Mundo de ficçãoIniciar sessãoTessa
Desliguei o telefone e fiquei olhando para a parede como se ela fosse me dar uma resposta melhor do que a minha própria consciência.
Sete da manhã.
Olheiras invisíveis. Café ainda não feito.E um bilionário acabado de implorar do outro lado da linha.
Isso devia ter sido suficiente para eu rir, virar para o lado e dormir mais uma hora. Devia. Mas não foi.
Porque a voz dele não tinha arrogância. Não tinha pressa. Não tinha cálculo.
Tinha medo.E eu reconheço medo verdadeiro a quilômetros de distância. Ele tem um som específico. Não grita. Não posa. Não negocia.
Levantei da cama com raiva. Dele. De mim. Da vida que sempre me empurra para o papel que ninguém mais quer desempenhar.
Minha mãe estava sentada à mesa da cozinha quando entrei. Café ralo. Pão amanhecido. Realidade conhecida.
— Acordou cedo — ela comentou.
— Nem dormi — respondi.
Ela me olhou do jeito que só mães cansadas olham. Como quem já entendeu tudo sem precisar ouvir.
— Trabalho?
— Possível trabalho.
Ela assentiu. Sempre assentia. Nunca perguntou se eu queria. Perguntava se dava.
— Vai?
Passei a mão no rosto.
— Vou conversar.
Ela não sorriu. Não disse “boa sorte”. Só falou o que sempre fala quando percebe que eu estou prestes a carregar mais peso do que devia.
— Não se esquece de você no caminho.
Sorri de lado. Como se isso fosse simples.
O trajeto até a casa de Nate foi silencioso.
Não coloquei música. Não queria distração. Queria sentir cada decisão errada se formando.A casa continuava grande demais, limpa demais, quieta demais para abrigar recém-nascidos. Casas assim não foram feitas para o caos. Foram feitas para aparência.
Ele abriu a porta antes que eu tocasse a campainha. Camisa amarrotada. Barba por fazer. Olhos fundos.
Bom.
Ao menos não estava fingindo.— Você veio — ele disse.
— Eu disse que vinha conversar. Não confunda com aceitar.
Ele assentiu. Não tentou argumentar. Outro ponto.
Entrar naquela casa foi como atravessar uma fronteira invisível. O ar parecia mais frio. O silêncio mais pesado. Tudo muito organizado para alguém que claramente tinha perdido o controle.
— Eles dormiram? — perguntei, sem perceber.
Ele apontou para o corredor.
— Agora sim.
Agora. Não “a noite toda”.
Caminhei até o quarto sem pedir permissão. Ele veio atrás, hesitante. Como se aquele espaço não fosse mais totalmente dele.
Os dois berços lado a lado. Corpos pequenos demais para aquele mundo grande demais. O som da respiração irregular, frágil, insistente.
Meu peito apertou.
Maldição.— Você passou a madrugada sozinho? — perguntei baixo.
— Sim.
— Sem ajuda?
— Sim.
— Sem saber o que estava fazendo?
Ele respirou fundo.
— Sim.
Fechei os olhos por um segundo. O passado bateu à porta com força. Madrugadas iguais. Choro parecido. Eu com idade demais para brincar e pouca demais para saber.
— Você quase deixou um cair — eu disse, não como acusação. Como constatação.
— Quase — ele confirmou. — Isso foi o pior momento da minha vida.
Olhei para ele então. De verdade. Não para o sobrenome. Não para o dinheiro. Para o homem exausto segurando a própria incompetência com as duas mãos.
— Você tem ideia de quantas pessoas fariam isso mesmo sem admitir? — perguntei.
— Imagino que muitas.
— E quantas fariam isso e depois culpariam alguém?
Ele engoliu seco.
— Eu não quero ser esse cara.
— Não querer não basta — respondi. — Ficar é o que conta.
Voltamos para a sala. Ele me ofereceu café. Aceitei. O café estava ruim. Ótimo sinal. Gente rica raramente sabe fazer café ruim sozinha.
