Mundo ficciónIniciar sesiónTiro o paletó antes mesmo de sair de casa.
Ele fica jogado sobre a cadeira, como se fosse uma pele que não posso levar comigo. A gravata vai junto. Opto por algo simples — camisa social preta, mangas dobradas até os antebraços, calça preta. Ainda sou eu, mas uma versão menos óbvia. Um disfarce inútil, talvez, mas necessário. Não quero anunciar que não pertenço àquele mundo… embora saiba que vão perceber de qualquer forma. Dirijo até o endereço do panfleto com o rádio desligado. A cidade muda de textura conforme me afasto das avenidas polidas. Prédios mais baixos. Fachadas pichadas. Luzes de neon cansadas. Estaciono e, por um instante, considero ir embora. Ninguém aqui me conhece. Ruby nem sabe quem eu sou. Mas dever não funciona assim. Nunca funcionou para mim. Entro. O impacto é imediato. Cheiro forte de bebida barata, cigarro impregnado nas paredes, algo metálico no ar que pode ser suor ou expectativa. O lugar é escuro, iluminado por luzes coloridas que piscam sem ritmo definido. As pessoas… todas parecem versões diferentes da garota que me entregou o panfleto. Cabelos coloridos, raspados, longos demais. Roupas pretas, cintos de rebite, correntes, piercings em lugares que me fazem franzir o cenho sem perceber. Alguns homens usam o cabelo comprido até os ombros. Outros têm maquiagem pesada. Não há regra. Só excesso. Quando passo pela porta, sinto os olhares. Eles me veem. É impossível não ver. Alto demais. Postura rígida demais. Roupa limpa demais. Alguns cochicham. Outros riem abertamente. Um riso rápido, debochado, sem maldade direta, mas suficiente para me deixar desconfortável. Ótimo, Axel. Excelente escolha de ambiente. Vou até o fundo, encosto perto de uma coluna, mantendo distância do centro. As primeiras bandas começam a tocar, uma atrás da outra. O som é ensurdecedor. A bateria parece querer atravessar meu crânio. Guitarras distorcidas demais. Vozes guturais que mais parecem gritos de dor do que canto. Sinto a dor de cabeça se formando cedo demais. Me pego pensando — com uma irritação quase infantil — no que diabos estou fazendo ali. Eu poderia estar em casa, com uma taça de vinho caro, silêncio, controle. Poderia estar dormindo. Poderia estar em qualquer lugar que fizesse sentido. Mas estou ali. Porque Billy pediu. E porque Ruby existe. As bandas se sucedem. O público vibra, pula, canta letras que não entendo. Em algum momento, penso seriamente em ir embora. Dou um passo para trás. Depois outro. A mão chega a tocar a lateral da porta. Então o apresentador anuncia a próxima banda. O nome da banda dela “No Rules” Sinto algo estranho no estômago. Não ansiedade. Antecipação. As luzes mudam. O palco se reorganiza. E então ela entra. Ruby. A foto não faz justiça nenhuma. Nada. Ela usa um top escuro, justo, e por cima uma blusa transparente que deixa pouco à imaginação sem ser vulgar. Um short preto. Meias de arrastão. Botas pesadas. O visual é provocativo, não convencional, quase agressivo — mas o choque real vem quando meu cérebro finalmente registra o conjunto. Ela é linda pra caralho. Não é uma beleza óbvia, de revista ou de vitrine. É viva. Intensa. Os cabelos pretos com pontas roxas emolduram o rosto de um jeito que chama atenção sem pedir permissão. Os piercings, que na foto pareciam excessivos, nela fazem sentido. Como se fossem extensões da própria personalidade. Meu corpo reage antes que eu consiga racionalizar. Endireito a postura. O barulho ao redor diminui — não porque fica mais baixo, mas porque minha atenção afunila. A música começa. A bateria entra pesada, marcando um ritmo que vibra no chão. A guitarra acompanha, agressiva. Um segundo vocalista surge com a voz gutural, rasgando o ar. Então Ruby canta. E tudo muda. A voz dela é doce. Um soprano limpo, forte, quase contraditório naquele mar de distorção. Não briga com o caos — flutua sobre ele. Há dor ali. E desafio. E algo perigosamente sedutor. O refrão chega, e minhas mãos se fecham em punhos sem que eu perceba. “Eu sou o fruto proibido, teu desejo velado, me prova e estará perdido, meu doce pecado. Se morde, não solta, não vai resistir, quem prova de mim nunca mais é livre pra ir…” A rima entra na minha cabeça como um gancho. O contraste entre a letra e a voz me atravessa de um jeito desconfortável. Há algo ali que não é só música. É confissão. É provocação. É aviso. Eu olho hipnotizado. O mundo ao redor deixa de existir. A dor de cabeça some. O cheiro forte, as risadas, os olhares — tudo desaparece. Existe apenas ela, o palco, a luz incidindo sobre o corpo em movimento, a voz que parece saber exatamente onde tocar. Penso, com um desconforto que beira o absurdo, que Billy tinha razão em uma coisa: algumas pessoas nascem para desestabilizar. Quando a música termina, o lugar explode. Gritos. Palmas. Assobios. O público reage como se tivesse acabado de participar de algo íntimo. Ruby sorri. Um sorriso rápido, torto, verdadeiro. Não é ensaiado. Não é para agradar. É para liberar algo que estava preso dentro dela. A banda se despede e desce do palco. Meu coração b**e mais rápido do que deveria. Vejo Ruby caminhar em direção ao bar. O palco já não a protege. Ela está ali, real, tangível. Não a herdeira. Não a filha de Billy. Não a consequência. Uma garota de dezoito anos indo buscar uma bebida depois de cantar como se o mundo dependesse disso. Dou um passo. Depois outro. Cada movimento pesa. Não é medo. É consciência. Sei que, quando falar com ela, algo vai mudar. Não só para ela. Para mim. Ela se apoia no balcão. Pede algo ao barman. Ri de um comentário que não escuto. A luz agora revela detalhes que o palco escondia: o brilho dos olhos castanhos, a juventude crua por trás da postura desafiadora. Estou atrás dela. Perto o suficiente para sentir o perfume — algo adocicado, misturado ao cheiro do lugar. Perto o suficiente para saber que não há mais volta. Engulo em seco. Billy, o que diabos você me pediu para fazer? Ruby pega o copo, vira-se… e nossos olhares se encontram. E naquele segundo, tenho certeza de uma coisa: nenhuma reunião, nenhum contrato, nenhuma negociação me preparou para isso






