CAPÍTULO 3 - Nate

Às duas da manhã, o silêncio da casa não era silêncio.

Era uma coisa viva, pulsando entre um choro e outro, esperando o próximo erro.

Eu estava sentado no chão do quarto que ainda cheirava a tinta nova, com um gêmeo no colo e o outro berrando no berço como se tivesse sido traído pela própria existência. Nunca pensei que alguém pudesse ficar roxo de tanto chorar. Descobri que pode.

— Tá tudo bem — murmurei, sem acreditar em uma única sílaba.

O bebê no meu colo soluçava, o corpo pequeno estremecendo contra o meu peito rígido demais para ser confortável. Eu não sabia como segurar. Tinha visto vídeos. Lido artigos. Nada disso prepara você para o peso real de um ser humano que depende de você para tudo. Até para respirar direito.

O outro chorava mais alto. Sempre mais alto. Como se tivesse entendido que volume era poder.

Levantei com cuidado, tropecei no tapete caro demais para estar ali e quase deixei o bebê cair. Meu coração disparou como se eu tivesse cometido um crime.

— Desculpa — falei, para ninguém e para todo mundo.

Não era assim que eu funcionava.

Minha vida inteira foi baseada em controle. Planilhas. Previsão. Estratégia.

E agora eu estava ali, de camisa amassada, olhos ardendo, tentando decifrar o código primitivo de dois recém-nascidos que não davam a mínima para o meu patrimônio líquido.

Coloquei o primeiro no berço, com uma delicadeza que beirava o pânico, e peguei o outro. O choro mudou de tom. Não parou. Mas mudou. Como se ele estivesse avaliando se valia a pena continuar.

— Isso não é negociação — avisei, exausto. — Eu não negocio sob pressão.

Ele respondeu com um som agudo, indignado.

Negociava, sim. E eu estava perdendo.

A mamadeira estava morna demais. Depois fria demais. Depois eu não sabia mais. Troquei a fralda errada. Coloquei a roupa ao contrário. Fiz tudo como um idiota bem-intencionado.

Às três da manhã, eu já tinha desistido da dignidade.

Sentei no chão outra vez, costas na parede, um bebê em cada braço, os dois chorando em ritmos diferentes, como uma trilha sonora criada para enlouquecer pais inexperientes.

Foi aí que pensei nela.

Não de um jeito poético.

De um jeito prático. Desesperado.

Tessa.

A mulher que me olhou como se eu fosse parte do problema mundial.

Que não abaixou a cabeça.

Que não tentou me agradar.

A mulher que disse, com todas as letras, que dinheiro não cria filhos.

— Droga — murmurei.

Um dos bebês parou de chorar por três segundos. Me encarou com olhos escuros demais para alguém tão pequeno. Depois voltou a chorar com ainda mais convicção.

— Não foi com você — garanti. — Foi comigo.

Às quatro, a casa inteira parecia conspirar contra mim. O relógio fazia barulho demais. O ar-condicionado estava forte demais. O silêncio entre os choros era curto demais.

Eu pensei em Bianca.

Na ideia de que ela tinha “resolvido” isso escolhendo alguém por mim.

Pela primeira vez, não senti raiva. Senti inveja.

Ela teve a opção de ir embora.

Eu não.

Às cinco, quando finalmente os dois adormeceram ao mesmo tempo, eu não me mexi. Fiquei ali, sentado no chão, com medo de respirar alto demais e desfazer o milagre.

Meu corpo doía em lugares que academia nenhuma tinha me apresentado. Meus olhos queimavam. Minha cabeça latejava.

E, no meio daquele caos silencioso, uma certeza se formou com uma clareza irritante:

Eu não conseguia fazer isso sozinho.

Não por orgulho ferido.

Por sobrevivência.

Tessa tinha razão. Eu ia estragar alguma coisa.

A diferença era se alguém estaria ali para impedir o pior.

