Mundo ficciónIniciar sesiónAxel Morgenstern, CEO da Betelgeuse Technology, construiu a vida sobre controle absoluto, liberdade sem vínculos e a certeza de que sentimentos são fraquezas negociáveis. Criado sem afeto e moldado pelo padrinho e sócio William Le Blanc, aprendeu cedo que amor e compromisso são armadilhas. Quando Billy adoece gravemente, Axel descobre um segredo enterrado no passado: uma filha que o padrinho nunca reconheceu em vida, fruto de um erro que ele tentou apagar. Agora, à beira da morte, Billy pede a Axel que faça por Ruby o que um dia fez por ele — acolhê-la, orientá-la e prepará-la para herdar parte do império que ajudaram a construir. Ruby Stewart, de dezoito anos, estudante de Artes, cantora de uma banda underground chamada No Rules, vive em um mundo que Axel despreza e não compreende. Ao vê-la pela primeira vez no palco, intensa, indomável e perigosamente magnética, Axel percebe que não está apenas diante de uma herdeira inesperada, mas de uma força capaz de desestabilizar tudo o que ele acredita controlar.
Leer másAxel Morgenstern
Eu gosto do silêncio depois que a porta se fecha. Não o silêncio absoluto — Nova York nunca oferece isso —, mas aquele intervalo breve em que tudo parece suspenso. O ar ainda guarda um perfume caro, uma mistura de jasmim e algo adocicado demais, que me irrita. Caminho até a janela da minha sala na Betelgeuse Technology e observo a cidade lá embaixo, viva, indiferente, pulsando como um organismo que jamais dorme. Gabrielle ficou tempo demais. Esse pensamento não vem carregado de culpa. Nunca vem. É só um dado objetivo, como números numa planilha: quando algo ultrapassa o prazo ideal, começa a perder eficiência. Pessoas, inclusive. Meu celular vibra sobre a mesa de vidro. Sei quem é antes mesmo de olhar. — Axel… — a voz dela soa macia, ensaiada para parecer vulnerável. — Você desligou na minha cara. Seguro o aparelho longe do ouvido por um segundo, inspiro fundo, conto mentalmente até três. Detesto repetições. Detesto explicações desnecessárias. — Gabrielle, o pagamento já foi depositado — digo, sem suavizar o tom. — Verifique sua conta. — Mas… eu achei que a gente estava bem. Você disse que— — Eu disse muitas coisas que não significam absolutamente nada — corto. — Isso faz parte do acordo, não faz? Silêncio do outro lado. Depois, um suspiro contido, quase teatral. — Eu posso ficar mais um pouco. Posso— — Não — respondo. Seco. Definitivo. — Já passou do tempo. Ela ainda tenta dizer algo, talvez meu nome, talvez um apelo qualquer, mas não espero. Encerro a ligação e deixo o telefone sobre a mesa como se ele tivesse queimado minha mão. Liberdade tem um preço, e eu pago com prazer. Ajusto o paletó diante do reflexo do vidro. Trinta e quatro anos. O solteirão mais cobiçado do Upper East Side, segundo colunas sociais que nunca li por inteiro. Elas falam de mim como se eu fosse um mito urbano: inalcançável, frio, irresistível. Nenhuma delas entende que compromisso, para mim, sempre teve o gosto amargo de uma cela. Casamento. Filhos. Uma esposa ligando para saber por que cheguei tarde. Uma casa que deixa de ser refúgio e vira tribunal. A ideia me repugna. Aprendi cedo que o amor cobra caro demais. Pego as chaves, atravesso o corredor envidraçado e entro no elevador. Meu reflexo me encara de volta, impecável por fora, organizado, controlado. Ninguém ali vê o menino que fui um dia, criado por empregados, circulando por corredores grandes demais para um corpo pequeno demais. Meu pai nunca soube o que fazer comigo. Christian Morgenstern fundou a Betelgeuse junto com Billy quando eu ainda engatinhava. Um visionário, diziam. Um