Mundo de ficçãoIniciar sessãoSe alguém tivesse me avisado que aceitar um emprego misterioso sem perguntar o nome do contratante poderia arruinar minha pressão arterial antes das nove da manhã, eu teria… feito exatamente a mesma coisa.
Porque boletos não dão espaço para dignidade. Eu estava parada na frente do portão. Não portão. Portão é o que a gente tem em casa, com tinta descascando e um cachorro do vizinho que late para absolutamente tudo, inclusive para folhas. Aquilo ali era… outra categoria. Alto. Imponente. Automatizado. Do tipo que abre sozinho quando você chega perto, como se soubesse que você não pertence ali, mas ainda assim decidisse te julgar em silêncio antes de permitir a entrada. — Ótimo — murmurei, ajustando a alça da bolsa no ombro. — Perfeito. Adoro começar o dia me sentindo pobre. Respirei fundo. — Você precisa disso, Tessa — falei comigo mesma. — Dinheiro. Faculdade. Comida. Ordem natural da sobrevivência. O portão abriu. Claro que abriu. Eu entrei. A casa — não, mansão, vamos ser honestos — era ridiculamente grande. Vidros enormes, jardim impecável, tudo alinhado como se alguém tivesse passado horas ajustando cada detalhe milimetricamente. Eu já odiei. Não a casa. O tipo de pessoa que mora nela.. Gente que acha que dinheiro substitui humanidade. Gente que.. — Foco, Tessa — sussurrei. — Você veio trabalhar, não julgar arquitetura. Caminhei até a porta principal, sentindo o peso de cada passo. Bati. Uma vez. Duas. Nada. — Excelente. Já começou profissional. Toquei a campainha. Um som discreto, elegante, caro. Esperei. E então... Um som. Baixo no começo. Depois mais alto. E então... Choro. Um. Depois outro. Eu congelei por um segundo. E nenhum adulto atendendo a porta. O choro aumentou, aquele tipo de choro que não é manha. É necessidade. Urgência. Eu bati mais forte. — Oi ?! Tem alguém aí?! Nada. O choro continuou. Eu olhei ao redor. Porta trancada. Janelas fechadas. — Tá de brincadeira comigo. Mais choro. Eu não pensei muito, girei a maçaneta. Aberta. Claro que estava aberta. — Segurança nível milionário — murmurei, entrando. — Porta aberta, bebês chorando, ninguém por perto. Perfeito. Segui o som, sem hesitar. Porque existem coisas que você não ignora. E criança chorando assim… não é uma delas. Subi a escada quase correndo, guiada pelo barulho. — Calma, calma, eu tô indo — falei, como se eles pudessem entender. O quarto estava aberto e lá estavam. Dois berços. Dois bebês. Dois pulmões extremamente eficientes. — Meu Deus — sussurrei, indo direto até eles. Um estava vermelho, agitado, se mexendo como se o mundo estivesse acabando. O outro parecia mais contido, mas não menos desesperado. — Oi… oi… calma — falei, já pegando o mais próximo. Ele se encaixou no meu colo de um jeito automático. Como se fosse a coisa mais natural do mundo. Eu balancei. — Shhh… já passou, já passou… O choro diminuiu um pouco. O outro aumentou. — Espera aí, eu não tenho quatro braços — murmurei. Coloquei o primeiro com cuidado apoiado no meu ombro e peguei o segundo. Agora com dois. — Pronto. Está tudo bem. Balancei os dois. O choro foi diminuindo. Até virar só… resmungo. Eu sorri. — Viu só? Eu resolvi. — Você invadiu a minha casa. A voz veio atrás de mim. Grave. Fria. Familiar. Muito familiar. Meu corpo congelou antes mesmo de eu virar. Devagar. Muito devagar. Eu virei. E o mundo fez aquele movimento irritante de “claro que era isso”. Nate Blackwell. Parado na porta. Impecável. Irritante. Exatamente como eu lembrava. Meu cérebro levou meio segundo para processar. Meu corpo levou zero. — VOCÊ?! Um dos bebês se mexeu com o aumento do volume. — Ótimo, ótimo — murmurei, tentando acalmar de novo. — Perfeito timing. Ele me encarava. — O que você está fazendo aqui? — ele perguntou, como se EU fosse o