Quando o sol começou a clarear a janela, eu já tinha tomado a decisão que sempre evitei na vida: pedir.

Não negociar.

Não contratar.

Pedir.


Peguei o celular às seis e quarenta e sete da manhã.

O horário exato em que pessoas responsáveis começam o dia. Ou pelo menos fingem.

O nome dela estava ali. Seco. Direto.

Sem emojis. Sem sobrenome.

Meu dedo pairou sobre a tela por tempo demais para um homem que fecha acordos milionários em minutos.

Ela ia dizer não.

Eu sabia.

E, mesmo assim, liguei.

Chamou três vezes.

— Alô — a voz dela veio rouca, sono ainda agarrado às sílabas. — Aconteceu alguma coisa?

Não “quem é”.

Não “por que está ligando”.

Direta ao ponto.

— Sou eu — disse. — Nate.

Silêncio. Curto. Avaliador.

— São sete da manhã.

— Eu sei.

— Algum dos bebês morreu? — perguntou, sem drama.

Engoli seco.

— Não.

— Então pode esperar.

— Não pode — respondi, rápido demais. — Eu não posso.

Ouvi um suspiro longo. O tipo de suspiro que vem de alguém que já cedeu antes mesmo de admitir.

— Fale.

Fechei os olhos.

— Eu passei a madrugada inteira acordado. — comecei. — Eles choraram. Eu errei. Troquei coisa errada. Esquentei coisa errada. Quase deixei um cair.

Ela não interrompeu. Isso foi pior.

— Eu achei que dava conta — continuei. — Achei que era só organização. Agenda. Contratar as pessoas certas.

— E não é — ela disse, simples.

— Não. — concordei. — Não é.

Houve uma pausa. Longa o suficiente para eu ouvir minha própria respiração cansada.

— O que você quer de mim, Nate?

A pergunta veio sem suavidade. Sem promessa.

— Quero que aceite o trabalho.

— Não — ela respondeu imediatamente.

Era esperado. Mesmo assim, doeu.

— Quero que venha hoje. — corrigi. — Para conversar de novo. Sem contrato. Sem Bianca. Sem discurso.

— Você não escuta bem quando ouve não?

— Escuto — falei. — Só não sei aceitar quando a alternativa é pior.

— E qual é a alternativa?

Olhei para o quarto. Para os dois berços. Para dois corpos pequenos que respiravam sem saber o tamanho do problema que eram.

— Eu sozinho — respondi. — E isso não é justo com eles.

Silêncio.

— Você não é o primeiro homem rico a descobrir que dinheiro não cria filho — ela disse.

— Eu sei. — minha voz falhou pela primeira vez. — Mas talvez eu seja o primeiro a admitir isso antes de estragar tudo de vez.

Ela ficou quieta.

Eu também.

— Eu não prometo nada — ela disse, por fim.

— Eu não estou pedindo promessa.

— Estou falando sério.

— Eu também.

Outro suspiro. Diferente do anterior. Menos defensivo.

— Eu vou — ela disse. — Para conversar. Só isso.

Meu peito afrouxou de um jeito perigoso.

— Obrigado.

— Não agradeça — respondeu. — Ainda posso ir embora.

— Eu sei.

— E se eu for, você vai ter que lidar.

— Eu vou.

Ela desligou sem despedida.

Fiquei olhando para o celular como se ele tivesse acabado de mudar a trajetória da minha vida. O que, talvez, tivesse mesmo.

Voltei ao quarto dos bebês. Eles dormiam, alheios ao fato de que um estranho tinha acabado de implorar por ajuda.

Sentei na poltrona, cansado demais para qualquer outra coisa.

Eu não sabia se Tessa ficaria.

Não sabia se gostava de mim. Provavelmente não.

Não sabia se eu merecia ajuda.

Mas, pela primeira vez desde aquela ligação do hospital, eu não me sentia completamente sozinho no desastre.

E isso, descobri naquela manhã, já era muito mais do que eu achava que teria.

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