CAPÍTULO 2 - Tessa

Meu pai morreu numa terça-feira comum.

Isso é a parte que mais irrita. Não foi trágico o suficiente para virar história. Foi só… definitivo.

Um infarto fulminante às seis da manhã, enquanto ele amarrava o cadarço do tênis velho para ir trabalhar. Caiu no chão da cozinha, derrubou a cadeira, acordou a casa inteira com o barulho seco de um corpo que não levantaria mais.

Minha mãe chorou por três dias seguidos.

E meus irmãos, pequenos demais para entender, só perguntavam quando o pai ia voltar.

Ele não voltou.

E alguém teve que assumir.

Esse alguém fui eu.

A gente aprende cedo quando nasce em família humilde: não existe espaço para fragilidade. Ou você funciona, ou tudo desmorona.

Comecei a trabalhar em dois empregos.

Cuidei de criança que não era minha enquanto meus irmãos cresciam grudados nas minhas pernas.

Troquei fralda antes de poder errar como jovem.

Troquei sonhos por contas.

E ricos…

Ricos sempre passaram por nós como se a gente fosse paisagem.

Meu pai trabalhou a vida inteira para homens que não sabiam o nome dele.

Homens de sapato caro e aperto de mão frouxo.

Homens que falavam em crise enquanto trocavam de carro.

Então não, eu não gosto de gente rica.

Nunca gostei.

Nunca vou gostar.

O nome Nate Blackwell apareceu no celular como uma provocação.

Sue tinha mandado a mensagem cedo demais para alguém que dorme pouco e confia menos ainda.

> “Consegue vir conversar hoje? É algo delicado.”

Delicado costuma ser sinônimo de problema mal pago ou ambiente tóxico.

Eu só respondi porque precisava do dinheiro. Simples assim.

Aceitei encontrá-la num café caro demais para o meu gosto. Daqueles que chamam café pequeno de “blend” e cobram como se tivessem torrado o grão no Olimpo.

Sue parecia… intacta.

Bem vestida. Bem cuidada. Bem distante da realidade.

— Obrigada por vir — ela disse, sorrindo.

— Seja direta — respondi, sentando. — Tenho mais o que fazer.

Ela piscou, surpresa. Pessoas como Bianca não estão acostumadas a não serem agradadas.

— Certo. — respirou fundo. — Estou ajudando um… amigo. Ele acabou de se tornar pai. De gêmeos.

Engoli o café sem açúcar. Amargo. Do jeito certo.

— E?

— A mãe morreu no parto.

Isso me fez parar. Não por choque. Por reconhecimento.

Morte repentina não me impressiona. Ela só muda de endereço.

— Ele precisa de ajuda — continuou Bianca. — Não agora, imediatamente. Mas em breve.

— Então por que está falando comigo agora?

Ela hesitou.

O que nunca é bom sinal.

— Porque preciso de alguém… preparada. Que saiba lidar com bebês. Com caos.

Ri, curto.

— Você está procurando uma babá ou uma santa?

— Uma profissional — corrigiu. — Bem paga.

Claro. Sempre bem paga.

Dinheiro é o curativo favorito dos ricos.

— Quem é ele? — perguntei.

Ela demorou meio segundo a mais do que o aceitável.

— Nate Blackwell.

Pronto.

O sobrenome caiu na mesa como um copo quebrado.

— Não. — falei, imediata.

— Tessa...

— Não. — repeti. — Não trabalho para bilionário.

Ela franziu a testa.

— Você nem ouviu os detalhes.

— Não preciso. Já ouvi essa história antes. Homem poderoso, vida fora de controle, contrata alguém para resolver o que ele não quer enfrentar.

— Ele não é assim — defendeu.

Sorri. Não por humor. Por cansaço.

— Todos são.

Bianca suspirou.

— Você não vai nem conhecê-lo?

— Não.

— Nem pelos bebês?

Aí foi golpe baixo.

E ela sabia.

Meus dedos apertaram a xícara.

— Não use criança comigo.

— Eles vão precisar de alguém como você.

Alguém como eu.

Sempre alguém como eu.

— Eles precisam de um pai presente. Não de uma mulher exausta limpando a bagunça emocional de um homem rico.

Ela me observou por alguns segundos, avaliando.