gênio dos negócios. Para mim, era só um homem distante, com olhos sempre cansados e uma ausência constante, como se a minha existência fosse um lembrete vivo da mulher que ele perdeu. Minha mãe morreu me trazendo ao mundo. Filho único. Uma troca injusta que nunca pedi. Quando Christian morreu naquele acidente, eu tinha quinze anos. Quinze. Não entendia balanços, ações, fusões. Não entendia nem a mim mesmo. Poderia ter perdido tudo. Poderia ter sido engolido por advogados, conselheiros, acionistas famintos. Billy não deixou. William Le Blanc. Meu padrinho. Meu sócio. Meu pai, em tudo que realmente importava. Se ele fosse outro tipo de homem, teria roubado minha parte da empresa com facilidade. Bastava uma assinatura, uma omissão, uma manobra jurídica. Mas Billy me acolheu. Me ensinou. Me protegeu. “Negócios são como guerra, filho”, ele dizia. “Você precisa saber quando avançar e quando recuar.” E foi com ele que aprendi sobre mulheres também. Nunca se case, filho. Ele falava com um sorriso torto, carregado de cicatrizes invisíveis. Contava sobre o casamento fracassado, sobre brigas por nada, sobre o divórcio que lhe custou dinheiro e paz. Eu absorvia cada palavra como um dogma. Billy era forte. Sempre foi. Por isso, quando estaciono em frente ao hospital de luxo e caminho pelos corredores claros demais, algo dentro de mim começa a se revirar. O cheiro de antisséptico me enjoa. Não combina com a imagem que guardo dele. Entro no quarto. E vejo. O homem que me ensinou tudo está ali, reduzido a lençóis brancos, tubos, máquinas que apitam em ritmos que não fazem sentido. O rosto está pálido, sulcado por uma fragilidade que eu nunca associei a ele. Meu estômago se fecha. Por um instante, sinto raiva. Uma raiva infantil, irracional. Billy não pode estar assim. Não ele. Não o homem que atravessava salas de reunião como um general, que me olhava nos olhos e me chamava de filho com uma firmeza que eu nunca tivera de Christian. Dou alguns passos, devagar. Cada um pesa. — Ei, velho… — minha voz sai mais baixa do que eu pretendia. Os olhos dele se abrem lentamente. Ainda há ali aquele brilho conhecido, mesmo enfraquecido. — Axel… — murmura, um sorriso cansado surgindo no canto dos lábios. — Veio ver se eu ainda presto? Forço um sorriso de volta, mas algo aperta no peito. Não sei lidar com isso. Não sei lidar com a possibilidade de perder a única pessoa que realmente me amou. — Claro que presta — respondo. — Ainda não me livrei de você. Puxo uma cadeira e me sento ao lado da cama. Observo suas mãos, antes firmes, agora trêmulas. Um nó se forma na minha garganta, e odeio isso. Odeio me sentir exposto, frágil, como aquele garoto órfão outra vez. Se Billy se for… Não termino o pensamento. Ele sempre esteve ali. Sempre. Quando eu não tinha mãe. Quando meu pai me ignorava. Quando fiquei sozinho no mundo. Ele foi o pilar que sustentou tudo o que sou hoje — inclusive esse homem que finge não precisar de ninguém. Percebo, então, o quanto minha aversão a laços talvez não seja liberdade, mas medo. Medo de perder. Seguro a lateral da cama com força, como se isso pudesse ancorar o tempo, impedir que ele avance. Pela primeira vez em muitos anos, a ideia de solidão não me parece confortável. E isso me assusta mais do que qualquer compromisso jamais assustou.Axel MorgensternO mar sempre teve um jeito curioso de trazer memórias de volta.Eu caminho pelo píer de madeira com as mãos nos bolsos, sentindo o vento salgado bater no rosto, carregando aquele cheiro que eu conhecia tão bem. Era ali que eu passava alguns dos poucos momentos… leves. Antes de tudo virar responsabilidade, estratégia, sobrevivência.Antes