Mundo de ficçãoIniciar sessãoO café queimado foi o primeiro sinal de que o dia tinha começado errado.
— Tessa! — a voz da minha mãe veio do quarto, meio abafada, meio desesperada. — Meu privativo sumiu! — Se sumiu, foi porque criou pernas e decidiu fugir dessa casa — respondi, sem tirar os olhos da panela. O ovo grudava com uma persistência que eu respeitava. Quase admirei. Quase. Desliguei o fogo antes que aquilo virasse carvão oficial e passei o café para duas canecas diferentes — porque, aparentemente, lavar louça durante a noite era uma atividade revolucionária que ninguém ali praticava além de mim. — Eu estou atrasada! — ela apareceu na cozinha com metade do uniforme vestido, o cabelo preso de qualquer jeito e a expressão típica de quem já perdeu a batalha antes de sair de casa. — Você sempre está — respondi, entregando a caneca. — Aqui. Cuidado, tá quente. Diferente da sua vida amorosa. Ela me lançou um olhar que misturava cansaço e vontade de rir. — Não começa. — Eu não comecei, só estou mantendo a consistência. Do outro lado da mesa — meus irmãos mais novos — brigavam por um pedaço de pão como se fosse o último recurso da humanidade. — Eu peguei primeiro! — Um gritou, puxando. — Mas eu vi primeiro! — O outro respondeu, puxando de volta. — Então vocês dois viram um pedaço de pão. Parabéns. Agora solta isso antes que eu coma — falei, cruzando os braços. Eles pararam. Pensaram. E soltaram. Eu sorri, satisfeita. Autoridade conquistada pelo medo é subestimada. — Vocês têm cinco minutos para comer — continuei. — Depois, escovar os dentes. E não é aquela escovada simbólica que vocês inventaram ontem. — Foi de verdade! — Davi reclamou. — Escovar o ar ao redor da boca não conta como higiene. Minha mãe já estava terminando de ajeitar a bolsa, enfiando coisas lá dentro como se estivesse jogando um jogo de sobrevivência. — Tessa, eu vou fazer plantão duplo hoje — ela disse, finalmente. Eu assenti. Não era novidade. Mas ainda assim… pesava. — Eu cuido deles. — Eu sei que cuida — ela respondeu, mais suave agora. — Mas você também precisa cuidar de você. A faculdade… A palavra ficou no ar, carregada. Faculdade. Mensalidade atrasada. Avisos acumulando. Eu forcei um sorriso. — Eu vou resolver. — Como? Boa pergunta. — Com charme, talento e um emprego que ainda não existe. Ela suspirou. — Tessa… — Mãe, vai. Você vai se atrasar. Ela me olhou por um segundo a mais. Como se quisesse dizer algo importante. Como se não tivesse energia para isso. Beijou minha testa. — Não deixa eles brigarem. Olhei para os dois, que já estavam disputando quem ia usar o copo azul. — Sem promessas. Ela saiu. A porta fechou. E o silêncio que ficou não era exatamente silêncio — era responsabilidade. — Certo, mini humanos — bati palmas uma vez. — Operação sobrevivência começa agora. Uma hora depois, a casa estava… aceitável. Não limpa. Aceitável. Os dois estavam vestidos, alimentados e, milagrosamente, com os dentes escovados sem que ninguém chorasse. Isso, por si só, já qualificava o dia como um sucesso estatístico. Deixei-os na escola com instruções claras: — Não briguem. — Não corram. — Não se matem. Eles assentiram com a mesma expressão de quem não pretende cumprir nenhuma dessas regras. Perfeito. Voltei andando para casa, já puxando o jornal dobrado debaixo do braço. Clássico. Velho. Mas ainda útil quando você precisa de emprego e não tem luxo de escolher. Sentei na mesa, peguei uma caneta e comecei a circular anúncios. “Experiência comprovada.” Risquei. “Disponibilidade integral.” Risquei. “Salário a combinar.” Risquei com mais força. — A combinar com quem? Com o meu desespero? — murmurei. Continuei. Atendente. Vendedora. Recepcionista. Suspirei. — Não. Eu não tenho experiência formal. Tenho dois irmãos que sobreviveram até agora, o que deveria contar como especialização, mas o mercado de