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Atravessando Limites
Atravessando Limites
Por: Hazel Fae
O Solteirão mais cobiçado

Axel Morgenstern

Eu gosto do silêncio depois que a porta se fecha.

Não o silêncio absoluto — Nova York nunca oferece isso —, mas aquele intervalo breve em que tudo parece suspenso. O ar ainda guarda um perfume caro, uma mistura de jasmim e algo adocicado demais, que me irrita. Caminho até a janela da minha sala na Betelgeuse Technology e observo a cidade lá embaixo, viva, indiferente, pulsando como um organismo que jamais dorme.

Gabrielle ficou tempo demais.

Esse pensamento não vem carregado de culpa. Nunca vem. É só um dado objetivo, como números numa planilha: quando algo ultrapassa o prazo ideal, começa a perder eficiência. Pessoas, inclusive.

Meu celular vibra sobre a mesa de vidro. Sei quem é antes mesmo de olhar.

— Axel… — a voz dela soa macia, ensaiada para parecer vulnerável. — Você desligou na minha cara.

Seguro o aparelho longe do ouvido por um segundo, inspiro fundo, conto mentalmente até três. Detesto repetições. Detesto explicações desnecessárias.

— Gabrielle, o pagamento já foi depositado — digo, sem suavizar o tom. — Verifique sua conta.

— Mas… eu achei que a gente estava bem. Você disse que—

— Eu disse muitas coisas que não significam absolutamente nada — corto. — Isso faz parte do acordo, não faz?

Silêncio do outro lado. Depois, um suspiro contido, quase teatral.

— Eu posso ficar mais um pouco. Posso—

— Não — respondo. Seco. Definitivo. — Já passou do tempo.

Ela ainda tenta dizer algo, talvez meu nome, talvez um apelo qualquer, mas não espero. Encerro a ligação e deixo o telefone sobre a mesa como se ele tivesse queimado minha mão.

Liberdade tem um preço, e eu pago com prazer.

Ajusto o paletó diante do reflexo do vidro. Trinta e quatro anos. O solteirão mais cobiçado do Upper East Side, segundo colunas sociais que nunca li por inteiro. Elas falam de mim como se eu fosse um mito urbano: inalcançável, frio, irresistível. Nenhuma delas entende que compromisso, para mim, sempre teve o gosto amargo de uma cela.

Casamento. Filhos. Uma esposa ligando para saber por que cheguei tarde. Uma casa que deixa de ser refúgio e vira tribunal.

A ideia me repugna.

Aprendi cedo que o amor cobra caro demais.

Pego as chaves, atravesso o corredor envidraçado e entro no elevador. Meu reflexo me encara de volta, impecável por fora, organizado, controlado. Ninguém ali vê o menino que fui um dia, criado por empregados, circulando por corredores grandes demais para um corpo pequeno demais.

Meu pai nunca soube o que fazer comigo.

Christian Morgenstern fundou a Betelgeuse junto com Billy quando eu ainda engatinhava. Um visionário, diziam. Um gênio dos negócios. Para mim, era só um homem distante, com olhos sempre cansados e uma ausência constante, como se a minha existência fosse um lembrete vivo da mulher que ele perdeu.

Minha mãe morreu me trazendo ao mundo. Filho único. Uma troca injusta que nunca pedi.

Quando Christian morreu naquele acidente, eu tinha quinze anos. Quinze. Não entendia balanços, ações, fusões. Não entendia nem a mim mesmo. Poderia ter perdido tudo. Poderia ter sido engolido por advogados, conselheiros, acionistas famintos.

Billy não deixou.

William Le Blanc. Meu padrinho. Meu sócio. Meu pai, em tudo que realmente importava.

Se ele fosse outro tipo de homem, teria roubado minha parte da empresa com facilidade. Bastava uma assinatura, uma omissão, uma manobra jurídica. Mas Billy me acolheu. Me ensinou. Me protegeu.

“Negócios são como guerra, filho”, ele dizia. “Você precisa saber quando avançar e quando recuar.”

E foi com ele que aprendi sobre mulheres também.

Nunca se case, filho.

Ele falava com um sorriso torto, carregado de cicatrizes invisíveis. Contava sobre o casamento fracassado, sobre brigas por nada, sobre o divórcio que lhe custou dinheiro e paz. Eu absorvia cada palavra como um dogma.

Billy era forte. Sempre foi.

Por isso, quando estaciono em frente ao hospital de luxo e caminho pelos corredores claros demais, algo dentro de mim começa a se revirar. O cheiro de antisséptico me enjoa. Não combina com a imagem que guardo dele.

Entro no quarto.

E vejo.

O homem que me ensinou tudo está ali, reduzido a lençóis brancos, tubos, máquinas que apitam em ritmos que não fazem sentido. O rosto está pálido, sulcado por uma fragilidade que eu nunca associei a ele.

Meu estômago se fecha.

Por um instante, sinto raiva. Uma raiva infantil, irracional. Billy não pode estar assim. Não ele. Não o homem que atravessava salas de reunião como um general, que me olhava nos olhos e me chamava de filho com uma firmeza que eu nunca tivera de Christian.

Dou alguns passos, devagar. Cada um pesa.

— Ei, velho… — minha voz sai mais baixa do que eu pretendia.

Os olhos dele se abrem lentamente. Ainda há ali aquele brilho conhecido, mesmo enfraquecido.

— Axel… — murmura, um sorriso cansado surgindo no canto dos lábios. — Veio ver se eu ainda presto?

Forço um sorriso de volta, mas algo aperta no peito. Não sei lidar com isso. Não sei lidar com a possibilidade de perder a única pessoa que realmente me amou.

— Claro que presta — respondo. — Ainda não me livrei de você.

Puxo uma cadeira e me sento ao lado da cama. Observo suas mãos, antes firmes, agora trêmulas. Um nó se forma na minha garganta, e odeio isso. Odeio me sentir exposto, frágil, como aquele garoto órfão outra vez.

Se Billy se for…

Não termino o pensamento.

Ele sempre esteve ali. Sempre. Quando eu não tinha mãe. Quando meu pai me ignorava. Quando fiquei sozinho no mundo. Ele foi o pilar que sustentou tudo o que sou hoje — inclusive esse homem que finge não precisar de ninguém.

Percebo, então, o quanto minha aversão a laços talvez não seja liberdade, mas medo.

Medo de perder.

Seguro a lateral da cama com força, como se isso pudesse ancorar o tempo, impedir que ele avance. Pela primeira vez em muitos anos, a ideia de solidão não me parece confortável.

E isso me assusta mais do que qualquer compromisso jamais assustou.

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