CAPÍTULO 2 - Tessa

O café queimado foi o primeiro sinal de que o dia tinha começado errado.

— Tessa! — a voz da minha mãe veio do quarto, meio abafada, meio desesperada. — Meu privativo sumiu!

— Se sumiu, foi porque criou pernas e decidiu fugir dessa casa — respondi, sem tirar os olhos da panela.

O ovo grudava com uma persistência que eu respeitava. Quase admirei. Quase.

Desliguei o fogo antes que aquilo virasse carvão oficial e passei o café para duas canecas diferentes — porque, aparentemente, lavar louça durante a noite era uma atividade revolucionária que ninguém ali praticava além de mim.

— Eu estou atrasada! — ela apareceu na cozinha com metade do uniforme vestido, o cabelo preso de qualquer jeito e a expressão típica de quem já perdeu a batalha antes de sair de casa.

— Você sempre está — respondi, entregando a caneca. — Aqui. Cuidado, tá quente. Diferente da sua vida amorosa.

Ela me lançou um olhar que misturava cansaço e vontade de rir.

— Não começa.

— Eu não comecei, só estou mantendo a consistência.

Do outro lado da mesa — meus irmãos mais novos — brigavam por um pedaço de pão como se fosse o último recurso da humanidade.

— Eu peguei primeiro! — Um gritou, puxando.

— Mas eu vi primeiro! — O outro respondeu, puxando de volta.

— Então vocês dois viram um pedaço de pão. Parabéns. Agora solta isso antes que eu coma — falei, cruzando os braços.

Eles pararam.

Pensaram.

E soltaram.

Eu sorri, satisfeita. Autoridade conquistada pelo medo é subestimada.

— Vocês têm cinco minutos para comer — continuei. — Depois, escovar os dentes. E não é aquela escovada simbólica que vocês inventaram ontem.

— Foi de verdade! — Davi reclamou.

— Escovar o ar ao redor da boca não conta como higiene.

Minha mãe já estava terminando de ajeitar a bolsa, enfiando coisas lá dentro como se estivesse jogando um jogo de sobrevivência.

— Tessa, eu vou fazer plantão duplo hoje — ela disse, finalmente.

Eu assenti.

Não era novidade.

Mas ainda assim… pesava.

— Eu cuido deles.

— Eu sei que cuida — ela respondeu, mais suave agora. — Mas você também precisa cuidar de você. A faculdade…

A palavra ficou no ar, carregada.

Faculdade.

Mensalidade atrasada.

Avisos acumulando.

Eu forcei um sorriso.

— Eu vou resolver.

— Como?

Boa pergunta.

— Com charme, talento e um emprego que ainda não existe.

Ela suspirou.

— Tessa…

— Mãe, vai. Você vai se atrasar.

Ela me olhou por um segundo a mais. Como se quisesse dizer algo importante. Como se não tivesse energia para isso.

Beijou minha testa.

— Não deixa eles brigarem.

Olhei para os dois, que já estavam disputando quem ia usar o copo azul.

— Sem promessas.

Ela saiu.

A porta fechou.

E o silêncio que ficou não era exatamente silêncio — era responsabilidade.

— Certo, mini humanos — bati palmas uma vez. — Operação sobrevivência começa agora.

Uma hora depois, a casa estava… aceitável.

Não limpa.

Aceitável.

Os dois estavam vestidos, alimentados e, milagrosamente, com os dentes escovados sem que ninguém chorasse. Isso, por si só, já qualificava o dia como um sucesso estatístico.

Deixei-os na escola com instruções claras:

— Não briguem.

— Não corram.

— Não se matem.

Eles assentiram com a mesma expressão de quem não pretende cumprir nenhuma dessas regras.

Perfeito.

Voltei andando para casa, já puxando o jornal dobrado debaixo do braço.

Clássico.

Velho.

Mas ainda útil quando você precisa de emprego e não tem luxo de escolher.

Sentei na mesa, peguei uma caneta e comecei a circular anúncios.

“Experiência comprovada.”

Risquei.

“Disponibilidade integral.”

Risquei.

“Salário a combinar.”

Risquei com mais força.

— A combinar com quem? Com o meu desespero? — murmurei.

Continuei.

Atendente. Vendedora. Recepcionista.

Suspirei.

— Não.

Eu não tenho experiência formal.

Tenho dois irmãos que sobreviveram até agora, o que deveria contar como especialização, mas o mercado de trabalho tende a discordar.

Meu celular vibrou.

Mensagem.

Clara.

Ex-colega de trabalho.

Abri.