trabalho tende a discordar. Meu celular vibrou. Mensagem. Clara. Ex-colega de trabalho. Abri. “Amiga, precisamos conversar. Tenho uma coisa que pode te interessar” Ergui uma sobrancelha. — Isso nunca é bom. Respondi mesmo assim. “Se envolver dinheiro, já me interessa.” A resposta veio quase instantânea. “Envolve.” Levantei. Peguei a bolsa. — Ok, universo. Vamos ver até onde você pretende ir hoje. O café onde marcamos não era sofisticado. Mas também não era deprimente. Um meio-termo honesto — diferente da maioria das coisas na vida. Claire já estava lá, mexendo no celular com a concentração de quem vive de fofoca bem administrada. — Olha quem resolveu aparecer — ela disse, assim que me viu. — A ex-assistente mais eficiente que aquele homem já teve. — E a única que ele foi idiota o suficiente para demitir — sentei na frente dela. — Você ainda tá com raiva? — Não — respondi, pegando o cardápio. — Eu evoluí. Agora é desprezo. Ela riu. — Eu senti sua falta lá. — Sentiu porque ninguém fazia metade do que eu fazia. — Verdade. — E ele? Ela deu de ombros. — Continua insuportável. — Ótimo. Fico feliz que nada tenha mudado. Um garçom apareceu. Pedi o café mais barato do cardápio. Prioridades. — Então — cruzei os braços. — Qual é o plano? Me tirar da pobreza ou só me dar esperança falsa? Ela se inclinou um pouco, como se estivesse prestes a revelar um segredo de Estado. — Surgiu uma vaga. — Já não gostei do tom. — Babá. Eu encarei. — Claire… — Espera! Não é qualquer vaga. — É exatamente o que alguém diria antes de apresentar uma vaga qualquer. — Salário alto. Parei. — Quão alto? Ela sorriu. — Alto o suficiente pra você pagar a faculdade… e ainda ajudar em casa. Meu cérebro fez contas antes mesmo de eu autorizar. — Qual é o problema? Porque sempre tem um. — Família reservada. — Isso não é problema. — Muito reservada. — Ainda não é problema. — Tipo… extremamente reservada. Inclinei a cabeça. — Tá. Agora ficou interessante. — Discrição total. Nada de redes sociais, nada de comentar com ninguém, rotina mais… interna. — Eu não tenho vida social pra comprometer mesmo. — Horário integral. Pensei na minha mãe. Nos meus irmãos. Na faculdade. — Eu dou um jeito. — E… você não vai saber exatamente quem são até ir. Franzi a testa. — Isso parece levemente ilegal. — Não é ilegal. Só… seletivo. — Seletivo é uma palavra bonita pra estranho. Ela riu de novo. — Tessa, é sério. É uma oportunidade boa. Eu olhei para o café. Depois para o jornal dobrado na bolsa. Depois para ela. Faculdade atrasada. Conta de luz. Mercado. Dois irmãos. Uma mãe exausta. — Quando é a entrevista? O sorriso dela se alargou. — Eu sabia que você ia perguntar isso. Suspirei. — Claro que sabia. Eu estou a três boletos de distância de aceitar qualquer coisa. — Amanhã. Rápido. — Endereço? Ela pegou o celular e me mostrou. Casa. Grande. Bairro que definitivamente não era o meu. — Ok… — murmurei. — Isso é intimidante. — Mas paga bem. Respirei fundo. — Certo. Ela me observou por um segundo. — Você tá nervosa? — Não. — Tá sim. — Eu estou… cautelosamente desesperada. Peguei o café. Bebi um gole. Amargo. Mas necessário. — Se isso der errado — falei — eu volto a usar aquela fantasia de donuts na esquina. — Você já fez isso? — Não. — Então por que... — Porque soa como plano B. Ela riu. — Você continua a mesma. Balancei a cabeça. — Não. Eu estou mais cansada. E mais determinada. Olhei de novo para o endereço. Algo ali… incomodava. Não fazia sentido ainda. Mas também não precisava fazer. Ainda não. — Amanhã, então — falei, decidindo. Claire ergueu a xícara. — À sua nova vida de babá. Encostei a minha na dela. — À minha sobrevivência. Porque, no fim das contas, era isso. E eu já aprendi uma coisa: Quando a vida oferece uma chance — estranha, suspeita ou inesperada — Você pega. Mesmo sem saber exatamente onde isso vai dar.






