Parasita.

Não me olharam quando a palavra saiu.

Não precisavam.

Eu entendi perfeitamente o que tinha me tornado.

Algo tolerado.

Algo alimentado por obrigação.

Algo à espera de ser removido.

À noite, comecei a escrever.

Não cartas. Nem explicações. Fragmentos. Listas. Frases que não precisavam de permissão para existir. Lembranças de quem eu fora antes de ser reduzida a uma função que falhei em cumprir.

O caderno virou meu único refúgio.

Numa tarde, enquanto escrevia apenas para ouvir o som da caneta, minha tia apareceu na porta.

— Tem uma ligação pra você.

Meu coração deu um salto doloroso.

— Quem? — perguntei.

Ela fez uma pausa.

Curta demais para ser acidental.

— Alguém da família DeLuca.

Meu corpo reagiu antes da mente. Tensão. Medo. Um aperto baixo no estômago que não fazia sentido.

— Disseram — acrescentou, observando cada movimento meu — que você deve ir imediatamente.

Sem nome.

Sem explicação.

Fechei o caderno devagar.

Exílio, ao que parecia, tinha sido só um intervalo.

E, enquanto me levantava, tive a estranha certeza de que aquilo não era um chamado qualquer.

Era a retomada de algo que nunca tinha sido realmente encerrado.

Em algum lugar, Don Matteo DeLuca tinha decidido que a espera tinha acabado.

E o preço do que viria a seguir seria maior do que anéis.

Muito maior.

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