Mundo de ficçãoIniciar sessãoEthan Blackwell nunca quis ser pai. Nunca quis raízes. Nunca quis ficar. Bilionário, poderoso e acostumado a controlar tudo, ele vê sua vida sair do eixo quando se torna responsável por gêmeos recém-nascidos, filhos de uma relação casual que terminou em tragédia. Exausto, perdido e emocionalmente despreparado, Ethan aceita ajuda da pior forma possível: a babá escolhida por sua ficante. Tessa, ou Theresa, como só os documentos insistem em lembrar, odeia homens como ele. Ricos demais, seguros demais, intocados demais pelas consequências dos próprios erros. Ela aceita o emprego por necessidade, não por admiração. E deixa isso claro desde o primeiro dia. O problema é que os bebês se acalmam com ela. A casa passa a respirar com ela. E Ethan percebe que não pode simplesmente mandá-la embora. Entre madrugadas sem dormir, mamadeiras às três da manhã e discussões sussurradas no corredor, Tessa ensina Ethan a cuidar dos filhos que ele nunca quis. Ethan, contra a própria vontade, começa a confiar. Depois, a sentir. E, por fim, a se apaixonar primeiro — e sozinho. Quando a ficante força uma escolha e os sentimentos vêm à tona, Tessa faz o que sempre fez para sobreviver: vai embora antes de se perder de vez. Agora Ethan precisa decidir se continuará sendo o homem que foge… ou se ficará para lutar pela única coisa que nunca planejou ter: uma família. Porque algumas mulheres não entram na sua vida para ficar. Entram para ensinar você a ficar.
Ler maisO telefone tocou no meio de uma reunião inútil.
Daquelas em que todos fingem importância enquanto repetem o que já foi decidido antes do café.Ignorei a primeira vez. Ignorei a segunda.
Na terceira, senti aquele incômodo seco no estômago. Intuição não é coisa que eu leve a sério, mas ela sabe ser inconveniente.— Cinco minutos — avisei, já de pé.
Saí da sala de vidro com vista para uma cidade que sempre pareceu obediente demais. Atendi.
— Nate Blackwell? — perguntou uma voz feminina, profissional, treinada para não se envolver.
Confirmei.
— Falo do Hospital St. Mary. Precisamos que o senhor venha imediatamente.
Não disseram o motivo. Nunca dizem. Quando dizem, já é tarde.
O hospital cheira a desinfetante e derrota. Não importa quanto dinheiro você tenha, ali todo mundo anda do mesmo jeito: rápido, tenso, tentando não pensar no pior.
Fui levado a uma sala pequena. Cadeiras duras. Luz branca demais.
Uma médica entrou com um tablet nas mãos. Tinha olhos cansados.— O senhor conhecia Livia Hart?
O nome bateu antes do rosto. Livia.
A mulher que eu via quando tinha tempo. Quando queria silêncio sem compromisso. Quando não queria pensar no dia seguinte.— Sim — respondi, seco.
Ela respirou fundo. Um gesto ensaiado.
— Livia sofreu complicações graves durante o parto. Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance.
Tudo o que estava ao alcance.
Essa frase sempre significa a mesma coisa.— Ela morreu às 2h17 da manhã.
O mundo não parou. O que foi pior.
O ar continuou entrando nos pulmões, o coração continuou batendo, e eu continuei ali, em pé, como se tivesse acabado de ouvir algo distante demais para doer.— Parto? — perguntei.
A médica me olhou por um segundo a mais do que o necessário.
— Livia estava grávida de gêmeos.
Eles nasceram prematuros, mas estão vivos.Gêmeos.
A palavra ficou flutuando entre nós, sem pressa, sem misericórdia.
— O senhor é o pai.
Não houve revelação cinematográfica.
Nenhuma memória passando em câmera lenta. Nenhuma epifania.Só um cálculo imediato, frio e automático: isso não estava nos meus planos.
— Deve haver um engano — falei. Não como negação emocional. Como constatação lógica.
Ela deslizou o tablet para mim. Datas. Exames. Números.
Evidências não costumam mentir.— Livia indicou o senhor como pai e temos confirmação laboratorial.
Assinei papéis que não li. Concordei com coisas que não entendi.