Sentamos frente a frente. Distância suficiente para não fingir intimidade.
— Eu não vou trabalhar para você — comecei.
Ele não se mexeu.
— Eu vou trabalhar para eles — continuei. — Se eu aceitar.
— Entendo.
— Não, não entende. — me inclinei para frente. — Isso significa que eu vou te contrariar. Vou te chamar atenção. Vou te dizer quando você estiver falhando. E você vai odiar.
— Provavelmente.
— Não “provavelmente”. Vai.
Ele sustentou meu olhar.
— Se isso for o preço para não falhar com eles, eu pago.
— Dinheiro não compra maturidade emocional.
— Eu sei — respondeu. — Mas talvez compre tempo. E tempo é o que eu preciso para aprender.
Suspirei. Longo. Cansado.
— Eu não fico para sempre.
— Eu não estou pedindo isso.
— Eu não viro substituta de mãe.
— Eu nunca esperaria isso.
— Eu não durmo aqui.
— Tudo bem.
— Eu não sou discreta.
Um canto da boca dele se ergueu, quase um sorriso.
— Já percebi.
— E eu odeio gente rica.
Agora ele sorriu de verdade. Pequeno. Cansado.
— Isso também ficou claro.
Fiquei em silêncio. Observando. Avaliando.
— Por que você ligou para mim? — perguntei. — De todas as pessoas disponíveis, por que eu?
Ele demorou a responder. E eu respeitei isso.
— Porque você não tentou me agradar — disse. — Porque você falou comigo como se eu fosse… falível. E porque quando eu pensei em alguém que não iria ir embora ao primeiro choro… pensei em você.
Aquilo bateu errado. Forte demais.
— Você não sabe nada sobre mim — rebati.
— Sei o suficiente para saber que você não veio aqui por mim.
Justo.
— Você ainda está envolvido com a Bianca? — perguntei, direta.
Ele franziu a testa.
— Não.
— Não “não”, ou não “mais ou menos”?
— Não. — firme. — Ela não faz parte disso.
Assenti. Um problema a menos. Ou um diferente.
— Se eu aceitar — falei — vai ser um período de teste. Curto.
— Quanto?
— Um mês.
— Fechado.
— Sem contrato.
— Tudo bem.
— Você vai aprender. Não observar. Aprender. Trocar fralda. Acordar. Errar.
— Eu já errei bastante — disse.
— Vai errar mais — garanti.
Levantamos ao mesmo tempo quando um choro ecoou pelo corredor. Um só. O outro ficou quieto.
Instinto.
Meu corpo já se movia antes da decisão.Pare no lugar, Tessa.
Ainda não.Olhei para Nate. Ele estava imóvel. Olhos arregalados. Medo puro.
— Vai — falei. — É seu.
— Eu… como?
— Do jeito que conseguir.
Ele respirou fundo e foi. Desajeitado. Tenso. Tentando não quebrar nada invisível.
Fiquei na porta. Observando. Não interferi. Ainda.
Ele pegou o bebê errado primeiro. Depois corrigiu. Demorou. Mas ficou. Não passou para ninguém. Não chamou ajuda.
O choro diminuiu.
Algo dentro de mim cedeu.
Contra minha vontade.Quando ele voltou, o bebê dormia outra vez.
— Você fez certo — eu disse.
Ele me olhou como se aquilo fosse um prêmio.
— Então…? — perguntou.
Cruzei os braços. Proteção automática.
— Eu fico. — falei. — Mas com uma condição final.
— Qualquer coisa.
— Se você tentar transformar isso em algo fácil… eu vou embora.
Ele assentiu.
— Combinado.
Respirei fundo.
Estava feito.Não porque ele merecia.
Mas porque aqueles dois não tinham escolhido nada daquilo.E porque, contra todo bom senso, eu tinha acabado de entrar na vida de um homem que eu devia evitar.
Ódio e proximidade são faíscas perigosas.
E eu sabia, no fundo, que aquilo não ia terminar simples.Nunca termina.







