Mundo ficciónIniciar sesiónDou mais um passo quando ela vira de frente para o balcão, o copo recém-servido ainda na mão. O barulho ao redor continua alto, mas ali, naquele pequeno espaço entre nós dois, tudo parece estranhamente suspenso.
— Ruby Stewart? — pergunto, direto, sem rodeios. Ela ergue o olhar devagar. Os olhos castanhos me avaliam com rapidez, precisão. Não há timidez ali. Só alerta. — Sou eu — responde. — Por quê? — Preciso falar com você. Digo isso no mesmo tom que uso em reuniões importantes. Calmo. Objetivo. Acostumado a ser obedecido. Ela não se move. Apenas inclina levemente a cabeça, como quem estuda uma peça fora do lugar. — Sobre o quê? Antes que eu responda, o olhar dela desce involuntariamente. Passa pela camisa bem cortada, pelo caimento perfeito da calça, pelo relógio caro no meu pulso. Quando volta ao meu rosto, há uma conclusão pronta ali. — Você é empresário — diz. Não pergunta. Afirma. — Daqueles que vêm atrás de banda. Por um segundo, quase me sinto tentado a aceitar aquela versão. Seria mais fácil. Mais neutra. — Sou empresário, sim — confirmo. — Mas não desse tipo. E o que eu tenho pra conversar com você é importante. Ela franze a testa, dá um gole na bebida. — Então espera aí — diz, já se virando. — Vou chamar os outros. Logan vai gostar de ouvir isso. E o Leon— — Não é necessário — interrompo. Ela para. Vira de novo, lentamente. — Como é? — O assunto é só com você. O silêncio entre nós se torna mais denso. O sorriso que ela usava com o barman desaparece. — Você não está interessado na banda? — questiona, agora com um tom defensivo. — Porque se for pra saber… o Logan é um baixista do caralho. E ninguém segura uma bateria como o Leon. A gente não é amadora. — Eu sei — respondo, mesmo sem saber de fato. — Mas não é isso. Ela me encara, desconfiada. — Então o que você quer comigo? Respiro fundo. Sinto dezenas de olhares curiosos ao redor, mas sigo. Tiro o cartão do bolso interno da camisa e estendo na direção dela. — Meu nome é Axel Morgenstern. Sou o CEO da Betelgeuse Technology. E sócio de William Le Blanc. A palavra sócio ainda ecoa quando ela pega o cartão. O efeito é imediato. O rosto dela endurece. Os músculos da mandíbula se contraem. Os olhos, que antes eram curiosos e alertas, se fecham em algo que reconheço tarde demais: raiva antiga. — Pai — completo, com a voz mais baixa. — William Le Blanc é seu pai. Ela não responde. Por um segundo, penso que talvez vá rir. Negar. Me chamar de louco. Em vez disso, ela rasga o cartão. Não devagar. Não com hesitação. Rasga em tiras violentas, os dedos tremendo, a respiração acelerada. Antes que eu consiga reagir, ela j**a os pedaços de papel no meu peito, alguns acertando meu rosto. — Eu não tenho nada pra tratar com o sócio do homem que destruiu a vida da minha mãe — cospe as palavras, cada uma carregada de veneno. — Nada. Fico imóvel. Chocado não é uma palavra forte o suficiente. Há algo profundamente desestabilizador em ser rejeitado daquela forma, sem negociação possível. Eu, que sempre fui ouvido. Eu, que sempre tive tempo, dinheiro e poder como moedas de troca. — Ruby, espera — tento, dando um passo à frente. — Você precisa me escutar. Não é— — Não — ela corta, a voz alta agora. — Você não tem ideia do que está falando. Algumas pessoas ao redor começam a prestar atenção. Sinto a atmosfera mudar. — Eu não quero ouvir nada sobre aquele homem — ela continua. — Nem dele, nem de você. — Ele está morrendo — digo, quase sem pensar. O impacto é visível. Por um instante, algo vacila no olhar dela. Mas a muralha se recompõe rápido. — Ótimo — responde, fria. — Não muda porra nenhuma. Nesse momento, dois homens se aproximam. Seguranças. Roupas pretas, mesma estética do lugar, postura tensa. — Tá tudo bem aqui? — um deles pergunta, olhando primeiro para ela, depois para mim. Ruby não hesita. — Não. Esse cara tá me incomodando. É o suficiente. Uma mão firme segura meu braço. Outra pressiona minhas costas. — Vamos sair — diz um deles, nada educado. — Eu só preciso falar com ela — tento argumentar, mantendo a voz controlada, embora o coração esteja disparado. — É importante. — Não é — Ruby responde por cima, já se afastando. — Some daqui. Sou arrastado em direção à saída sob olhares curiosos, alguns divertidos. Sinto a humilhação queimar sob a pele, algo que não experimento há anos. Na porta, um dos seguranças se inclina levemente, perto demais. — Se você voltar a aparecer aqui, a conversa vai ser diferente — murmura. — E não vai envolver palavras. A porta se fecha atrás de mim com força. Fico do lado de fora, a música abafada atravessando as paredes, o ar frio da noite batendo no rosto. Meu braço ainda dói onde fui segurado. Meu orgulho, mais ainda. Encosto a mão no rosto por um segundo e respiro fundo. Aquilo não foi uma conversa. Foi uma explosão. E, pela primeira vez desde que Billy fez o pedido, compreendo algo essencial: isso não vai ser uma missão simples, nem limpa, nem racional. Ruby não quer saber da verdade. Ela vive da ferida. E eu acabei de me tornar, aos olhos dela, mais um inimigo.






