CAPÍTULO 4 - Tessa

Capítulo 4

Tessa

Desliguei o telefone e fiquei olhando para a parede como se ela fosse me dar uma resposta melhor do que a minha própria consciência.

Sete da manhã.

Olheiras invisíveis.

Café ainda não feito.

E um bilionário acabado de implorar do outro lado da linha.

Isso devia ter sido suficiente para eu rir, virar para o lado e dormir mais uma hora. Devia. Mas não foi.

Porque a voz dele não tinha arrogância. Não tinha pressa. Não tinha cálculo.

Tinha medo.

E eu reconheço medo verdadeiro a quilômetros de distância. Ele tem um som específico. Não grita. Não posa. Não negocia.

Levantei da cama com raiva. Dele. De mim. Da vida que sempre me empurra para o papel que ninguém mais quer desempenhar.

Minha mãe estava sentada à mesa da cozinha quando entrei. Café ralo. Pão amanhecido. Realidade conhecida.

— Acordou cedo — ela comentou.

— Nem dormi — respondi.

Ela me olhou do jeito que só mães cansadas olham. Como quem já entendeu tudo sem precisar ouvir.

— Trabalho?

— Possível trabalho.

Ela assentiu. Sempre assentia. Nunca perguntou se eu queria. Perguntava se dava.

— Vai?

Passei a mão no rosto.

— Vou conversar.

Ela não sorriu. Não disse “boa sorte”. Só falou o que sempre fala quando percebe que eu estou prestes a carregar mais peso do que devia.

— Não se esquece de você no caminho.

Sorri de lado. Como se isso fosse simples.


O trajeto até a casa de Nate foi silencioso.

Não coloquei música. Não queria distração. Queria sentir cada decisão errada se formando.

A casa continuava grande demais, limpa demais, quieta demais para abrigar recém-nascidos. Casas assim não foram feitas para o caos. Foram feitas para aparência.

Ele abriu a porta antes que eu tocasse a campainha. Camisa amarrotada. Barba por fazer. Olhos fundos.

Bom.

Ao menos não estava fingindo.

— Você veio — ele disse.

— Eu disse que vinha conversar. Não confunda com aceitar.

Ele assentiu. Não tentou argumentar. Outro ponto.

Entrar naquela casa foi como atravessar uma fronteira invisível. O ar parecia mais frio. O silêncio mais pesado. Tudo muito organizado para alguém que claramente tinha perdido o controle.

— Eles dormiram? — perguntei, sem perceber.

Ele apontou para o corredor.

— Agora sim.

Agora. Não “a noite toda”.

Caminhei até o quarto sem pedir permissão. Ele veio atrás, hesitante. Como se aquele espaço não fosse mais totalmente dele.

Os dois berços lado a lado. Corpos pequenos demais para aquele mundo grande demais. O som da respiração irregular, frágil, insistente.

Meu peito apertou.

Maldição.

— Você passou a madrugada sozinho? — perguntei baixo.

— Sim.

— Sem ajuda?

— Sim.

— Sem saber o que estava fazendo?

Ele respirou fundo.

— Sim.

Fechei os olhos por um segundo. O passado bateu à porta com força. Madrugadas iguais. Choro parecido. Eu com idade demais para brincar e pouca demais para saber.

— Você quase deixou um cair — eu disse, não como acusação. Como constatação.

— Quase — ele confirmou. — Isso foi o pior momento da minha vida.

Olhei para ele então. De verdade. Não para o sobrenome. Não para o dinheiro. Para o homem exausto segurando a própria incompetência com as duas mãos.

— Você tem ideia de quantas pessoas fariam isso mesmo sem admitir? — perguntei.

— Imagino que muitas.

— E quantas fariam isso e depois culpariam alguém?

Ele engoliu seco.

— Eu não quero ser esse cara.

— Não querer não basta — respondi. — Ficar é o que conta.

Voltamos para a sala. Ele me ofereceu café. Aceitei. O café estava ruim. Ótimo sinal. Gente rica raramente sabe fazer café ruim sozinha.

