Mundo ficciónIniciar sesiónA madrugada tinha aquele gosto amargo de déjà vu.
Whisky, silêncio, e o retrato de Valentina observando cada centímetro da ruína dele. Mas dessa vez, havia outro fantasma na mesa: a foto da mulher dos cabelos negros. Esticada ali, ao lado do copo, como se fosse uma acusação. Como se dissesse: “Você sabe quem eu sou… ou está morrendo de medo de saber.” Máximo largou a cabeça no encosto do sofá, o nó da gravata afrouxado, a camisa aberta no peito. Dormiu… se é que aquilo podia ser chamado de dormir, na mesma posição de sempre, como uma estátua quebrada que alguém esqueceu de recolher. Quando o sol bateu no rosto, ele abriu os olhos carregado daquele misto de ressaca e autopunição. Levantou devagar. Subiu a escada do apartamento como se estivesse subindo cada degrau em direção a uma sentença. No closet, abriu as portas de madeira e o cheiro suave de jasmim escapou como um fantasma gentil. O vestido preto de Valentina estava lá, impecável, guardado como se ela pudesse voltar a qualquer momento para usá-lo. Ele passou os dedos no tecido com cuidado, quase reverência. — Hoje não. Murmurou. Tomou um banho frio, prendeu a dor no fundo da garganta e colocou o terno mais escuro que tinha. Homens de gelo não derretiam. Pelo menos não na frente de ninguém. — Quando o elevador da diretoria se abriu, Rita estava plantada ali com uma expressão que gritava “corra enquanto é tempo”. Ela não disse nada. Apenas apontou para a sala com os olhos arregalados. Máximo ergueu uma sobrancelha. — Ah, ótimo. Resmungou. — Começou meu dia de merda. Entrou. E claro. Como um relógio sinistro, lá estava ele. Cruz. Investigador. Obstinado. E a personificação humana de uma enxaqueca. Máximo abriu um sorriso lento, quase maldoso, quase predatório. — Bom dia, Cruz. Disse, a voz tranqüila como lâmina recém-afiada. — Achei que tinha me esquecido. Sua visita mensal não seria ontem? O policial ajeitou a jaqueta, indiferente ao sarcasmo. — Bom dia, senhor Máximo. Eu nunca esqueço um caso mal resolvido. O olhar dele cintilou de satisfação. — Eu só estive um pouco ocupado discutindo com seu advogado… que tentou me impedir de vir até aqui. Mas resolvi o “pequeno detalhe”. Máximo deu um sorriso sarcástico. — Lucas é um bom amigo. Só quer me impedir de perder a paciência com você. Cruz deu um passo à frente. — E é exatamente esse o problema. Seu amigo é tão eficiente em sumir com qualquer indício que possa te incriminar… que às vezes eu me pergunto se ele não deveria trabalhar pra polícia. Máximo apoiou os cotovelos na mesa, calmo. — Já pensou na possibilidade de não haver indício porque eu não matei minha esposa? O investigador inclinou a cabeça, como quem já ouviu aquela frase mil vezes e continua achando uma péssima comédia. — Então me explica. Disse, fixo, frio. — Como ela sumiu? Máximo expirou fundo. — Não sei. Respondeu, firme. — Mas se um dia descobrir, o senhor será o primeiro a saber. Não porque merece… mas porque vai finalmente parar de encher meu saco. Cruz ignorou. Claro que ignorou. Ele adorava provocar. — Quer ouvir minha teoria? — Não. Respondeu Máximo, seco como um tiro, pegando papéis aleatórios para fingir que trabalhava. — Vou falar mesmo assim. Declarou Cruz, plantando os pés no chão. Máximo revirou os olhos. E o investigador começou, com a empolgação mórbida de quem adora contar uma história macabra. — Depois da briga no restaurante, você levou Valentina para o quarto. Isso é fato, todo mundo viu. Até aqui estou certo, não estou? Máximo ficou em silêncio. Mas o músculo do maxilar pulsou. Cruz continuou, saboreando cada palavra: — Lá dentro, acredito que a briga continuou. Começou a caminhar, devagar, na sala. — E o senhor, num ataque de ciúmes, ou enforcou sua esposa… ...Ou quebrou o pescoço dela com um soco. Ele fez um gesto com a mão, descartando a segunda hipótese. — Mas como acho que nem um homem forte como o senhor quebraria o pescoço dela com um único golpe… fico com o enforcamento. Disse, como se tivesse resolvido um quebra-cabeça. — Isso explicaria por que ninguém ouviu os gritos. Máximo cerrou os punhos. — Depois. Prosseguiu Cruz — O senhor entrou em pânico. Estava fora do país, com o corpo da esposa morta no quarto. Fechou a conta. Colocou o corpo no porta-malas. E saiu dirigindo. Ele parou diante da mesa, encarando Máximo sem piscar. — Aí… Disse numa voz quase teatral — o senhor parou na serra e jogou o corpo. A chuva forte ajudou, o mar engoliu tudo. Sem vestígios. Sem restos mortais. Um silêncio pesado caiu. Cruz baixou a voz. — O senhor saiu dali destruído pelo que fez. E com tanto peso na consciência… acabou provocando o acidente, na tentativa de fugir do país. Deu um último passo à frente. — E então, senhor Sforza… o que me diz? Só preciso saber em qual parte minha narrativa precisa de ajustes. Máximo levantou o olhar devagar. Os olhos dele estavam gelados, perigosos. Só faltava nevar dentro da sala. — Você errou só na