Mundo de ficçãoIniciar sessãoA viagem foi tranquila, mas Valentina parecia agitada…tentei conversar, mas nada. Ela só sabia dizer que eu não a escutava, que eu não a via.
Mas eu estava ali por ela, pra ela…tudo que eu fazia não parecia o suficiente. O restaurante era todo iluminado por luzes âmbar, mesas de madeira escura, lareira acesa no canto e aquele cheiro de vinho quente com especiarias que gruda na pele. Parecia cenário de romance europeu, exatamente o tipo de lugar onde casais apaixonados se olham nos olhos e esquecem o mundo. Nós não éramos um desses casais. Valentina estava linda demais para o meu próprio bem: vestido curto, casaco elegante caído nos ombros, cabelo solto com ondas que pareciam feitas para me provocar. Ela falava pouco, mas o silêncio dela era barulhento como um trovão preso. A comida mal tinha chegado quando meu celular vibrou. Eu vi o nome na tela. Assunto urgente. Diretores. Dinheiro. Negócio. E fiz o que não deveria: — Preciso atender. Murmurei, levantando. O olhar dela mudou na hora. Um gelo lento tomando conta. — Máximo… Ela chamou, quase num aviso. Eu hesitei. Idiota. Mas atendi. Fui para a parte externa do restaurante, tentando ser rápido. Chuva fina começando a cair, cheiro de terra molhada, vento frio batendo no rosto. Resolvi a ligação em três minutos. Quatro, no máximo. Quando voltei… A mesa estava vazia. O casaco dela pendurado na cadeira. E a música tinha mudado para algo dançante, sensual, iluminando a pista com luzes quentes. Eu a encontrei lá. Valentina estava no meio do salão, rindo. Rindo daquele jeito que ela só ria quando queria me ferir e se sentir viva ao mesmo tempo. Um homem, alto, charmoso no estilo turista desavisado, nada demais, segurava a mão dela. Ele parecia tão confuso quanto encantado. Ela rodou no próprio eixo, cabelo voando, corpo colado ao dele sem pudor nenhum. Meu estômago virou vidro. Caminhei até eles como se cada passo fosse um insulto. — Valentina. Minha voz cortou a música, pelo menos na minha cabeça. Ela continuou dançando. De propósito. O cara sorriu, cordial: — Sua esposa é muito… — Sai. Olhei para ele com a promessa silenciosa de que eu quebraria o maxilar do sujeito se ele abrisse mais uma palavra. Ele entendeu. Se afastou rápido. A Valentina tentou seguir o ritmo, teimosa, venenosa, linda. Mas eu já estava perto demais. Agarrei sua cintura com firmeza, puxei seu corpo no ar sem esforço, ela soltou um grito ofendido, e a coloquei sobre meu ombro como se pesasse nada. — MÁXIMO! Ela bateu nas minhas costas. — Me coloca no chão! Você ficou louco?! Eu estava DANÇANDO! — Com outro homem. Minha voz vinha quente, baixa, perigosa. — Enquanto eu saí por três minutos. — TRÊS MINUTOS A MAIS DO QUE EU AGUENTAVA ESPERAR VOCÊ ME OLHAR! ela gritou. As pessoas observavam discretamente enquanto eu caminhava pelo restaurante com ela se debatendo como fogo vivo. O gerente fingia que não via nada, dinheiro manda muito bem em derrubar escândalos. No corredor, ela tentou se soltar. No elevador, me xingou em duas línguas. Na porta do quarto, prometeu minha morte social. Entrei, fechei a porta com o pé e só então a coloquei no chão. Valentina pousou como se fosse empurrada pelo próprio orgulho. O peito subia e descia. Os olhos brilhavam de raiva, mas também de algo mais profundo, dor crua, antiga, cansada. — Acabou, Máximo. Disse ela, entre os dentes. — Eu não aguento mais. — Você quer brigar porque eu atendi uma ligação? Rebati. Ela riu. Uma risada curta. Sem humor. Um som de quebrar. — Eu quero brigar porque eu não existo para você. Cada palavra vinha como uma facada limpa. — E quando eu tento existir, você me corrige, me controla, me manda calar. Eu tô morrendo aos poucos ao seu lado e você nem percebe. — Não me diz que dançar com outro homem foi sua forma de pedir atenção. Respondi, com vontade de quebrar o próprio espelho por ter dito aquilo. — NÃO FOI ATENÇÃO! Ela avançou. — FOI DESespero! A voz dela rachou no ar. — Porque eu te amo a ponto de doer, Máximo. E você ama o trabalho, ama o controle, ama a sua vida perfeita onde eu sou só um acessório decorativo. Ela respirou fundo. Muito fundo. Segurou o choro no limite entre o orgulho e a ruína. — Eu quero o divórcio. Senti o chão sumir sob meus pés. — Valentina, não… — Assim que a gente voltar para Itália. Ela continuou, firme, sem tremer, eu vou entrar com o pedido. E eu não quero escândalo, não quero discussão. Só quero sair. Sair de você. Meu peito apertou como se alguém tivesse colocado