Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu precisava fugir antes que a realidade se acomodasse demais.
O carro deslizou pela garagem silenciosa, e por um segundo eu quase pedi para o motorista parar. Quase. Ainda dava para voltar, ainda dava para fingir que aquela manhã não tinha acontecido do jeito que aconteceu.
Mas aconteceu.
E ficou grudada em mim como cheiro de leite morno e fracasso recente.
Tessa estava na sala quando eu desci, já com os cabelos presos de qualquer jeito e a postura de quem não pede licença para ocupar espaço. Não tinha começado a “trabalhar”. Não oficialmente. Ainda assim, a casa parecia diferente. Menos barulho. Mais lugar habitável.
Ela segurava um dos bebês com naturalidade irritante. Não havia tensão no corpo dela. Não havia aquele cuidado exagerado de quem tem medo de errar. Havia firmeza. Segurança. A confiança de quem já fez aquilo antes, muitas vezes, sem plateia e sem opção de falhar.
Eu observei da escada. Em silêncio. Como um intruso na própria casa.
O outro bebê estava no berço, acordado, mas quieto. Os olhos escuros se moviam, atentos, como se estivessem catalogando o mundo.
— Eles fazem isso — Tessa disse, sem olhar para mim. — Um chora, o outro observa. Já reparou?
— Não — respondi.
Ela arqueou uma sobrancelha, finalmente me encarando.
— Não reparou ou não teve tempo?
Engoli seco.
— Os dois.
Ela assentiu, como se já esperasse essa resposta.
— Você vai trabalhar hoje? — perguntou.
— Vou.
— Vai voltar que horas?
— Não sei.
— Então descubra. — disse, simples. — Bebê não gosta de surpresas. Nem de pai fantasma.
Aquilo bateu onde devia.
Sem raiva. Sem acusação direta. Só verdade nua.
Ela voltou a atenção para o bebê em seus braços, falando baixo, uma sequência de sons sem sentido que, ainda assim, parecia fazer todo o sentido do mundo para ele.
— Você já pensou nos nomes? — ela perguntou, casual, como quem pergunta se já tomou café.
A pergunta me atingiu com um atraso constrangedor.
— Nomes?
Ela virou o rosto devagar. Não com choque. Com algo pior: constatação.
— Sim. Nomes. Aquilo que as pessoas usam para chamar os filhos.
O silêncio se esticou entre nós.
— Eu… — comecei, e parei. — Não.
Ela não reagiu imediatamente. Não suspirou. Não revirou os olhos. Só observou. Como alguém avaliando o tamanho de um problema antes de decidir por onde começar.
— Você não pensou nisso — disse, por fim.
Não era uma pergunta.
— Não tive tempo — repeti, soando patético até para mim mesmo.
— Você teve tempo de comprar berços, babás eletrônicas, roupas de marca que eles vão perder em três dias — rebateu. — Mas não teve tempo de pensar em como vai chamá-los.
— Eu ainda estou tentando entender tudo isso — me defendi.
— Eu sei. — ela respondeu. — Mas entender não suspende o básico.
O bebê em seus braços fez um som pequeno, quase um resmungo. Ela ajustou a posição automaticamente.
— Você pode escolher — falei, antes de pensar demais.
Ela parou.
— Como é?
— Os nomes. — continuei, sentindo algo estranho no peito. — Você conhece mais isso do que eu. Pode… pode fazer isso.
Ela me olhou como se eu tivesse acabado de atravessar uma linha invisível.
— Não — disse, seca.
— Por quê?
— Porque nome é raiz. — respondeu. — E raiz não se terceiriza.
A resposta foi rápida demais para ser improvisada.
— Mas você vai ficar com eles — argumentei. — Pelo menos por enquanto.
— Eu vou cuidar. — corrigiu. — Não substituir você.
Silêncio de novo.
— Então pense — ela completou. — Nem que seja nomes provisórios. Mas pense.
Ela colocou o bebê no berço com cuidado, ajustando a manta, e pegou o outro antes que ele começasse a reclamar.
— Eles merecem isso — disse, sem me olhar.
Eu assenti, mesmo sabendo que aquilo não resolvia nada.
No carro, a cidade parecia a mesma de sempre. Vidros, aço, pessoas andando rápido demais para se importarem com qualquer coisa além do próprio atraso. Era o meu território. Sempre foi.
E, pela primeira vez, eu me senti deslocado nele.