de eu virar quem eu achei que precisava ser.A casa de praia está exatamente como eu lembro. O rangido da madeira, o som das ondas batendo ritmadas, quase hipnóticas. Por um instante, parece que o tempo não passou.E então eu vejo.Ele.Sentado na ponta do píer, como se nunca tivesse ido embora.A vara de pesca apoiada com tranquilidade, a boina de sempre na cabeça, o corpo relaxado… inteiro. Saudável. Sem nenhum sinal da doença que o consumiu no final.Por um segundo, eu não me mexo.Só observo.Como se qualquer movimento pudesse desfazer aquilo.— Axel — ele chama, sem sequer olhar pra trás. — Senta aqui, moleque. Eu estava esperand
Eu nunca imaginei que o som de uma porta se abrindo pudesse fazer o meu coração disparar daquele jeito.Mas fez.O rangido suave ecoou pela igreja, e todos os olhares se voltaram para mim.Por um segundo, eu não consegui me mover.O vestido parecia mais pesado do que deveria. A cauda enorme se espalhava pelo chão atrás de mim como um rastro de tudo o que eu tinha vivido até chegar ali. Cada passo que eu ainda não tinha dado parecia carregado de história, de dor, de escolhas… de tudo.Respirei fundo.E senti o braço dele ao meu lado.Logan.Olhei de relance, e ele já estava me olhando. Mais magro do que deveria, ainda com sombras no rosto… mas diferente. Presente. Consciente. Ali.— Tá pronta? — ele perguntou baixo.Engoli seco.— Tô.Ele assentiu, apertando de leve minha mão contra o braço dele.Amanhã ele iria para a clínica.Internação voluntária.A decisão mais difícil da vida dele… e, ainda assim, ele escolheu estar ali hoje.Por mim.Porque eu não tinha ninguém.Nenhum pai.Nenhu
Eu nunca pensei que uma sala branca pudesse carregar tanto peso.O cheiro de antisséptico era forte, quase cortante, grudando no fundo da garganta. As paredes eram limpas demais, silenciosas demais, como se qualquer emoção ali fosse um erro. Eu estava deitada naquela maca, a blusa erguida, o gel frio espalhado na minha barriga, enquanto a médica deslizava o aparelho com movimentos precisos.Axel estava ao meu lado.Em pé, como sempre.Impecável, como sempre.Mas eu já sabia reconhecer quando algo não estava sob controle — e ali, naquele momento, não estava.O maxilar dele estava travado.As mãos, embora firmes, estavam tensas demais.E o silêncio…O silêncio dizia tudo.Eu tentei focar na tela.Aquelas formas em preto e branco, tremidas, difíceis de entender. Era estranho pensar que ali dentro de mim existia… alguém. Ou melhor… alguma coisa que ainda estava se formando, crescendo, ganhando forma.Meu coração batia mais rápido.— Está tudo bem? — perguntei, sem conseguir esconder a ans
Percebo que algo está diferente antes mesmo de o carro parar por completo.Talvez seja o jeito como Axel segura o volante — firme demais. Ou o silêncio denso que se instala assim que o salão de festas surge diante de nós, iluminado como se fosse um cenário de cinema. Luzes quentes, fachada imponente, pessoas bem vestidas entrando e saindo, risadas contidas, taças brilhando sob lustres enormes.— Axel… — começo, insegura. — Que tipo de festa é essa, afinal?Ele não responde de imediato.Apenas estaciona, desliga o carro e, antes que eu possa abrir a porta sozinha, sai e contorna o veículo. Quando ele abre a porta para mim, estende a mão com firmeza — não como quem oferece ajuda, mas como quem faz questão.Seguro seus dedos.E naquele gesto simples, algo muda.Quando descemos juntos, sinto. Literalmente sinto os olhares se virarem na nossa direção. É como se o ar do lugar se deslocasse. Conversas diminuem de volume, risos se interrompem, cabeças se inclinam discretamente para observar.





Último capítulo