Mundo de ficçãoIniciar sessãoCinco anos atrás, Valentina desapareceu sem deixar rastros. Hoje, ela vive como Tina: uma mulher que se reconstruiu sozinha, sem passado, sem origem, e com uma filha que ama mais do que o próprio ar. Mas tudo muda quando Máximo, o homem que jurou nunca desistir dela, aparece em sua porta… e a reconhece. Para ele, é o reencontro da vida. Para ela, é o confronto com uma história que não lembra, com escolhas que não fez, e com uma versão de si mesma que talvez nem queira recuperar. Entre lembranças fragmentadas, verdades malditas e um amor que insiste em atravessar qualquer escuridão, Tina precisa decidir se confia no homem que diz ser seu marido — ou se protege a mulher que aprendeu a ser. Porque reencontrar o passado é fácil. Difícil é aceitar que duas versões de uma mesma alma podem amar… e desejar caminhos diferentes. Em Outra Metade de Mim, descobrimos que o coração nem sempre volta ao ponto onde parou — às vezes, ele renasce em outro lugar. E cabe a cada um escolher qual metade vai se sobressair.
Ler maisItália
janeiro 2018 Eu ainda nem tinha tirado a gravata quando ouvi a risada dela atravessando o corredor. Aquela risada doce, alta, afinada no tom exato que costumava me desmontar e agora só servia para me lembrar o quanto eu estava ficando velho demais para esse jogo. Empurrei a porta da sala. E lá estava Valentina. De pé no meio do nosso apartamento de cobertura, luz quente, câmera do celular levantada, a pose ensaiada até a alma: lingerie preta rendada, salto fino, boca aberta num biquinho calculado. O pior não era a pose. Era o olhar. O olhar de quem sabe exatamente que está sendo observado por centenas… e que gosta da sensação. — Sério isso? Minha voz saiu mais rouca do que eu queria. — Você tá fazendo live? Ela nem virou. Girou o quadril, inclinou o queixo e piscou para a própria imagem na tela. — Stories, Máximo. Relaxa. A risada veio carregada de veneno doce. — Alguém nessa casa precisa ser interessante. Respirei fundo. Péssima ideia. O perfume dela me acertou como um golpe: baunilha quente misturada a alguma malícia recém-passada nos ombros. — Interessante? Tirei a jaqueta e joguei no sofá. — Trabalhando para manter esse apartamento onde você grava seus teatros diários? Ela desligou a câmera com um clique exagerado e finalmente me encarou. Valentina tinha aquele tipo de beleza que parecia ter sido inventada para me torturar: olhos brilhantes demais, boca provocante demais, expressão que trocava de inocente para cruel numa velocidade que deixava minha pressão instável. — Aí vem você com seu discurso de mártir, ela rebateu, cruzando os braços. — “Ah, Valentina, eu trabalho muito, Valentina, eu pago tudo, Valentina…” Você vive para essas suas reuniões intermináveis, Máximo. Eu existo para quê, hein? Para quando você tiver tempo? — Você existe para si mesma. Soltei, duro. — E para qualquer homem que aparece nos seus DMs pelo jeito. Ela deu um sorriso de canto. Sorriso perigoso. — Ciúmes? Ou só mais um ataque de controle? — Eu só não quero minha esposa flertando com metade da Itália ao vivo. — Não começa, Máximo. — Quem começou foi você, avancei um passo. — Postando foto quase nua enquanto eu mato um leão por dia para essa vida de vocês… — Vocês? Ela riu, indignada. — Acha que eu vivo de graça? Eu também trabalho, querido. Só que o meu trabalho é ser vista. E aí entendi: ela estava provocando de propósito. Ela queria briga. Ela queria o fogo. E infelizmente… eu também. — Você precisa de atenção masculina vinte e quatro horas. Falei, baixo, firme. — E isso tem nome, Val. Ela se aproximou até quase colar o peito no meu. Um centímetro. Dois. O suficiente para minha respiração falhar. — Tem nome, sim. Ela respondeu. — Carência. A que você alimenta com esse seu jeito de gelo. Eu me sinto… invisível. E sabe o que é mais triste? Ela tocou meu peito com o dedo. — Eu