Mundo de ficçãoIniciar sessãoDesde o instante em que Enzo Ravelli a viu, Lara Ventura deixou de pertencer a si mesma. Cercada por uma família que a tratava como moeda de troca, mãe manipuladora, irmão disposto a vendê-la e dívidas de sangue com os Ortega, ela encontrou no bilionário implacável tanto salvação quanto prisão. Enzo jurou destruir todos que a ameaçavam. Porém, sua noiva, Camila, não está disposta a perdê-lo sem lutar sujo. Entre beijos possessivos e segredos que sangram, Lara descobre que nem todo sangue é família... e que o amor de um homem perigoso pode ser sua única chance de sobrevivência. Porque quando Enzo decide que uma mulher é dele, ele não protege. Ele devora.
Ler maisCada passo sobre o mármore negro do saguão do Edifício Ravelli custava a Lara Ventura um esforço imenso. Os saltos baixos que usava eram o único par apresentável que lhe restava, mas pareciam feitos de chumbo. O tailleur cinza, comprado em uma brechó três anos antes, estava limpo e bem passado — ainda assim, gritava pobreza naquele lugar onde até o ar cheirava a dinheiro velho e poder absoluto.
Ela apertava a alça da bolsa contra o peito como se fosse um escudo. Mais uma entrevista. Mais uma chance de não voltar para casa de mãos vazias. Em casa, a mãe certamente andava de um lado para o outro na sala apertada, fumando um cigarro atrás do outro, enquanto Mateus... Mateus provavelmente ainda dormia ou planejava novos golpes.
O elevador chegou. Lara entrou junto com outras candidatas, todas vestidas com roupas que deviam custar mais do que seu aluguel mensal. Uma delas olhou de cima a baixo para seu tailleur. Lara ergueu o queixo, fingindo não notar, mas o rubor subiu pelo seu pescoço mesmo assim.
Eles não sabem, pensou. Não sabem que vendi o colar da vovó para pagar a conta de luz. Não sabem que minha mãe finge crises cardíacas para me manipular. Não sabem que meu irmão me ameaçou de novo ontem.
A mensagem de Mateus ainda queimava em sua memória:
“Mãe falou que se você não arrumar dinheiro hoje, vamos te vender pros Ortega.”
Lara fechou os olhos por um segundo. O nome Ortega bastava para lhe causar náuseas.
No vigésimo terceiro andar, a sala de espera era um monumento ao luxo: sofás de couro italiano, obras de arte originais e uma parede de vidro com vista para toda São Paulo. Oito candidatas já esperavam, todas com currículos impecáveis e sorrisos treinados. Lara sentou-se no canto mais afastado, cruzando as pernas com cuidado para esconder o pequeno descosturado na barra da saia.
Foi então que sentiu.
Um olhar.
Pesado. Intenso. Quase violento.
Lentamente, ergueu a cabeça.
Enzo Ravelli estava parado no corredor, conversando com uma mulher mais velha, mas seus olhos — negros, afiados, sem piedade — estavam cravados nela. Não era um olhar casual. Era um olhar que despia, que avaliava, que reivindicava.
Lara sentiu o ar escapar dos pulmões. O coração disparou com tanta força que ela temeu que ele pudesse ouvir do outro lado da sala. Havia algo de primal naquela forma como ele a observava. Como se já a conhecesse. Como se já tivesse decidido algo sobre ela.
“Quem é você?” pensou, desviando o olhar rapidamente.
A voz da assistente soou:
— Lara Ventura?
Ela se levantou depressa, alisando a saia com as mãos úmidas. Ao passar pelo corredor, sentiu o peso daquele olhar acompanhando cada movimento seu. Enzo não disfarçou. Continuou de braços cruzados, seguindo-a com os olhos como um predador que acabara de encontrar a presa.
Quando Lara passou por ele, ousou erguer o rosto por um breve instante.
O impacto foi brutal.
Alto, de ombros largos e postura dominante, Enzo Ravelli vestia um terno preto feito sob medida que não conseguia esconder a musculatura por baixo. O maxilar era anguloso, os traços duros, quase cruéis. Mas foram os olhos que a prenderam. Escuros como breu e, ao mesmo tempo, queimando.
Ele não sorriu. Apenas inclinou a cabeça de leve, como se confirmasse para si mesmo algo que só ele entendia.
Lara entrou na sala de entrevistas com as pernas trêmulas.
As perguntas da assistente eram previsíveis. Ela respondeu no automático, a mente ainda presa no homem do corredor. Dez minutos depois, a porta se abriu sem aviso.
Enzo Ravelli entrou.
O ar na sala pareceu rarear. Ele ocupou o espaço como se o mundo inteiro lhe pertencesse — e, de certa forma, pertencia. Sentou-se na cadeira principal, do outro lado da mesa, e cruzou as mãos sobre o tampo de vidro. Seus olhos voltaram a se fixar em Lara com a mesma intensidade sufocante.
— Deixe-nos a sós — ordenou à assistente, sem desviar o olhar.
Quando ficaram sozinhos, o silêncio caiu como uma sentença.