Minha assinatura sempre resolveu problemas. Eu ainda acreditava nisso.Vi os bebês pela primeira vez através de um vidro.
Dois corpos pequenos demais, ligados a fios demais. Respirando com ajuda. Vivendo por teimosia.Não senti amor.
Senti pânico.Não era culpa deles. Era minha.
Porque eu não fazia ideia do que vinha agora.— Eles precisam de um responsável legal — disse a assistente social, com a mesma naturalidade de quem pede um documento.
Responsável legal.
Não pai. Responsável.— E a família dela? — perguntei.
— Não há contato próximo. A guarda recai sobre o senhor.
Recai.
Como se fosse um objeto esquecido numa mesa cara demais para parecer real.A primeira pessoa que liguei não foi um advogado.
Foi Bianca.Bianca era prática. Bonita. Organizada.
Bianca gostava de mim do jeito certo: sem exigir futuro.— Nate? — ela atendeu animada. — Você sumiu hoje.
— Preciso que venha ao hospital.
Houve uma pausa.
— Aconteceu alguma coisa?
— Sim.
Nunca gostei de explicar tragédias por telefone.
Prefiro a cara das pessoas quando percebem que algo mudou e não tem como devolver.Ela chegou vinte minutos depois. Salto alto. Casaco caro. Olhar curioso.
Contei tudo em frases curtas.
Morte. Bebês. Gêmeos. Meu nome no meio disso.Bianca piscou algumas vezes. Processando.
— Isso… é sério? — perguntou.
— Mortalmente.
Ela cruzou os braços.
— E o que você vai fazer?
Era a pergunta errada.
Porque eu não fazia ideia.— Vou resolver — respondi. Reflexo condicionado.
Ela olhou para o vidro, para os bebês, para os fios.
— Eu não sei lidar com isso — disse, finalmente honesta. — Criança, hospital, responsabilidade… Não é pra mim.
Agradeci mentalmente pela clareza.
Preferia rejeição limpa a falsa promessa.— Você não precisa lidar — falei.
Ela assentiu, aliviada demais.
— Posso ajudar com outra coisa. Contratar alguém. Uma babá, talvez. Alguém que entenda disso.
Babá.
A palavra soou distante. Técnica. Controlável.— Faça isso — concordei.
Ela sorriu, já recuperando o equilíbrio.
— Vou escolher alguém competente. Discreta. Temporária.
Temporária.
Essa palavra eu gostei.Horas depois, sozinho no corredor, percebi algo simples e aterrador:
Livia estava morta. E eu tinha dois filhos que nunca pedi.Não havia romance nisso.
Nem destino. Nem redenção instantânea.Só uma realidade crua me encarando sem piscar.
E pela primeira vez em muito tempo, nenhum dinheiro do mundo parecia suficiente para me tirar dali.
Eu não sabia ainda, mas aquele não era o dia em que virei pai.
Era o dia em que perdi o controle da minha própria vida.E ela nunca mais seria a mesma.