Sentamos frente a frente. Distância suficiente para não fingir intimidade.

— Eu não vou trabalhar para você — comecei.

Ele não se mexeu.

— Eu vou trabalhar para eles — continuei. — Se eu aceitar.

— Entendo.

— Não, não entende. — me inclinei para frente. — Isso significa que eu vou te contrariar. Vou te chamar atenção. Vou te dizer quando você estiver falhando. E você vai odiar.

— Provavelmente.

— Não “provavelmente”. Vai.

Ele sustentou meu olhar.

— Se isso for o preço para não falhar com eles, eu pago.

— Dinheiro não compra maturidade emocional.

— Eu sei — respondeu. — Mas talvez compre tempo. E tempo é o que eu preciso para aprender.

Suspirei. Longo. Cansado.

— Eu não fico para sempre.

— Eu não estou pedindo isso.

— Eu não viro substituta de mãe.

— Eu nunca esperaria isso.

— Eu não durmo aqui.

— Tudo bem.

— Eu não sou discreta.

Um canto da boca dele se ergueu, quase um sorriso.

— Já percebi.

— E eu odeio gente rica.

Agora ele sorriu de verdade. Pequeno. Cansado.

— Isso também ficou claro.

Fiquei em silêncio. Observando. Avaliando.

— Por que você ligou para mim? — perguntei. — De todas as pessoas disponíveis, por que eu?

Ele demorou a responder. E eu respeitei isso.

— Porque você não tentou me agradar — disse. — Porque você falou comigo como se eu fosse… falível. E porque quando eu pensei em alguém que não iria ir embora ao primeiro choro… pensei em você.

Aquilo bateu errado. Forte demais.

— Você não sabe nada sobre mim — rebati.

— Sei o suficiente para saber que você não veio aqui por mim.

Justo.

— Você ainda está envolvido com a Bianca? — perguntei, direta.

Ele franziu a testa.

— Não.

— Não “não”, ou não “mais ou menos”?

— Não. — firme. — Ela não faz parte disso.

Assenti. Um problema a menos. Ou um diferente.

— Se eu aceitar — falei — vai ser um período de teste. Curto.

— Quanto?

— Um mês.

— Fechado.

— Sem contrato.

— Tudo bem.

— Você vai aprender. Não observar. Aprender. Trocar fralda. Acordar. Errar.

— Eu já errei bastante — disse.

— Vai errar mais — garanti.

Levantamos ao mesmo tempo quando um choro ecoou pelo corredor. Um só. O outro ficou quieto.

Instinto.

Meu corpo já se movia antes da decisão.

Pare no lugar, Tessa.

Ainda não.

Olhei para Nate. Ele estava imóvel. Olhos arregalados. Medo puro.

— Vai — falei. — É seu.

— Eu… como?

— Do jeito que conseguir.

Ele respirou fundo e foi. Desajeitado. Tenso. Tentando não quebrar nada invisível.

Fiquei na porta. Observando. Não interferi. Ainda.

Ele pegou o bebê errado primeiro. Depois corrigiu. Demorou. Mas ficou. Não passou para ninguém. Não chamou ajuda.

O choro diminuiu.

Algo dentro de mim cedeu.

Contra minha vontade.

Quando ele voltou, o bebê dormia outra vez.

— Você fez certo — eu disse.

Ele me olhou como se aquilo fosse um prêmio.

— Então…? — perguntou.

Cruzei os braços. Proteção automática.

— Eu fico. — falei. — Mas com uma condição final.

— Qualquer coisa.

— Se você tentar transformar isso em algo fácil… eu vou embora.

Ele assentiu.

— Combinado.

Respirei fundo.

Estava feito.

Não porque ele merecia.

Mas porque aqueles dois não tinham escolhido nada daquilo.

E porque, contra todo bom senso, eu tinha acabado de entrar na vida de um homem que eu devia evitar.

Ódio e proximidade são faíscas perigosas.

E eu sabia, no fundo, que aquilo não ia terminar simples.

Nunca termina.

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