fico apavorada de um dia deixar de ser desejada. Ela nunca admitia vulnerabilidade. Nunca. Aquilo me desmontou. E me irritou. As duas coisas ao mesmo tempo, um inferno particular. — Eu te desejo. Sussurrei, segurando seu pulso antes que ela afastasse a mão. — Mais do que deveria. Ela tentou rir, mas a voz falhou. E eu… cedi. Puxei-a pela cintura, com força. Ela ofegou, não de dor, de impacto. Valentina sempre foi movida a intensidade. Encostei-a na parede. O corpo dela arqueou no meu. A boca dela soltou um som que, se ela pudesse apagar da memória, apagaria. O beijo veio como tempestade que não avisa: raivoso, urgente, quente demais. Ela me arranhou o pescoço. Eu apertei sua cintura. E por um segundo, um mísero segundo, nós dois lembramos por que nos casamos. Aí o feitiço quebrou. Ela me empurrou. Com força. O tapa veio logo depois, rápido, calculado, ardido. — Você me sufoca! Ela gritou, a voz quebrando no final. — Eu não posso respirar perto de você! Fiquei lá, parado, com a marca da mão dela queimando na minha pele. Ela tremia. Eu tremia. E o silêncio que caiu entre nós era pesado, denso, quase vivo. — Então respira. Respondi, finalmente. — Respira. E decide se quer continuar lutando comigo ou se prefere lutar contra mim. Os olhos dela brilharam, não de raiva. De medo. Medo dela mesma, do que sente, do que perde… e talvez do que ainda deseja. E sem dizer mais nada, Valentina passou por mim, o perfume cortando o ar como um aviso e um pedido de socorro ao mesmo tempo. A porta bateu atrás dela. E o apartamento ficou grande demais. Fiquei alguns minutos encarando a porta fechada, sentindo meu próprio pulso no lugar onde ela me bateu. Um tapa dela sempre vinha cheio de significado: raiva, medo, desejo, tudo misturado como uma coqueteleira emocional quebrada. E eu? Eu era o idiota que sempre bebia o resultado. Quando finalmente respirei fundo o suficiente para não socar a parede, fui atrás dela. Valentina estava na cozinha, sentada no balcão de mármore com as pernas cruzadas, ainda de lingerie, segurando um copo de água como se fosse um champanhe. Não chorava. Não gritava. Só encarava um ponto fixo na parede, como se estivesse tentando reorganizar os próprios esqueletos internos. — Val… Comecei. Ela ergueu a mão, pedindo silêncio. Não funcionou. Nunca funcionava comigo. — A gente não pode continuar assim. Falei, chegando mais perto. — Só brigando. Só… quebrando. Ela soltou uma risada curta, cínica. — Engraçado você dizer isso. Você vive ocupado demais para perceber que a gente já quebrou faz tempo. — Então vamos tentar colar. Rebati, firme. Ela finalmente desviou o olhar da parede e me encarou. Havia um vermelho leve nas bochechas, não do tapa, mas daquele momento de tensão pós-briga em que ela sempre parecia mais viva. Mais perigosa. — Tentar como? Perguntou, cruzando os braços. — Você vai passar menos tempo trabalhando? Vai parar de controlar minha vida? Vai me deixar respirar? A última frase veio com uma pontada tão amarga que doeu. — Eu quero tirar você daqui. Falei. — Da rotina. Da gente assim. A gente precisa de… ar. Ela arqueou uma sobrancelha. — Que tipo de ar? — Campos do Jordão. Valentina piscou, surpresa. — Campos do Jordão, no Brasil? Repetiu, com uma risadinha. — Vai me levar para o frio? Tá achando que eu sou o quê, um chocolate quente? — Você adorava lá. Lembrei. — Antes de tudo virar essa guerra. Lembra? A lareira, a mantinha ridícula que você roubou do hotel, o fundue… — Eu vomitei aquele fondue. Ela me interrompeu. — Mas riu enquanto vomitava. Ela tentou segurar o sorriso. Tentou. Perdeu. Um canto da boca dela cedeu, e o sorriso apareceu, fraco, mas real. Uma brecha. Uma entrada. — Quanto tempo? Perguntou. — Um fim de semana. Só nós dois. Vamos comemorar nosso aniversário de dois anos, onde tudo começou. — A voz saiu mais suave que o planejado. Para tentar lembrar quem éramos