um gancho por dentro e puxado. Ela deu um passo para trás, como se eu fosse fogo demais. — Eu quero te apagar da minha vida. Sussurrou. As lágrimas apareceram, finalmente. — Se eu pudesse, eu te esquecia. A voz quebrou. — Eu arrancava você da minha cabeça com as próprias mãos. E pela primeira vez, Valentina disse algo que realmente me destruiu. Porque pela primeira vez, ela não parecia dramatizando. Ela parecia sincera. Cansada. Partindo. E nós dois não sabíamos ainda… …que seria a última noite dela comigo. A estrada parecia infinita, cortando a serra como uma fita cinza entre o verde úmido. O céu já pesava de chuva, e as primeiras gotas batiam no teto do carro como dedos impacientes. Campos do Jordão ficava para trás, bonito, gelado, cheio de memórias que quase salvaram alguma coisa. Quase. Valentina estava com o rosto apontando para janela, óculos enormes, cabelo preso com pressa. Eu conseguia ver a marca da mordida no lábio inferior, ela fazia isso quando estava tentando se controlar. Eu ainda acreditava que o fim de semana tinha sido bom. Ingênuo da minha parte. — Você vai ficar muda até chegarmos? Perguntei, tentando manter o tom leve. Ela virou só o suficiente para me enxergar. — Você quer mesmo abrir discussão aqui, Máximo? Na estrada? Com chuva? A voz vinha fina, gelada. — Pelo amor de Deus. — Não tô discutindo. Só tô tentando entender onde foi que te perdi dessa vez. Ela riu…aquele tipo de riso que corta. — “Dessa vez”? Engraçado. Você perde a gente toda semana, Máximo. E depois tenta recuperar com hotel caro, fondue e meia taça de vinho como se eu fosse uma boneca desmemoriada. — Eu tô tentando consertar. Rebati, apertando o volante. — FOI ISSO QUE EU DISSE! Ela explodiu, virando de vez para mim. — Você sempre “tenta consertar” as coisas! Como se eu fosse o defeito! A chuva engrossou de repente, tamborilando no vidro. — Val, pelo amor de Deus, não começa aqui. Pedi, sentindo a curva se aproximar. — Me deixa dirigir. A gente conversa depois. — Depois, depois, depois. Ela repetiu, debochada. — Sempre depois. Você sempre me deixa para depois, Máximo. — Não é verdade. — É sim! Ela bateu a mão no painel. — Eu te pedi para não atender aquela ligação ontem e você ATENDEU! Eu te pedi para olhar pra mim e você olhou para o maldito e-mail! A gente estava tentando, e você… você… — Eu estava trabalhando! Explodi. Ela se inclinou para frente, furiosa. — Trabalhando. Sempre essa porra de trabalho! Você não me escuta! NUNCA! — Eu tô escutando agora! Gritei de volta. — Não tá! A voz dela quebrou. — Porque se tivesse… você saberia que eu tô cansada. Eu tô com medo. Eu tô… eu tô perdendo você e eu não sei mais o que fazer! O carro passou por uma poça mais funda e derrapou levemente. Nada grave, nada demais. Mas o susto deixou o ar elétrico. — Val, chega. Minha voz saiu firme, seca. — Eu preciso que você se acalme. Agora. Ela respirou fundo. Muito fundo. E isso, em Valentina, nunca foi bom sinal. — Você quer que eu me acalme? Sussurrou, com um brilho perigoso nos olhos. — Então olha para mim, Máximo. Pelo menos uma vez. — Eu tô dirigindo. Respondi. E aí tudo desmoronou. Porque ela sorriu, triste, machucada, impulsiva… e fez o que eu mais temia. Ela puxou o volante. — ME OLHA, MÁXIMO! Gritou, puxando de novo. O carro saiu da pista tão rápido que meu cérebro não conseguiu acompanhar. — VALENTINA!! Agarrei o volante, tentando corrigir. — SOLTA ISSO! Mas já era tarde. Os pneus cantaram no asfalto molhado. O mundo virou um borrão de luzes, árvores, gritos. O para-choque atingiu algo… um guard rail, um tronco, não sei, e o impacto rasgou o ar num estalo surdo. O cinto me segurou. O dela… eu não vi. O airbag estourou. O carro girou. Vidro quebrou. Um grito… talvez dela, talvez meu…se perdeu no caos. Quando tudo finalmente parou, o silêncio foi tão profundo que dava para ouvir meu próprio sangue correndo pelos ouvidos. — Val… Minha voz era um fio. — Valentina… Tentei me soltar. Dor explodiu na lateral do meu corpo. Tontura. Sangue. Não sei meu, não sei de onde. — Val? Chamei de novo, tateando o espaço ao lado. O banco dela estava vazio. Fragmentos de vidro. A porta semiaberta. Manchas escuras na chuva. Pânico puro me encharcou. — VALENTINA! Gritei, tentando sair, falhando, puxando o ar com força. A chuva batia no carro como aplausos de pesadelo. Sirene distante. Muito distante. Meu corpo cedeu. Antes de desmaiar, tudo que ouvi foi o eco da minha própria voz chamando o nome dela. E o nada respondendo.