Meu celular vibrou com notificações do trabalho. Reuniões. Números. Decisões pendentes. Pessoas esperando respostas rápidas e certeiras.
Tudo o que eu sempre soube fazer.
Ainda assim, minha cabeça estava presa naquela sala clara demais, naquele silêncio quebrado por respirações pequenas, naquela mulher que me tratava como um homem comum que precisava aprender o óbvio.
No elevador do prédio, observei meu reflexo. Gravata perfeita. Postura impecável. Olhos cansados demais para combinar com o resto.
Quando foi que eu me tornei alguém que não sabe o nome dos próprios filhos?
A pergunta não vinha com drama. Vinha com vergonha.
A reunião começou pontualmente. Como sempre.
Todos falaram. Eu ouvi. Respondi. Decidi.
Por fora, tudo funcionava.
Por dentro, eu estava em casa, vendo Tessa segurar um bebê como se aquilo fosse uma extensão natural do corpo dela.
— Nate?
Piscar. Voltar.
— Sim.
— Você concorda com a proposta? — perguntou um dos diretores.
— Concordo — respondi, automático.
Assinaturas. Mais números. Mais dinheiro.
Nada daquilo parecia real.
No intervalo, fui para minha sala e fechei a porta. Peguei o celular e abri a lista de contatos, sem saber exatamente o que procurava.
Acabei em anotações.
Criei uma nova.
Dois nomes.
Dois espaços em branco.
Fiquei olhando para aquilo por tempo demais.
Não era falta de ideias. Era medo de errar. Medo de tornar aquilo definitivo demais.
Porque nome é permanência.
E eu sempre evitei permanências.
Pensei em Livia. Na maneira como ela ria. No jeito descuidado de viver como se o amanhã fosse opcional. Ela nunca falou sobre filhos. Nunca falou sobre futuro.
Talvez tivesse pensado nos nomes. Talvez não.
O peso daquela possibilidade me apertou o peito.
Apaguei a nota.
Quando a reunião seguinte começou, meu telefone vibrou de novo. Desta vez, uma mensagem.
Tessa.
> Eles comeram. Os dois.
Um dormiu. O outro está acordado, quieto.
Estou ficando.
Ficando.
A palavra parecia grande demais para uma mensagem tão curta.
Respondi antes que pudesse reconsiderar.
> Obrigado.
Ela visualizou. Não respondeu.
Bom.
Ela não era do tipo que precisava preencher silêncios.
O resto do dia passou em câmera lenta. Tudo parecia menor. Menos urgente. Menos importante.
No fim da tarde, quando voltei para o carro, a cidade estava dourada pelo pôr do sol. Um tipo de beleza que eu costumava ignorar.
— Para casa — falei ao motorista.
E, pela primeira vez, aquilo não soou como retorno a um espaço vazio.
No caminho, pensei nos nomes outra vez. Não como obrigação. Como tentativa.
Falei alguns em voz baixa. Testei o som. O peso. Nenhum parecia certo. Todos pareciam grandes demais para corpos tão pequenos.
Talvez Tessa tivesse razão.
Talvez nome não fosse coisa que se escolhe sozinho, trancado numa sala de vidro.
Quando cheguei, a casa estava diferente. Não mais silenciosa. Havia vida. Um tipo de desordem organizada que eu não reconhecia, mas que não me incomodava.
Tessa estava no tapete, sentada no chão, um bebê encostado no peito, o outro deitado ao lado, olhando para o teto.
Ela levantou os olhos quando me viu.
— Você voltou cedo.
— Tentei.
Ela assentiu.
— Eles ficaram bem.
Não disse “eu cuidei”.
Disse “eles ficaram”.
Sentei no chão, sem saber exatamente como me encaixar naquela cena. Um dos bebês virou o rosto na minha direção. Os olhos encontraram os meus por um segundo.
— Ei — murmurei, inseguro.
Ele não chorou.
Não sorriu.
Só me observou.
— Eles reconhecem vozes — Tessa disse. — Mesmo que você não saiba os nomes ainda.
Ainda.
Ela não me julgou. Não naquele momento.
— Eu vou pensar — falei.
— Pense de verdade — respondeu.
Assenti.
Fiquei ali, no chão, com pessoas que eu ainda não sabia como chamar, tentando aprender como ficar.
Não como bilionário.
Não como chefe.
Como alguém que finalmente entendeu que algumas coisas não se resolvem com dinheiro.
E que nomes…
nomes exigem presença.