quando tudo isso ainda fazia sentido. Ela ficou quieta. O silêncio dela nunca era neutro, era barulhento, cheio de pensamentos correndo na cabeça como corredores de Fórmula 1. — E se não der certo? Perguntou, baixinho. Me aproximei devagar, como se ela fosse um animal arisco que podia fugir ao menor movimento. Toquei a mão dela sobre o balcão. Ela não puxou. Pequena vitória. — Aí a gente encara. Respondi. — Mas… se ainda existe algo aqui, Valentina, alguma coisa, qualquer faísca… a gente precisa testar. Antes que reste só fumaça. Ela engoliu em seco. O olhar dela desceu para nossas mãos, depois subiu para o meu rosto. Havia ali um brilho. Não de paz…Valentina nunca teve isso, mas de hesitação carregada de desejo. — Você vai me levar só para me exibir para o pessoal da montanha? Provocou, tentando recuperar a pose. — Vou te levar porque, quando você está longe de telas, você volta a ser você. — E quem sou eu, Máximo? Cheguei mais perto. O perfume dela bateu no meu peito como fogo lento. — A mulher que me enlouquece. E não no mau sentido. Ela riu. Riso pequeno, quase tímido. Quase. — Tá bom. Murmurou. — Campos do Jordão. Um fim de semana. Não prometo nada além disso. — Já é mais do que eu esperava. Ela escorregou do balcão, ficando tão perto que meu autocontrole saiu pela janela. — E nem pense que isso significa que você pode escolher minhas roupas. Avisou, erguendo o queixo. — Eu vou postar, eu vou gravar e eu vou mostrar a beleza natural do meu rosto congelando no frio. — Faz o que quiser. Respondi. — Só… vem comigo. Ela passou por mim, deixando um rastro de perfume que sempre parecia carregar uma ameaça e uma promessa. — Vou arrumar as malas. Disse. — E você tenta não ser insuportável até lá. — Sem garantias. Ela sorriu de novo. E, por um instante, tivemos paz.De volta ao Brasil, Máximo finalmente convenceu Tina a se mudar para o apartamento dele em Pindamonhangaba.Tina olhou ao redor, suspirando.O apartamento era grande, ensolarado e cheio de promessas de rotina… algo que ela nunca teve.Máximo segurou a mão dela, com aquele sorriso protetor que ela conhecia tão bem.— Vai ficar aqui em segurança. Prometo que você pode ter um jardim em cada prédio da firma.Deu uma pausa.— Ah, e contratei uma governanta para cuidar da Mel quando a gente viajar.Tina arregalou os olhos.— Uhu! Então quer dizer que vou viajar pelo país fazendo jardins?— Hm… não sei se isso é bom. Ele provocou.— Claro que é! Tina riu. — Vou ser conhecida no Brasil inteiro pelos meus jardins encantados.Máximo fingiu pensar.— Então, vou precisar ajustar minha agenda. Viajar com você para todos os hotéis.— Um casal itinerante! Tina vibrou.Ele deu aquele meio sorriso perigoso.— E inaugurar todos os jardins do nosso jeito. Transando com você.— Max! Ela fingiu indignação
A chegada ao palacete tinha gosto de ferro.Máximo estacionou o carro com uma calma tão forçada que até o volante parecia rezar pela paciência dele.Desci com a Melinda grudada em mim. Ela ainda fungava baixinho, tentando se acalmar depois do que aconteceu.Francisco apareceu primeiro… pálido, visivelmente aliviado. Abriu os braços num impulso automático, mas eu me limitei a um aceno educado.Não dava para abraçar ninguém enquanto o coração ainda batia com cheiro de susto.Felipa veio logo atrás.Veio como sempre vinha: postura impecável, queixo erguido, voz doce como veneno com mel.— Valentina… minha filha… eu… me desculpe. Foi… um mal-entendido.Mal-entendido.Claro.O tipo de “mal-entendido” que quase faz uma criança fugir sozinha, à noite, em outro país.Respirei fundo e falei antes que Máximo abrisse a boca.— Eu não aceito suas falsas desculpas.Felipa piscou, como se tivesse levado um tapa de luva de pelica.— Você precisa compreender… tudo aconteceu muito rápido… sua mudança,