Eu precisava fugir antes que a realidade se acomodasse demais.O carro deslizou pela garagem silenciosa, e por um segundo eu quase pedi para o motorista parar. Quase. Ainda dava para voltar, ainda dava para fingir que aquela manhã não tinha acontecido do jeito que aconteceu.Mas aconteceu.E ficou grudada em mim como cheiro de leite morno e fracasso recente.Tessa estava na sala quando eu desci, já com os cabelos presos de qualquer jeito e a postura de quem não pede licença para ocupar espaço. Não tinha começado a “trabalhar”. Não oficialmente. Ainda assim, a casa parecia diferente. Menos barulho. Mais lugar habitável.Ela segurava um dos bebês com naturalidade irritante. Não havia tensão no corpo dela. Não havia aquele cuidado exagerado de quem tem medo de errar. Havia firmeza. Segurança. A confiança de quem já fez aquilo antes, muitas vezes, sem plateia e sem opção de falhar.Eu observei da escada. Em silêncio. Como um intruso na própria casa.O outro bebê estava no berço, acordado
Capítulo 4TessaDesliguei o telefone e fiquei olhando para a parede como se ela fosse me dar uma resposta melhor do que a minha própria consciência.Sete da manhã.Olheiras invisíveis.Café ainda não feito.E um bilionário acabado de implorar do outro lado da linha.Isso devia ter sido suficiente para eu rir, virar para o lado e dormir mais uma hora. Devia. Mas não foi.Porque a voz dele não tinha arrogância. Não tinha pressa. Não tinha cálculo.Tinha medo.E eu reconheço medo verdadeiro a quilômetros de distância. Ele tem um som específico. Não grita. Não posa. Não negocia.Levantei da cama com raiva. Dele. De mim. Da vida que sempre me empurra para o papel que ninguém mais quer desempenhar.Minha mãe estava sentada à mesa da cozinha quando entrei. Café ralo. Pão amanhecido. Realidade conhecida.— Acordou cedo — ela comentou.— Nem dormi — respondi.Ela me olhou do jeito que só mães cansadas olham. Como quem já entendeu tudo sem precisar ouvir.— Trabalho?— Possível trabalho.Ela a
Às duas da manhã, o silêncio da casa não era silêncio.Era uma coisa viva, pulsando entre um choro e outro, esperando o próximo erro.Eu estava sentado no chão do quarto que ainda cheirava a tinta nova, com um gêmeo no colo e o outro berrando no berço como se tivesse sido traído pela própria existência. Nunca pensei que alguém pudesse ficar roxo de tanto chorar. Descobri que pode.— Tá tudo bem — murmurei, sem acreditar em uma única sílaba.O bebê no meu colo soluçava, o corpo pequeno estremecendo contra o meu peito rígido demais para ser confortável. Eu não sabia como segurar. Tinha visto vídeos. Lido artigos. Nada disso prepara você para o peso real de um ser humano que depende de você para tudo. Até para respirar direito.O outro chorava mais alto. Sempre mais alto. Como se tivesse entendido que volume era poder.Levantei com cuidado, tropecei no tapete caro demais para estar ali e quase deixei o bebê cair. Meu coração disparou como se eu tivesse cometido um crime.— Desculpa — fal
Meu pai morreu numa terça-feira comum.Isso é a parte que mais irrita. Não foi trágico o suficiente para virar história. Foi só… definitivo.Um infarto fulminante às seis da manhã, enquanto ele amarrava o cadarço do tênis velho para ir trabalhar. Caiu no chão da cozinha, derrubou a cadeira, acordou a casa inteira com o barulho seco de um corpo que não levantaria mais.Minha mãe chorou por três dias seguidos.E meus irmãos, pequenos demais para entender, só perguntavam quando o pai ia voltar.Ele não voltou.E alguém teve que assumir.Esse alguém fui eu.A gente aprende cedo quando nasce em família humilde: não existe espaço para fragilidade. Ou você funciona, ou tudo desmorona.Comecei a trabalhar em dois empregos.Cuidei de criança que não era minha enquanto meus irmãos cresciam grudados nas minhas pernas.Troquei fralda antes de poder errar como jovem.Troquei sonhos por contas.E ricos…Ricos sempre passaram por nós como se a gente fosse paisagem.Meu pai trabalhou a vida inteira p
O telefone tocou no meio de uma reunião inútil.Daquelas em que todos fingem importância enquanto repetem o que já foi decidido antes do café.Ignorei a primeira vez. Ignorei a segunda.Na terceira, senti aquele incômodo seco no estômago. Intuição não é coisa que eu leve a sério, mas ela sabe ser inconveniente.— Cinco minutos — avisei, já de pé.Saí da sala de vidro com vista para uma cidade que sempre pareceu obediente demais. Atendi.— Nate Blackwell? — perguntou uma voz feminina, profissional, treinada para não se envolver.Confirmei.— Falo do Hospital St. Mary. Precisamos que o senhor venha imediatamente.Não disseram o motivo. Nunca dizem. Quando dizem, já é tarde.O hospital cheira a desinfetante e derrota. Não importa quanto dinheiro você tenha, ali todo mundo anda do mesmo jeito: rápido, tenso, tentando não pensar no pior.Fui levado a uma sala pequena. Cadeiras duras. Luz branca demais.Uma médica entrou com um tablet nas mãos. Tinha olhos cansados.— O senhor conhecia Livi





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