— Pense. Só pense. — empurrou um cartão na minha direção. — Não é para hoje.

Levantei antes que a conversa ganhasse raízes.

— Gente como ele sempre acha que tudo se resolve com contrato. — falei. — Mas filho não é cláusula.

Saí do café com o gosto amargo ainda na boca.

Não do café. Da memória.

À noite, em casa, meus irmãos estavam espalhados pela sala. Um fazendo lição, outro jogando videogame emprestado. Minha mãe dormia no quarto, exausta demais para fingir força.

Fui para o banheiro pequeno e encostei a testa no espelho.

Gêmeos.

Recém-nascidos.

A imagem voltou sem pedir licença: meus irmãos pequenos, chorando, me chamando de mãe antes de entenderem que eu não era.

Abri a torneira. Água fria.

Sempre funciona. Ou quase.

Não aceitei naquela noite.

Não aceitei no dia seguinte.

Mas o nome dele começou a aparecer nos noticiários. Não pelos filhos. Nunca é pelos filhos.

Empresário. Visionário. Estratégico.

Sempre essas palavras vazias.

E algo me incomodava mais do que deveria:

Ele parecia… perdido.

Não frágil. Não arrependido.

Perdido.

O que não o tornava menos perigoso.

O encontro aconteceu três dias depois.

Não porque eu quis.

Porque a vida não pergunta.

Sue insistiu. Eu impus condições.

Nada de compromisso imediato.

Nada de visita aos bebês.

Nada de contrato.

Só conversa.

A casa de Nate era exatamente como eu imaginei: grande demais, silenciosa demais, cara demais para ter calor.

Ele estava na sala quando cheguei. De preto. Olheiras profundas. Postura rígida demais para alguém que não dorme há dias.

Não era bonito do jeito óbvio.

Era intenso.

O tipo de homem que ocupa espaço sem pedir permissão.

— Tessa — ele disse.

Não estendeu a mão. Ponto para ele.

— Nate — respondi. Sem “senhor”.

Vi a microtensão no maxilar.

Primeiro atrito.

— Obrigado por vir.

— Não agradeça antes da hora.

Silêncio.

— Sue disse que você tem experiência.

— Tenho necessidade — corrigi. — Experiência veio como efeito colateral.

Ele me analisou. Não como homem. Como estrategista.

— Eu não sei o que estou fazendo — disse, direto.

Isso me pegou desprevenida.

Ricos costumam fingir controle até o último segundo.

— Ótimo — respondi. — Começamos sendo honestos.

— Não pedi para isso acontecer.

— Ninguém pede filho — falei. — Eles acontecem. Ou você fica, ou traumatiza alguém.

Ele respirou fundo.

— Você me odeia por acaso?

A pergunta veio crua. Sem defesa.

— Não — respondi. — Eu odeio o que você representa.

— E o que é isso?

— A ideia de que sempre haverá alguém para limpar a bagunça.

Algo mudou no ar.

Não suavizou. Endureceu.

— Eu não estou tentando fugir.

— Está tentando terceirizar.

Ele se levantou. Andou até a janela. A cidade aos pés dele como um tabuleiro.

— Eu só não quero estragar a vida deles.

— Spoiler: você vai. — cruzei os braços. — A diferença é se vai ficar para consertar depois.

Ele virou. Olhou direto para mim.

— Você falaria isso para qualquer pai?

— Só para os que acham que dinheiro compensa ausência.

Silêncio pesado.

Gostei. Não porque estava ganhando.

Mas porque ele estava ouvindo.

— Eu ainda não aceitei nada — avisei. — E talvez não aceite.

— Eu sei.

— E se eu aceitar, não vai ser para te poupar. Vai ser pelas crianças.

— Eu entendo.

Mentira.

Mas uma tentativa honesta.

Quando fui embora, percebi algo que me irritou profundamente:

Eu queria ficar mais um pouco.

Não por ele.

Pelos bebês que eu ainda nem tinha visto.

Ódio e atração são parentes próximos.

E eu reconheci o início do problema quando já era tarde demais.

Nate Blackwell não era só mais um rico.

Era um homem quebrado com dinheiro suficiente para esconder isso.

E eu sempre fui péssima em ignorar coisas quebradas.

Mesmo sabendo que, no final, quem costuma se estilhaçar sou eu.

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