— Você está exausta — disse ele por fim, a voz grave e baixa. — Dá para ver nos seus ombros. No jeito como segura essa bolsa como se fosse a única coisa que ainda te mantém de pé.
Lara sentiu a garganta fechar. Não era uma pergunta.
Enzo inclinou-se ligeiramente para frente, os olhos perfurando os dela.
— Sua família está te matando aos poucos, Lara. E você ainda tenta salvá-los. Por quê?
Ela abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Ninguém nunca havia falado com ela de forma tão direta. Ninguém nunca havia visto tão fundo.
— Porque são minha família — respondeu por fim, a voz rouca. — Não tenho mais ninguém.
Algo mudou no olhar dele. Por uma fração de segundo, a máscara fria rachou e Lara vislumbrou algo perigoso por trás dela. Algo parecido com dor. Ou possessão.
Enzo se levantou. Caminhou até a porta, abriu-a e chamou a assistente.
— Demita a secretária atual. Contrate a senhorita Ventura. Salário inicial será o triplo do anunciado. Ela começa amanhã.
Lara ficou paralisada.
Quando Enzo voltou para dentro e fechou a porta, parou diante dela. De perto, era ainda mais intimidante. Ele estendeu uma pasta preta.
— Leia com atenção. Mas saiba de uma coisa — disse, a voz baixa e carregada de uma promessa sombria: — Você não vai mais carregar o peso dessa família sozinha.
Lara pegou a pasta com as mãos trêmulas. Seus olhos se ergueram e encontraram os dele mais uma vez. Havia algo solene e definitivo naquele olhar.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, seu celular vibrou dentro da bolsa. Com o coração na garganta, ela leu a mensagem.
Era de Mateus.
“Mãe falou sério. Se não tiver dinheiro até hoje à noite, vamos te entregar pros Ortega.”
O sangue de Lara gelou.
Quando ergueu os olhos novamente, Enzo a observava com o cenho franzido, como se pudesse sentir que algo estava terrivelmente errado.
— O que foi? —ele perguntou, inclinando o corpo para frente.
Lara apertou o celular contra o peito como se pudesse esconder o veneno que acabara de entrar em seu sangue. O ar pareceu ficar mais denso, mais quente. Ela tentou disfarçar, tentou respirar, mas era tarde.
Enzo Ravelli não era homem que deixava passar detalhes.
Num movimento fluido, ele contornou a mesa e parou diante dela. Tão perto que Lara podia sentir o calor que emanava de seu corpo.
— Me dê o celular.
Não era um pedido, mas sim, uma ordem dita em tom baixo que não admitia desobediência. Com os dedos trêmulos, Lara entregou o aparelho. Enzo leu a mensagem. Uma, Duas vezes. Seu maxilar travou com força que fez com que seus dentes rangerem.
Um arrepio desceu pela coluna de Lara não foi de medo, ela não soube discernir o que era exatamente, mas tinha a certeza de ser algo doentio. Porque quando Enzo ergueu os olhos do celular, o homem que a encarava não era mais apenas o bilionário frio que a havia contratado. Era um predador que acabara de descobrir que alguém queria roubar sua presa.
— Ortega… — ele murmurou, como se o nome fosse uma blasfêmia. Sua voz saiu grave, quase um rosnado contido. — Eles ousaram colocar seu nome na boca deles.
Lara sentiu os joelhos fraquejarem.
Enzo deu mais um passo. Agora não havia mais espaço entre eles. Com o polegar, ele ergueu seu queixo com uma delicadeza perigosa, a obrigando a encará-lo. Seus olhos negros pareciam queimar cada camada de proteção que ela ainda tentava manter.
— Escute com atenção, Lara Ventura — disse ele, com a voz baixa. — A partir de hoje, você não tem mais família. Tem a mim. E eu não compartilho o que é meu.
O polegar dele deslizou lentamente pelo contorno de seu lábio inferior, um toque possessivo que contradizia a frieza de sua expressão.
— Sua mãe, seu irmão… eles vão aprender, da pior forma possível, o que acontece quando se ameaça o que me pertence.
Lara abriu a boca, mas não saiu som algum. Seu coração batia tão forte que ela tinha certeza de que ele conseguia sentir.
Enzo se inclinou até que seus lábios quase roçassem o lóbulo de sua orelha, a voz reduzida a um sussurro:
— Bem-vinda à Ravelli, princesa. Reze para que eu seja o monstro menos cruel entre todos que te querem.
Ele se afastou apenas o suficiente para que ela visse o sorriso que curvou lentamente seus lábios, um sorriso bonito e absolutamente aterrorizante.
O celular vibrou novamente na mão dele e dessa vez, Enzo atendeu sem pedir permissão. Colocando no viva-voz logo em seguida.
A voz de Mateus soou do outro lado, agressiva:
— Então, vadia? Já arrumou o dinheiro ou vamos te entregar pro Ortega hoje à noite?
Enzo olhou diretamente nos olhos de Lara enquanto respondia, a voz calma.
