Mundo ficciónIniciar sesiónO sol ainda nem tinha se espreguiçando no céu quando Tina Martins começou seu ritual diário de colocar o mundo em movimento. Bateu na porta do quarto da filha com a energia de quem vai comandar um batalhão.
— Vamos, Melinda! Levanta, menina! Desse jeito vai chegar atrasada na escola! Do outro lado, uma voz sonolenta: — Já vou, mãe… você é exagerada. A escola está aqui do lado. Tina bufou, ajeitando o café. — Exagerada? Quando a professora te olhar torto e disser “bom dia, princesa atrasada”, lembra quem te avisou. Romeu, o gato vira-lata malhado, saltou para a pia. Tina o empurrou rindo. — Sai daí, curioso. Se continuar assim, vou te matricular junto com a Melinda. Abriu a janela. O vento fresco trouxe cheiro de terra molhada e jasmins, perfume que só quem amava plantar reconhecia. Aquele momento era o que ela chamava de “respirar com o mundo”. — Eu vou mexer no jardim do seu Orivaldo e não vou poder te esperar, avisou, pegando o chapéu. — Levanta logo! Melinda surgiu com o uniforme amarrotado, cabelo bagunçado e olhar de zumbi. — Tá bom, tá bom… já vi que discutir com o furacão não adianta. Tina sorriu torto. — Aprende, meu bem: o mundo é das plantas que florescem antes do sol. E volta lá para se arrumar, que você tá parecendo uma Joana louca. — Preciso mesmo ir tão arrumada? Resmungou Melinda. — Eu me sinto ótima desse jeito. Tina levantou a sobrancelha. — Sim. Você pode ter saído da rua, mas a rua ainda aparece no seu cabelo desse jeito aí. Melinda fez bico. — Acho que vou voltar para lá. Ninguém me mandava pentear o cabelo todo dia. O sorriso de Tina travou por um segundo breve, mas significativo. Antes de retomar o tom brincalhão: — Vai nada. E se for, eu te busco pela orelha. Melinda gargalhou e a abraçou. — Brincadeira, mãe. Eu gosto da escola. E gosto de me arrumar feito uma dama. — Minha ruiva. Tina suspirou, apertando o rosto da menina. — Vai ser a dama mais linda dessa cidade. E volta direto para casa depois da aula! — Entendido! Gritou Melinda, desaparecendo pela porta. O silêncio que ficou era cheio de significado. Tina respirou fundo, ajeitou o chapéu e murmurou: — Bora, mulher. As flores não se plantam sozinhas. O apito da leiteira se misturou ao toque do celular. Tina pegou o aparelho. — Número estranho. Se for banco oferecendo empréstimo, vou pedir para refinanciar meu bom humor. Abriu o e-mail: Prezada Sra. Tina Martins, A " Fortunato Enterprises" tem interesse em contratá-la para um projeto paisagístico… Ela franziu o nariz. — Fortunato o quê? Isso tem nome de empresa que cobra até o ar e em italiano ainda. Melinda reapareceu, já penteada: — Mãe, essa empresa é famosa! Acho que já vi na TV lida com tecnologia de ponta. — Deve ser. Tina cruzou os braços. — Mas famoso mesmo vai ser o pepino se acharem que vou atravessar o estado para plantar meia dúzia de samambaias por troco de pinga. — Mãe… você vive dizendo que quer um desafio novo. — Para mim, desafio novo é aprender a dobrar lençol de elástico. Isso é chique demais. Mesmo resmungando, algo dentro dela se mexeu. Um reconhecimento, ou deveria ser só gases mesmo, se até agora não lembrou de nada e porque não é para ser lembrado. Assim fingiu não ouvir, saiu de casa e seguiu sua rotina. Pegou os apetrechos, entrou na caminhonete velha que tossiu três vezes antes de ligar. — Vamos, minha guerreira. Você e eu contra o mundo. Chegou cedo na casa do seu Orivaldo. O portão rangeu como sempre. — Bom dia, seu Ori! Gritou. — Se o senhor não trancar esse portão, qualquer tatu perdido entra pra tomar café! O velho apareceu sorrindo. — Se entrar, boto ele para trabalhar contigo. Vai ver que tem talento para jardinagem. Tina gargalhou. — Então manda pegar a enxada, porque serviço não falta. Ajoelhou-se no canteiro, analisando as begônias. — Tá regando direito? — Todo dia. Mas elas só florescem mesmo quando você vem. — Normal. Até a planta sabe reconhecer gente boa. Ele riu. — E essa língua afiada continua? — Sempre. Já que não nasci rica, nasci sincera. Tina se levantou, limpando a terra na calça. Ela tinha presença de estrela e alma de chão batido: alta, cabelos negros lisos até o meio das costas, pele café com leite e um olhar de quem encara o mundo do jeito que ele vem. — Vou te contar, seu Ori… se toda manhã fosse assim, eu nem reclamava. — Mas reclamaria da calmaria. Provocou ele. — Você gosta de confusão, agitação e movimento — Só se for: confusão com flores, agitação do vento, nas folhas das árvores e movimento de minha filha indo e vindo da escola. — Tem algo te preocupando? Ele coçou o queixo encarado nela, hoje você está parecendo um livro de auto ajuda ambulante. Tina suspirou. — Uma tal de Fortunato Enterprises, uma firma grande de Pinda. Querem marcar uma reunião, parece que estão procurando uma paisagista. O velho assoviou. — Pindamonhangaba? Coisa de gente grande. Vai lá, menina. Mostra a eles o que uma mulher com coragem e uma pá faz. O nome da firma acendeu algo nela, uma pontada, um quase-susto. Como se uma lembrança quisesse sair do escuro, mas ficasse presa. Tina afastou esse eco como sempre fazia. — Talvez seja hora de mudar de cenário. Murmurou. — A vida sempre tem surpresa. Disse ele. — O segredo é não ter medo de florescer de novo. Tina respirou fundo. — Tem razão...o que pode dar errado? Se eu não gostar do jeito deles é só dizer não e voltar para minha vidinha pacata. Pegou o celular. Respondeu: Confirmo presença na reunião. Não uso salto. Minha elegância é botina e chapéu de palha. — Se não me quiserem pelo talento, sorri. Vão me amar pela sinceridade. — Você é um perigo com Wi-Fi ! O velho riu. Tina apenas piscou. Mas ao se abaixar de novo, a mão tocou automaticamente a pequena cicatriz no pescoço. Ela congelou. Um segundo. Dois. Nada veio. Nenhuma memória. Só um silêncio estranho demais para ser casual. E a sensação no abdômen... Medo? Não parecia ser medo... era, ansiedade ou saudade. Mas do quê? Esse era o ponto mais difícil, não tinha como saber, a mente era uma mancha cinza ou uma tela escura. Riu sozinha... Seu Ori tinha razão, ela estava muito auto ajuda hoje. Então respirou fundo, como sempre fazia e seguiu a vida.