problema. Aquilo foi o suficiente. — O que EU estou fazendo aqui?! — repeti, incrédula. — O que VOCÊ está fazendo aqui?! — Essa é a minha casa. Eu olhei ao redor, depois para ele, depois para os bebês no meu colo. E então.. As peças se encaixaram. Devagar. Cruelmente. — Não — falei, balançando a cabeça. — Não, não, não. Ele não disse nada. — NÃO ME DIZ QUE... — São meus. Silêncio. Um segundo. Dois. Três. E então eu fiz a única coisa lógica possível. Joguei a bolsa nele. — VOCÊ É UM IDIOTA! Ele desviou por pouco. — Controle-se. — EU VOU ME CONTROLAR COM UMA CADEIRA NA SUA CABEÇA! Um dos bebês fez um som. Eu automaticamente voltei a balançar. — Calma, calma… não é com vocês — murmurei, antes de voltar para ele. — É com o seu pai cruelmente incompetente! — Isso é desnecessário. — Desnecessário foi você me demitir sem explicação, lembra?! Ele fechou a expressão. — Isso não é relevante agora. — NÃO É RELEVANTE?! Olhei ao redor de novo. — Você me traz pra sua casa — SEM ME AVISAR — pra cuidar dos SEUS FILHOS?! — Eu não sabia que era você. — ÓTIMO! Então você é incompetente em recrutamento também! Eu queria jogar mais alguma coisa. Olhei ao redor. Peguei uma almofada. Joguei. Ele segurou no ar. — Isso está ficando infantil. — INFANTIL É VOCÊ NÃO SABER CUIDAR DOS PRÓPRIOS FILHOS! Silêncio. Ele não respondeu. Porque não tinha como. Eu respirei fundo. Um dos bebês já estava quase dormindo. O outro… também. — Inacreditável — murmurei, mais baixo agora. Olhei para eles. Pequenos. Calmos. Dependentes. Depois para ele. Grande. Controlador. Completamente perdido. — Você deixou eles chorando — falei, sem gritar dessa vez. — Sozinhos. — Eu estava preparando a fórmula. — E não ouviu? — Eu estava resolvendo. Eu ri. Sem humor. Ele não gostou. Eu vi. — Eu não ignoro problemas. — Você me ignorou — retruquei. Eu desviei o olhar. — Eu não vou ficar — falei, mais firme. — Esquece. Comecei a me mover para sair, após colocar os bebês nos berços. — Você precisa do emprego. Parei. Devagar. Muito devagar. — Não usa isso comigo. — É um fato. Se não, não estava aqui. Eu fechei os olhos por um segundo. Maldito. Maldito porque ele não estava errado. E eu odiava isso. Olhei para os bebês de novo. E completamente alheio ao fato de que o pai dele era um desastre humano. Suspirei. — Eu odeio você. — Eu sei. — Não, você não sabe. Eu realmente odeio. — Ainda assim, você continua aqui. Eu balancei a cabeça. — Não por você. Olhei para ele. — Precisamos de regras. Ele ergueu levemente o queixo. — Fale. — Você não manda em mim como antes. — Eu nunca... — Mandava sim. E acabou. Silêncio. — Eu trabalho para as crianças — continuei. — Não para você. — Entendido. — E se você fizer qualquer coisa idiota com elas, eu vou... — Já entendi. — Não, você não entendeu — aproximei um pouco. — Eu vou fazer da sua vida um inferno. Ele sustentou o olhar. — Anotado. Eu respirei fundo. — Salário alto. Pagamento em dia. E... Olhei para os dois. — E você aprende. Ele franziu levemente a testa. — Aprender o quê? Eu soltei um riso curto. — A ser pai. Silêncio. — Certo — ele disse, finalmente. Eu assenti. — Certo. Olhei ao redor. Depois para ele. — Agora sai do quarto. Ele piscou. — O quê? — Sai — repeti. — Eles dormiram. E você faz barulho existindo. Ele não se mexeu. — Nate. Uma pausa. E então... Ele saiu. Eu fiquei ali. Com dois bebês que não eram meus. Em uma casa que definitivamente não era meu lugar. Trabalhando para um homem que eu queria estrangular. E, ainda assim... Quando um deles se mexeu e procurou mais perto, eu automaticamente ajustei o cobertor. — Vai dar problema isso aqui — murmurei. Mas não saí. Porque, no fundo, eu já sabia: Eu tinha acabado de aceitar o emprego mais complicado da minha vida. E, provavelmente... O mais impossível de abandonar.






