Mundo de ficçãoIniciar sessão
O telefone tocou no meio de uma reunião inútil.
Daquelas em que todos fingem importância enquanto repetem o que já foi decidido antes do café.Ignorei a primeira vez. Ignorei a segunda.
Na terceira, senti aquele incômodo seco no estômago. Intuição não é coisa que eu leve a sério, mas ela sabe ser inconveniente.— Cinco minutos — avisei, já de pé.
Saí da sala de vidro com vista para uma cidade que sempre pareceu obediente demais. Atendi.
— Nate Blackwell? — perguntou uma voz feminina, profissional, treinada para não se envolver.
Confirmei.
— Falo do Hospital St. Mary. Precisamos que o senhor venha imediatamente.
Não disseram o motivo. Nunca dizem. Quando dizem, já é tarde.
O hospital cheira a desinfetante e derrota. Não importa quanto dinheiro você tenha, ali todo mundo anda do mesmo jeito: rápido, tenso, tentando não pensar no pior.
Fui levado a uma sala pequena. Cadeiras duras. Luz branca demais.
Uma médica entrou com um tablet nas mãos. Tinha olhos cansados.— O senhor conhecia Livia Hart?
O nome bateu antes do rosto. Livia.
A mulher que eu via quando tinha tempo. Quando queria silêncio sem compromisso. Quando não queria pensar no dia seguinte.— Sim — respondi, seco.
Ela respirou fundo. Um gesto ensaiado.
— Livia sofreu complicações graves durante o parto. Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance.
Tudo o que estava ao alcance.
Essa frase sempre significa a mesma coisa.— Ela morreu às 2h17 da manhã.
O mundo não parou. O que foi pior.
O ar continuou entrando nos pulmões, o coração continuou batendo, e eu continuei ali, em pé, como se tivesse acabado de ouvir algo distante demais para doer.— Parto? — perguntei.
A médica me olhou por um segundo a mais do que o necessário.
— Livia estava grávida de gêmeos.
Eles nasceram prematuros, mas estão vivos.Gêmeos.
A palavra ficou flutuando entre nós, sem pressa, sem misericórdia.
— O senhor é o pai.
Não houve revelação cinematográfica.
Nenhuma memória passando em câmera lenta. Nenhuma epifania.Só um cálculo imediato, frio e automático: isso não estava nos meus planos.
— Deve haver um engano — falei. Não como negação emocional. Como constatação lógica.
Ela deslizou o tablet para mim. Datas. Exames. Números.
Evidências não costumam mentir.— Livia indicou o senhor como pai e temos confirmação laboratorial.
Assinei papéis que não li. Concordei com coisas que não entendi.
Minha assinatura sempre resolveu problemas. Eu ainda acreditava nisso.Vi os bebês pela primeira vez através de um vidro.
Dois corpos pequenos demais, ligados a fios demais. Respirando com ajuda. Vivendo por teimosia.Não senti amor.
Senti pânico.Não era culpa deles. Era minha.
Porque eu não fazia ideia do que vinha agora.— Eles precisam de um responsável legal — disse a assistente social, com a mesma naturalidade de quem pede um documento.
Responsável legal.
Não pai. Responsável.— E a família dela? — perguntei.
— Não há contato próximo. A guarda recai sobre o senhor.
Recai.
Como se fosse um objeto esquecido numa mesa cara demais para parecer real.A primeira pessoa que liguei não foi um advogado.
Foi Bianca.Bianca era prática. Bonita. Organizada.
Bianca gostava de mim do jeito certo: sem exigir futuro.— Nate? — ela atendeu animada. — Você sumiu hoje.
— Preciso que venha ao hospital.
Houve uma pausa.
— Aconteceu alguma coisa?
— Sim.
Nunca gostei de explicar tragédias por telefone.
Prefiro a cara das pessoas quando percebem que algo mudou e não tem como devolver.Ela chegou vinte minutos depois. Salto alto. Casaco caro. Olhar curioso.
Contei tudo em frases curtas.
Morte. Bebês. Gêmeos. Meu nome no meio disso.Bianca piscou algumas vezes. Processando.
— Isso… é sério? — perguntou.
— Mortalmente.
Ela cruzou os braços.
— E o que você vai fazer?
Era a pergunta errada.
Porque eu não fazia ideia.— Vou resolver — respondi. Reflexo condicionado.
Ela olhou para o vidro, para os bebês, para os fios.
— Eu não sei lidar com isso — disse, finalmente honesta. — Criança, hospital, responsabilidade… Não é pra mim.
Agradeci mentalmente pela clareza.
Preferia rejeição limpa a falsa promessa.— Você não precisa lidar — falei.
Ela assentiu, aliviada demais.
— Posso ajudar com outra coisa. Contratar alguém. Uma babá, talvez. Alguém que entenda disso.
Babá.
A palavra soou distante. Técnica. Controlável.— Faça isso — concordei.
Ela sorriu, já recuperando o equilíbrio.
— Vou escolher alguém competente. Discreta. Temporária.
Temporária.
Essa palavra eu gostei.Horas depois, sozinho no corredor, percebi algo simples e aterrador:
Livia estava morta. E eu tinha dois filhos que nunca pedi.Não havia romance nisso.
Nem destino. Nem redenção instantânea.Só uma realidade crua me encarando sem piscar.
E pela primeira vez em muito tempo, nenhum dinheiro do mundo parecia suficiente para me tirar dali.
Eu não sabia ainda, mas aquele não era o dia em que virei pai.
Era o dia em que perdi o controle da minha própria vida.E ela nunca mais seria a mesma.