Mel subiu para dormir.E foi aí que começou a terceira guerra mundial.Felipa caminhava pela sala como uma rainha ultrajada, cada passo um protesto silencioso contra o que ela chamava de decadência.— Valentina, você mudou demais. A voz saiu carregada de desprezo. — Como pode achar que eu aceitaria isso sem questionar? Você aparece aqui com uma… criatura… e quer que eu a aceite como neta. Ela não é minha neta. Não tem o meu sangue. E nunca vai se portar como uma dama. Entrelacei os braços.— Graças a Deus, eu mudei.Felipa virou-se bruscamente.— Essa rebeldia é capricho. Olha só para você, nem parece minha filha. Achei que, conforme sua memória fosse voltando, minha menina voltaria.Você não é minha Valentina e não pode simplesmente trazer uma criança e achar que…— Chega. Ergui a mão. — Eu não vou permitir que vocês falem dela desse jeito. E não vou deixar que tentem controlar a minha vida de novo.Francisco, visivelmente exausto, passou a mão pelo rosto antes de intervir.— Felipa
Arrumar malas sempre foi uma coisa mecânica para Valentina, mas para Tina não.Roupas dobradas, sapatos separados, tudo no lugar certo. Controle. Ordem. Silêncio.Hoje a mala está aberta no chão do quarto e eu fico encarando o que colocar dentro como se cada peça de roupa fosse uma decisão emocional importante demais para uma simples viagem.Dobro uma blusa. Desdobro. Troco por outra.Suspiro.Levanto o olhar sem perceber… e encontro Máximo encostado no batente da porta, braços cruzados, observando em silêncio.Não diz nada.Nunca diz.Mas o olhar dele diz: estou aqui.E isso me desmonta um pouco toda vez.Mel passa correndo pelo corredor, arrastando a própria mala, maior do que ela.— MÃE! Você acha melhor levar dois tênis ou três? Porque assim… Madri é Europa, né? Vai que meus pés europeus exigem opções!— Mel, você vai ficar três dias. Respondo, tentando manter a voz firme. — Três tênis é praticamente um atentado à logística internacional.Ela ignora completamente.— Vou andar em a
Na manhã seguinte…— Eles se beijaram?! Mel sussurrou, virando a câmera para o corredor. E dormiram no quarto… juntinhos.Mel estava no sofá, de pantufas, segurando o celular numa posição claramente estratégica, tipo agente secreto barato.— Eu juro, Lucas, eles se beijaram. E não foi beijo de oi. Foi beijo de eu te amo, ela dizia, baixinho, mas cheia de emoção.Lucas, do outro lado da tela, suspirou.— Mel, você precisa estudar.— Não dá, isso aqui é entretenimento ao vivo. Isso aqui é praticamente um pay-per-view. Sou somente uma jornalista comprometida com a verdade. Já faz três meses e essa novela só fica melhor.— Jornalista? Lucas riu. — Você é sem-vergonha mesmo. E deixá-os no tempo deles.— Talento, querido. Nasci para isso.E então…Máximo atravessou o corredor rumo à cozinha, cabelo bagunçado, camiseta amassada… e uma cara que dizia perfeitamente: ouvi tudo.Sem nem parar de andar, ele soltou:— Mel, para de fofocar da minha vida com o Lucas. Vai estudar, que sua nota de mat
O quarto ainda estava mergulhado naquela penumbra azulada da madrugada quando Tina desistiu de fingir que conseguiria voltar a dormir. Algo dentro dela pulsava, não era ansiedade, nem medo. Era… saudade. Da mais perigosa: a que vem mansa.Ela se sentou na cama, respirou fundo e olhou outra vez para a cadeira no canto.Máximo continuava lá, enorme, dobrado de um jeito impossível, como se tivesse decidido lutar contra a gravidade e perdido feio.Tina levantou devagar, pés descalços no chão frio, e caminhou até ele.Aproximou-se.Devagar.Quase como se estivesse chegando perto de uma memória que pode se desfazer se ela respirar errado.Tocou o rosto dele com a ponta dos dedos.Era só para ver se ele estava bem.Só isso.Nada mais.Mas o calor da pele dele… a barba por fazer… aquele jeito desajeitado de dormir… tudo isso desarmou uma parte dela que estava trancada e ela nem sabia.Máximo continuou “dormindo”.Muito convincentemente.Até ela inclinar o rosto e encostar os lábios nos dele.





Último capítulo