Mundo ficciónIniciar sesiónAcordo com a sensação incômoda de que algo saiu do lugar durante a noite.
Não é ressaca, não é cansaço. É aquele tipo de peso que não se resolve com café forte nem com uma agenda lotada. Abro os olhos devagar e encaro o teto do quarto amplo demais para uma única pessoa. Sempre gostei disso. Espaço. Silêncio. Controle. Hoje, não. Meu olhar desliza até a poltrona perto da janela. A pasta está ali, exatamente onde deixei antes de dormir. Fechada. Inofensiva à primeira vista. Ainda assim, sinto um leve aperto no peito, como se aquele pedaço de papel pardo tivesse adquirido vontade própria durante a madrugada. Levanto-me, caminho até ela e a abro mais uma vez, mesmo sabendo exatamente o que vou encontrar. A foto. Ruby Stewart. Cabelos pretos, pontas roxas, piercings demais, olhar duro demais para alguém tão jovem. Tudo nela grita problema. Complicação. Caos. O tipo de pessoa que entra na sua vida e desmonta a rotina sem pedir licença. — Isso vai ser uma merda… — murmuro para mim mesmo. Fecho a pasta com mais força do que o necessário e a deixo sobre a mesa. A primeira reação é rejeição pura e simples. Isso não é meu mundo. Nunca foi. Eu não lido com adolescentes rebeldes, bandas de garagem ou herdeiras improvisadas. Lido com números, contratos, previsões de mercado e estratégias de longo prazo. Mas então o rosto de Billy invade meus pensamentos. O homem forte reduzido a uma cama de hospital. A voz cansada. O pedido. Ele nunca me pediu nada. Nunca. Tudo o que fez por mim foi espontâneo, firme, silencioso. Ele me criou quando ninguém mais quis. Me ensinou quando eu não sabia nem por onde começar. Me protegeu quando o mundo inteiro teria se aproveitado de um garoto órfão e perdido. E agora, pela primeira vez, ele pediu. Não foi um pedido simples. Não foi um favor pequeno. Foi um legado. Entendo exatamente o que Billy quis dizer, mesmo sem usar essas palavras: faça por ela o que eu fiz por você. Isso me irrita. Porque eu não pedi para ser salvo. Não pedi para ser moldado. Não pedi para carregar a responsabilidade de outra vida nas costas. Mas também sei que negar isso seria cuspir em tudo o que ele construiu — inclusive em mim. Respiro fundo, sigo para o banheiro e deixo a água fria bater no rosto. O reflexo no espelho me encara com a mesma expressão controlada de sempre, mas algo mudou. Há uma tensão nova ali, uma rachadura discreta. Depois do banho, visto um terno escuro, impecável. Escolho a gravata sem pensar muito. Café da manhã rápido — proteína, nada doce. Hábito antigo. Eficiência acima de prazer. Antes de sair, pego a pasta. No carro, o caminho até o campus da Brown University é feito em silêncio. Nenhuma música. Nenhuma ligação. Só eu e pensamentos que insistem em voltar para a mesma imagem: uma garota que não pediu para nascer no meio de uma história mal resolvida. Ao chegar, o ambiente me causa um leve estranhamento. Jovens andando apressados, mochilas jogadas nos ombros, risadas soltas demais para quem ainda não entendeu o peso real do mundo. Lembro vagamente de ter essa idade, mas não me reconheço nela. Abordo um funcionário do campus, apresento-me com educação controlada e pergunto por Ruby Stewart. Ele confere no sistema, olha para o relógio. — Ela está em aula agora. Só sai daqui a algumas horas. Assinto, agradeço e me afasto. Parte de mim fica aliviada. Outra parte, irritada por admitir esse alívio. Decido que voltar mais tarde é a opção mais racional. Não se aborda uma bomba emocional dessas sem preparo. E, honestamente, eu não faço ideia de como falar com alguém como Ruby. Enquanto caminho em direção à saída, uma voz me intercepta. — Você perguntou da Ruby, né? Viro-me. A garota à minha frente parece ter saído de um manifesto ambulante. Cabelo metade raspado, a outra metade tingida de um tom indefinido entre azul e verde. Piercings por todo lugar possível. Olhar curioso, quase provocador. — Perguntei — respondo, seco. Ela estende um panfleto colorido, cheio de logos distorcidos e letras agressivas. — A banda dela vai tocar hoje à noite. Circuito de bandas independentes. — inclina a cabeça, me avaliando. — Você não tem cara de quem frequenta esse tipo de coisa. Não respondo ao comentário. Pego o panfleto e leio rapidamente. O nome da banda salta aos olhos. Ruby está ali, concreta, real, fora daquela foto estática. — Obrigado — digo apenas. Ela dá de ombros. — Boa sorte, cara sério. Volto para o carro com o panfleto dobrado no bolso interno do paletó. Ótimo. Além de tudo, vou ter que vê-la num palco antes de falar com ela. Exposta. Em um ambiente completamente fora do meu controle. Perfeito. O restante do dia na Betelgeuse Technology é o tipo de caos organizado que sempre me trouxe conforto. Reuniões. Relatórios. Apresentações. Cientistas animados demais com seus próprios feitos. Um grupo entra na sala de conferências trazendo o que chamam de novo protótipo revolucionário: um robô doméstico projetado para tarefas caseiras. Limpeza, organização, pequenos reparos. Inteligente, eficiente, previsível. Enquanto eles falam, minha mente faz o que sempre fez melhor: analisa riscos, potencial de mercado, aplicabilidade prática. Faço perguntas técnicas, aponto falhas, sugiro melhorias. Todos anotam, impressionados. Mas algo está errado. Em algum momento, percebo a ironia cruel da situação: passo horas discutindo como criar máquinas capazes de cuidar de casas, enquanto estou prestes a me envolver na vida de uma garota que nunca teve uma casa estável de verdade. Controle. Ordem. Função. Tudo aquilo que sempre acreditei ser suficiente. Quando a reunião termina, recebo elogios, aperto mãos, mantenho a postura impecável. O CEO eficiente. O sócio frio. O homem que tem tudo sob controle. Mas, ao voltar para minha sala, tiro o panfleto do bolso e o coloco sobre a mesa, ao lado da pasta de Billy. Ruby não é um projeto. Não é uma variável. Não é algo que eu possa simplesmente otimizar. Ela é uma consequência. E, goste eu ou não, agora faz parte da equação da minha vida. Olho pela janela mais uma vez, a cidade se estendendo lá embaixo, indiferente como sempre. Pela primeira vez em muitos anos, não sinto alívio nisso. Sinto antecipação. E medo. Porque essa noite, em algum palco barulhento e mal iluminado, vou encarar não só a filha de Billy — mas tudo o que eu evitei sentir desde que aprendi a confundir liberdade com ausência de vínculos. E sei, no fundo, que depois disso… nada vai voltar a ser simples.