parte… Disse, pronunciando cada palavra como se quebrasse algo por dentro — em que eu matei minha esposa. Fez uma pausa. Respirou. — Porque essa parte… Inclinou levemente o corpo para frente, a voz num sussurro letal — eu não fiz. Cruz sorriu. Um sorriso pequeno, torto, que dizia: “veremos.” E Máximo sentiu outra coisa queimando no peito. Raiva. Dor. E aquela foto da mulher de cabelos negros ecoando como um segredo prestes a explodir. Máximo passou a mão pela mesa, alinhando um papel que nem precisava ser alinhado. Era o tipo de gesto que ele fazia quando queria evitar quebrar alguma coisa… ou alguém. — Se sua visita já acabou, peço que saia. Disse, cada sílaba polida com desprezo. — Porque eu preciso trabalhar. Cruz ajeitou o coldre na cintura, um sorriso irritantemente satisfeito surgindo no canto da boca. — Claro, já vou. Respondeu, caminhando rumo à porta com a calma insolente de quem sabe que incomoda. — E até o mês que vem… Vou tentar estar aqui exatamente no dia 24. A não ser, é claro, que eu encontre provas de que o senhor matou Valentina Sforza. Ele abriu a porta, virou o rosto levemente… só o suficiente para jogar a provocação final. — Aí eu volto antes. Máximo ergueu o olhar, frio como aço recém-saído do gelo. — Então até o dia 24, Cruz. Falou com firmeza absoluta. — Porque sua busca vai continuar falhando. O policial analisou o rosto dele por um segundo a mais do que deveria. Como se procurasse um micro espasmo, uma rachadura, um sinal de culpa. Não encontrou. — Veremos. Murmurou. E saiu. A porta fechou com um clique suave… Mas o som reverberou na sala como um tiro. Máximo soltou o ar só então, não de alívio, mas de raiva comprimida. Pegou o celular. Olhou para o ícone do anexo. A foto da mulher de cabelos negros. E sussurrou, baixo, quase num desespero que ele jamais admitiria: — Se você for a Valentina… pelo amor de Deus… apareça. Porque se o Cruz achasse mais um motivo para duvidar dele… Ele próprio não sabia o que aconteceria. — O escritório estava mergulhado em silêncio, exceto pelo toque suave da chuva contra os vidros do último andar. Máximo Sforza fechou o laptop, sentindo o corpo inteiro protestar. Mais um dia longo. Mais um dia igual. Mais um dia sem Valentina. Ao atravessar o corredor de mármore, viu Rita ainda teclando como se pagasse boletos com velocidade. — Pode ir para casa, Rita. Disse, sem diminuir o passo. — Já ia, senhor. Respondeu ela, levantando os olhos. — Mas antes… a paisagista respondeu ao e-mail. Máximo parou. Piscou devagar. — Ah, sim. A moça de Monte Verde. Rita virou a tela para ele. Prezada Rita Agradeço o convite e confirmo minha presença para a reunião. Preciso apenas saber o endereço, o dia e o horário. Ah, e já aviso que não uso salto alto nem tailleur, tá? Minha elegância é botina, chapéu de palha e calça jeans. Tina Martins O silêncio de Máximo durou tempo suficiente para Rita sentir a reprimenda espiritual que ele estava lançando. — Botina, chapéu de palha e jeans? Repetiu, incrédulo. — É essa a profissional que você quer que eu contrate? Rita segurou uma risada. — Senhor… ela é paisagista, não Miss Universo. — Ótimo. Murmurou Máximo. — Vou parecer que contratei uma fazendeira para cuidar dos jardins da Fortunato Enterprise. — O senhor queria alguém autêntico. — Autenticidade, sim. Falta de filtro, não. Rita recolheu o laptop e se levantou — Tenho um pressentimento. O senhor vai gostar dela. Máximo ergueu uma sobrancelha. — Eu não gosto de ninguém, Rita. Eu contrato. O apartamento dele o engoliu em silêncio. O tipo de silêncio que fazia ecoar os próprios pensamentos, e os dele não eram exatamente amigáveis. Parou diante da lareira apagada e pegou o porta-retrato de Valentina. O sorriso dela, congelado no tempo, era uma mistura perfeita de luz e caos. O mesmo caos que tinha destruído tudo. Sentou-se no sofá, segurando o quadro com força. Flashback — Max, querido, ele é meu empresário. Ele já estava tenso. O sujeito parecia grudar nela. — Valentina, eu não gosto do jeito que ele te olha. — Ele é como um irmão. Ela riu, ajeitando o vestido. — É parte do meu trabalho, Máximo. Ela tocou o rosto dele com carinho, tentando dissolver a tensão. — Eu volto em uma hora. Prometo. — Achei que quando nos casássemos você ia parar com esses desfiles. Ela arqueou a sobrancelha, divertida. — Amo ser desejada, ver os homens babando em mim. Você me conheceu assim, lembra? Máximo tentou abraçá-la, puxá-la para perto, mas ela se soltou. — Para, Max… vai estragar minha maquiagem. Ela deu um beijo rápido no rosto dele e saiu… O peso do porta-retrato pareceu aumentar nas mãos dele. — O que aconteceu com você, meu amor? Sussurrou. — Como eu pude te perder? O celular vibrou. Ele atendeu automaticamente. — Sim, Rita? — Senhor, marquei a reunião com a senhorita Tina Martins para sexta, às dez. Máximo respirou fundo, ainda olhando para o sorriso congelado de Valentina na foto. — Muito bem. Que venha a paisagista da botina.






