O Pedido

O som dos aparelhos é o que mais me incomoda.

Não é alto, não é agressivo, mas é constante — um lembrete insistente de que o tempo está sendo contado em algo que não sou capaz de negociar, comprar ou adiar. Billy sempre disse que tudo na vida tem um preço. Pela primeira vez, percebo que isso não se aplica à morte.

— Como você está? — pergunto, mesmo sabendo que é uma pergunta inútil.

Billy solta uma risada curta, quase um pigarro.

— Indo dessa pra melhor — responde. — Pelo menos é o que dizem quando querem parecer educados.

— Para com isso — retruco de imediato. — Você vai sair daqui. Já saiu de situações piores.

Ele ergue a mão com dificuldade, interrompendo meu discurso antes que eu consiga embalar aquela falsa positividade que aprendi a usar em reuniões e crises financeiras.

— Escute os mais velhos, filho.

A palavra filho ainda tem o poder de me desmontar por dentro. Engulo em seco e fico em silêncio.

— Quando recebi o diagnóstico — ele continua —, os médicos me deram seis meses. Seis. — Faz uma pausa, respira com esforço. — Já passei disso. Vivi tempo extra. Mas agora… agora eu sei. Meu corpo sabe antes de mim.

Sinto um aperto estranho no estômago. Não é medo. É algo mais primitivo. A sensação de estar prestes a perder o chão.

— Antes de ir, preciso que você faça uma coisa por mim.

Meu primeiro impulso é dizer sim. Sempre foi. Billy nunca pediu nada que não fosse essencial. Ainda assim, algo na maneira como ele desvia o olhar me deixa em alerta.

— O que for — respondo.

Ele fecha os olhos por um instante, como se estivesse organizando pensamentos que ficaram guardados por tempo demais.

— Depois do divórcio… — começa. — Eu estava destruído. Amargo. Com raiva. E fiz o que sempre fiz de melhor: cedi aos desejos e ignorei as consequências.

Meu maxilar se contrai. Conheço esse discurso. Fui criado à sombra dele.

— Tinha uma estagiária — ele diz. — Rose. Bonita pra caralho. Jovem. Inteligente. Eu sabia que era errado. Sabia. Mas não resisti.

Não digo nada. Não julgo. Billy nunca foi um santo, e ele mesmo nunca fingiu ser.

— Dois meses depois, ela apareceu dizendo que estava grávida. — A voz dele falha por um segundo. — E eu entrei em pânico. Tudo o que eu conseguia ver era o rosto da minha ex-mulher, as brigas, o tribunal, o dinheiro escorrendo pelos meus dedos… a sensação de estar preso de novo.

Sinto um gosto metálico na boca.

— Eu mandei ela abortar — ele continua, sem rodeios. — Depositei uma quantia alta na conta dela. E ameacei. Disse que se ela não tirasse a criança, eu destruiria a vida dela. Carreira, reputação… tudo.

Meu corpo reage antes da mente. Um desconforto pesado se instala no peito. Billy sempre foi duro, mas ouvir aquilo assim, cru, me causa algo próximo de vertigem.

— Ela aceitou — diz ele. — Ou pelo menos foi o que eu pensei.

O silêncio que se segue é denso. Billy respira com dificuldade, e eu sinto que algo maior está vindo.

— Um ano depois, descobri que Rose tinha se mudado para Hoboken. Teve uma menina. Largou a faculdade.

Minha cabeça gira.

— Por que… — começo, mas paro. Não sei nem qual pergunta fazer.

— Porque ela nunca me procurou — ele responde. — Nunca pediu nada. Eu deixei pra lá. Fiz o que sempre fiz: segui em frente como se nada tivesse acontecido.

Engulo em seco. Esse seguir em frente soa familiar demais.

— Agora, olhando pra trás… — Billy suspira. — Vivi como quis. Mulheres. Festas. Dinheiro. Liberdade. Mas não deixei nada além de contratos e prédios. Nenhum herdeiro.

Ele me encara com intensidade súbita.

— A garota voltou à minha cabeça. A curiosidade virou culpa. E a culpa virou necessidade.

Billy aponta para a cômoda ao lado da cama. Com esforço, estica o braço e puxa uma pasta grossa, de papel pardo. Quando a coloca nas minhas mãos, sinto o peso real daquilo — não o físico, mas o simbólico.

Abro.

Na primeira página, uma fotografia.

Uma jovem de cabelos pretos, as pontas pintadas de roxo. Olhos castanhos intensos. Piercings no nariz, na sobrancelha, na boca. Roupas pretas. Expressão fechada. Desafiadora. Problemática, diria qualquer um à primeira vista.

Mas eu vejo mais.

O formato do nariz. A testa. Um traço inconfundível de Billy ali, gritando genética.

— Ruby Stewart — ele diz. — Dezoito anos. Estudante de Artes na Brown University. Cantora numa banda pequena de new metal.

Fecho a pasta devagar. Meu coração b**e rápido demais.

— Rose morreu — Billy acrescenta, a voz mais baixa. — AVC. Dois anos atrás.

Sinto como se alguém tivesse apertado algo dentro do meu peito.

— Ruby está sozinha — ele continua. — E não sabe quem eu sou. Ou quem fui.

Abro a boca para falar, mas ele levanta a mão novamente.

— Eu já cuidei da parte legal. Ela foi reconhecida como minha filha. Vai herdar o sobrenome Le Blanc. E minha parte nos negócios da Betelgeuse Technology.

Minha mente entra em curto-circuito.

— Billy… — murmuro. — Você está falando de colocar uma garota de dezoito anos no meio disso tudo.

— Estou falando de dar a ela o que neguei a vida inteira — ele rebate. — E de confiar em você para não deixá-la se perder.

O peso do pedido cai sobre mim como um golpe.

— Quero que você vá até ela — ele diz. — Conte tudo. Ensine tudo. Você será o CEO. Foi preparado pra isso. Mas quero que Ruby aprenda. Que participe. Que tenha escolha.

Meu primeiro instinto é negar. Isso não estava nos meus planos. Não faz parte do meu mundo organizado, controlado, livre de vínculos desnecessários.

Mas então olho para Billy.

Fraco. Cansado. À beira do fim.

A única pessoa que jamais me abandonou.

— Eu vou — digo, antes mesmo de pensar. — Eu prometo.

Ele fecha os olhos, aliviado. Um sorriso tranquilo se desenha em seu rosto.

— Obrigado, filho.

A palavra ecoa dentro de mim enquanto seguro a pasta com mais força do que deveria.

Quando saio do hospital algum tempo depois, o mundo parece ligeiramente fora do eixo.

Uma filha.

Uma herdeira.

Uma garota que carrega o sangue do único homem que amei como pai.

E, pela primeira vez, percebo que minha liberdade talvez esteja prestes a ser desafiada por algo que não pode ser pago, dispensado ou desligado com uma ligação.

E isso me assusta mais do que qualquer compromisso jamais assustou.

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