— Diga aos Ortega que o produto deles agora tem novo dono e que se tentarem tocar no que é meu… eu termino o que meu pai começou anos atrás.
O silêncio do outro lado da linha foi ensurdecedor. Ele encerrou a chamada e devolveu o celular para Lara como se nada tivesse acontecido. Seus olhos, porém, carregavam uma promessa sombria e irrevogável.
— Amanhã você se muda para o meu apartamento. Esta noite… você dorme na minha cobertura.
Ele inclinou a cabeça, observando o tremor que ela não conseguia mais esconder.
— E antes que pergunte… não. Você não tem escolha, Lara.
Pela primeira vez em anos, alguém havia prometido protegê-la. O problema era que o homem que acabara de declarar guerra por ela não parecia um salvador. Ele parecia o próprio demônio que acabara de comprar sua alma e que pretendia cobrá-la com juros muito altos.
Capítulo 4A viagem para Buenos Aires foi o ponto de ruptura. O jato corporativo da Montoya decolou às 22h. Durante o voo, eles revisaram a apresentação sentados lado a lado. O braço dele roçava no dela constantemente. Em determinado momento, Helena deixou a mão cair sobre a coxa dele sem querer.Sentiu o músculo tenso sob o tecido da calça. Alexander ficou imóvel. Ela não retirou a mão. Quando chegaram ao hotel Four Seasons em Puerto Madero, o desastre os esperava.— Houve um erro na reserva, Señor Montoya — disse o gerente, visivelmente nervoso. — A suíte presidencial que reservamos com dois quartos foi ocupada por engano por outro hóspede VIP. Só temos disponível a suíte master… com uma cama king size.Alexander ficou em silêncio por três segundos.— Vamos aceitar — disse finalmente, a voz controlada. — Não temos outra opção a esta hora.Helena sentiu o estômago dar um salto.O elevador subiu em silêncio. Quando entraram na suíte, o luxo era absurdo: vista para o rio, jacuzzi na va
Capítulo 3Uma grande campanha internacional para o lançamento simultâneo da nova linha de relógios de luxo da Montoya Enterprises na Europa, Ásia e América Latina transformou os dias seguintes em uma maratona de trabalho sem fim. Alexander decidiu que a campanha seria liderada diretamente por ele e Helena — sem intermediários. Isso significava noites inteiras trancados na sala de reuniões do último andar, com a cidade de São Paulo brilhando lá embaixo como um tapete de luzes frias.Eram quase duas da manhã de uma terça-feira quando Helena tirou os sapatos de salto alto e massageou os pés doloridos. A mesa estava coberta de mood boards, relatórios de mercado, projeções financeiras e taças de vinho tinto pela metade. Alexander estava sem paletó, com a camisa social branca aberta nos três primeiros botões, revelando o peito bronzeado e o início de um abdômen definido. Ele andava de um lado para o outro, passando a mão pelos cabelos pretos ondulados.— Esse conceito ainda está fraco — di
Capítulo 2O primeiro dia de Helena foi um verdadeiro campo de batalha.Às 7h15 ela já estava na mesa que haviam designado — um espaço de vidro e aço a apenas dez metros do escritório dele. Às 7h40, o primeiro e-mail de Alexander chegou:Assunto: Revisão imediata da campanha “Essência 2026”Preciso de três novas direções criativas até as 10h. Não me traga mediocridade.Helena trabalhou como uma possessa. Às 9h47 enviou três propostas completamente diferentes, cada uma melhor que a anterior. Às 10h12 ele a chamou pela primeira vez.— Entre.Alexander estava sem paletó. A camisa social branca colada ao corpo revelava ombros largos, peito definido e braços musculosos. As mangas estavam dobradas até os antebraços, exibindo veias salientes e pele bronzeada.Ele jogou os três conceitos na mesa.— O segundo é bom. Os outros dois são fracos. Refaça. Quero algo que me faça querer foder a marca.As palavras foram ditas com tanta naturalidade que Helena sentiu o rosto esquentar. Ele percebeu.Um
Contrato de DesejoCapítulo 1O elevador panorâmico de vidro subia em velocidade constante pela fachada reluzente da Montoya Tower, o arranha-céu mais imponente da Avenida Berrini. Lá embaixo, São Paulo se estendia como um tapete infinito de luzes, concreto, helicópteros cortando o céu cinzento e o som abafado do trânsito que nunca dormia. Helena Duarte mantinha as mãos firmes sobre a pasta de couro envelhecido que pertencera à mãe, o coração batendo com força contra as costelas.Ela tinha vinte e oito anos, era formada em Publicidade pela USP com pós-graduação na FGV e já havia construído uma carreira respeitável em agências menores. Mas este momento era diferente. Trabalhar diretamente com Alexander Montoya não era apenas um emprego. Era um salto para outro patamar — ou uma queda livre que poderia destruí-la.Helena ajustou o tailleur preto Tom Ford que havia comprado especialmente para aquela entrevista. O tecido era caro o suficiente para transmitir competência, mas não tão chamat










Último capítulo