“Amiga, precisamos conversar. Tenho uma coisa que pode te interessar”

Ergui uma sobrancelha.

— Isso nunca é bom.

Respondi mesmo assim.

“Se envolver dinheiro, já me interessa.”

A resposta veio quase instantânea.

“Envolve.”

Levantei.

Peguei a bolsa.

— Ok, universo. Vamos ver até onde você pretende ir hoje.

O café onde marcamos não era sofisticado. Mas também não era deprimente. Um meio-termo honesto — diferente da maioria das coisas na vida.

Claire já estava lá, mexendo no celular com a concentração de quem vive de fofoca bem administrada.

— Olha quem resolveu aparecer — ela disse, assim que me viu. — A ex-assistente mais eficiente que aquele homem já teve.

— E a única que ele foi idiota o suficiente para demitir — sentei na frente dela.

— Você ainda tá com raiva?

— Não — respondi, pegando o cardápio. — Eu evoluí. Agora é desprezo.

Ela riu.

— Eu senti sua falta lá.

— Sentiu porque ninguém fazia metade do que eu fazia.

— Verdade.

— E ele?

Ela deu de ombros.

— Continua insuportável.

— Ótimo. Fico feliz que nada tenha mudado.

Um garçom apareceu. Pedi o café mais barato do cardápio. Prioridades.

— Então — cruzei os braços. — Qual é o plano? Me tirar da pobreza ou só me dar esperança falsa?

Ela se inclinou um pouco, como se estivesse prestes a revelar um segredo de Estado.

— Surgiu uma vaga.

— Já não gostei do tom.

— Babá.

Eu encarei.

— Claire…

— Espera! Não é qualquer vaga.

— É exatamente o que alguém diria antes de apresentar uma vaga qualquer.

— Salário alto.

Parei.

— Quão alto?

Ela sorriu.

— Alto o suficiente pra você pagar a faculdade… e ainda ajudar em casa.

Meu cérebro fez contas antes mesmo de eu autorizar.

— Qual é o problema?

Porque sempre tem um.

— Família reservada.

— Isso não é problema.

— Muito reservada.

— Ainda não é problema.

— Tipo… extremamente reservada.

Inclinei a cabeça.

— Tá. Agora ficou interessante.

— Discrição total. Nada de redes sociais, nada de comentar com ninguém, rotina mais… interna.

— Eu não tenho vida social pra comprometer mesmo.

— Horário integral.

Pensei na minha mãe. Nos meus irmãos. Na faculdade.

— Eu dou um jeito.

— E… você não vai saber exatamente quem são até ir.

Franzi a testa.

— Isso parece levemente ilegal.

— Não é ilegal. Só… seletivo.

— Seletivo é uma palavra bonita pra estranho.

Ela riu de novo.

— Tessa, é sério. É uma oportunidade boa.

Eu olhei para o café.

Depois para o jornal dobrado na bolsa.

Depois para ela.

Faculdade atrasada.

Conta de luz.

Mercado.

Dois irmãos.

Uma mãe exausta.

— Quando é a entrevista?

O sorriso dela se alargou.

— Eu sabia que você ia perguntar isso.

Suspirei.

— Claro que sabia. Eu estou a três boletos de distância de aceitar qualquer coisa.

— Amanhã.

Rápido.

— Endereço?

Ela pegou o celular e me mostrou.

Casa.

Grande.

Bairro que definitivamente não era o meu.

— Ok… — murmurei. — Isso é intimidante.

— Mas paga bem.

Respirei fundo.

— Certo.

Ela me observou por um segundo.

— Você tá nervosa?

— Não.

— Tá sim.

— Eu estou… cautelosamente desesperada.

Peguei o café.

Bebi um gole.

Amargo.

Mas necessário.

— Se isso der errado — falei — eu volto a usar aquela fantasia de donuts na esquina.

— Você já fez isso?

— Não.

— Então por que...

— Porque soa como plano B.

Ela riu.

— Você continua a mesma.

Balancei a cabeça.

— Não. Eu estou mais cansada.

E mais determinada.

Olhei de novo para o endereço.

Algo ali… incomodava.

Não fazia sentido ainda.

Mas também não precisava fazer.

Ainda não.

— Amanhã, então — falei, decidindo.

Claire ergueu a xícara.

— À sua nova vida de babá.

Encostei a minha na dela.

— À minha sobrevivência.

Porque, no fim das contas, era isso.

E eu já aprendi uma coisa:

Quando a vida oferece uma chance — estranha, suspeita ou inesperada — Você pega.

Mesmo sem saber exatamente onde isso vai dar.

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