Cinco anos depois

Cinco anos.

Parece muito tempo quando você diz em voz alta, mas passa rápido demais quando a culpa dorme na sua cama.

Eu me acostumei ao som.

O som dos passos ecoando no meu apartamento grande demais.

O som do relógio marcando minutos que não levam a lugar nenhum.

O som da pergunta que nunca calou, onde está Valentina?

E claro, o som favorito da imprensa sensacionalista:

Máximo Sforza, suspeito eterno na tragédia que levou ao desaparecimento da esposa.

Acordo no sofá, se é que se pode dizer que dormi, não durmo uma noite inteira faz anos, na boca ainda o gosto do whisky que estava tomando antes de apagar. Olho no relógio uma da manhã.

Levanto.

Caminho até a cozinha.

Água gelada.

Silêncio.

A cidade lá fora faz barulho suficiente por nós dois.

Cinco anos desde o acidente.

Cinco anos desde que ela puxou o volante.

Cinco anos desde que ela desapareceu sem deixar vestígio e a polícia decidiu que um homem apaixonado também pode ser um culpado conveniente.

A briga no restaurante potencializou a condenação e o pior quando saímos do hotel, era de madrugada e ninguém a viu comigo.

E, ainda assim…

Eu penso nela como se fosse ontem.

A Valentina antes do caos.

A durante o caos.

E a depois, que eu nunca mais vi.

O investigador Cruz ainda aparece de vez em quando. Nunca diz nada abertamente. Nunca me acusa com palavras. Usa aquela tática nojenta de olhar demorado, silêncio prolongado, perguntas “protocoladas” ditas com voz calculada demais para ser neutra.

“Tem certeza que a discussão do restaurante acabou sem consequências mais graves?”

“O senhor lembra claramente da posição dela antes do impacto?”

“Alguma razão para ela ter fugido?”

Fugido.

Eles usam essa palavra há anos.

Fugido. Como se ela fosse capaz de simplesmente se levantar de um acidente e seguir andando pela serra de madrugada, ensanguentada, com chuva, só para me deixar.

Se bem que… Valentina era impulsiva o suficiente para isso.

Ou tinha sido.

Pego o celular.

Agenda lotada, compromissos que não me importam, reuniões que eu finjo ouvir.

A empresa cresceu desde então, trauma rende disciplina, disciplina rende dinheiro. Dinheiro rende mais silêncio.

Mudei para o Brasil, montei minha firma em Pindamonhangaba. Eu precisava estar mais perto, ajudar com as buscas, qualquer coisa.

Foco olhando no celular por alguns minutos.

A data pulsa na tela: 24 de maio.

A data do acidente.

E também o dia em que, todo ano, alguém me manda uma mensagem anônima e uma foto com a silhueta de uma mulher, dizendo:

“Eu a vi.”

Ninguém descobre de onde vem a mensagem, Meu amigo e advogado Lucas Amorim, todo ano tenta descobrir, mas até hoje não havia surgido nada que dissesse que realmente a pessoa estava falando a verdade, a foto poderia ser de qualquer pessoa.

Mas hoje veio algo diferente.

Um video

mal feito, amador e tremido, mas agora dá para ver com perfeição a mulher.

De costas.

Uma mulher descendo uma rua de paralelepípedos, roupa simples, cabelo escuro preso num coque bagunçado.

O corpo reconhece antes da mente conseguir reagir, ou eu quero tanto acreditar que acho que reconheço.

Valentina.

Ou alguém incrivelmente parecido.

Abri a imagem com os dedos trêmulos.

O coração dá um salto violento, antigo, familiar e dolorido.

E então a mensagem seguinte chega:

“Ela está mais perto do que você imagina, só não sei se você vai gostar do que vai ver.”

Joguei o copo na parede e falei sozinho, talvez esperando uma resposta.

O que você quer dizer? Onde ela está?

Claro que não veio resposta. Essas mensagens nunca vêm com manual de instruções, mapa, bússola ou pena de misericórdia. Elas vêm como punhal: silenciosas, certeiras e sempre no mesmo lugar onde já sangra.

Encostei as mãos na pia da cozinha. O granito gelado, duro, exatamente como o investigador Cruz descreve minha personalidade nos relatórios não-oficiais que, obviamente, eu não deveria ter visto.

“Controlador. Obsessivo. Perigoso em potencial.”

Perigoso.

A única coisa perigosa em mim é a esperança, essa filha da mãe que nunca morre de vez.

Parei a imagem, aumentei o tanto que consegui.

Eu aumento mais.

Mais.

Até virar quase um amontoado de pixels.

Mas… o jeito de parar.

A postura.

Os ombros levemente erguidos.

A inclinação do pescoço.

Isso não se inventa.

Isso não se falsifica.

Isso não se copia.

Isso é Valentina.

E pela primeira vez em anos, algo dentro de mim acorda. Uma fera antiga. Aquela que amava ela do jeito errado, mas amava. Aquela que sobreviveria a um tiro, incêndio ou à própria polícia só para colocar os olhos nela de novo.

Meu celular vibra de novo.

Lucas, ele deve ter recebido a notificação.

Atendi antes do segundo toque,  ele é um amigo muito persistente, enquanto todos desistiram ele ficou e passa por isso comigo todo ano e tenta me ajudar a desvendar esse mistério.

— Máximo, você já viu? Ele pergunta, voz baixa, alerta total.

— O vídeo? Vi.

— Esse número… não b**e com os anteriores. Já rodei pelo sistema. Nada no Brasil, nada na Itália. Sinal mascarado. Mas, Máximo…

— Fala.

— A rua do vídeo parece ser aqui. Pindamonhangaba. Periferia. Bairro antigo. Não quero te empolgar, mas…

Mas já empolgou.

Empolgou e derrubou qualquer tentativa de raciocínio lógico que eu ainda tinha.

— Manda o endereço.  Minha voz sai mais rouca do que eu esperava.

— Ainda não tenho um exato. Estou cruzando imagens do G****e…

— Lucas.  Eu corto. — Manda o que você tem. Agora.

Silêncio do outro lado. Ele sabe. Ele sempre soube. Cinco anos ajudando a carregar um morto vivo… eu.

— Te mando em cinco minutos. Mas não vai sozinho, espere o dia amanhecer.

Desliguei antes que ele comece com conselhos éticos, legais, racionais,  coisas que nunca funcionaram comigo.

Voltei para a imagem travada.

Ampliei outra vez.

A mão dela, ou o que parece ser…está segurando uma sacola de papel.

Padaria?

Mercearia?

Algo comum.

Algo simples demais para Valentina das joias, vestidos e dramas dignos de novela. Mas ao mesmo tempo… algo que ela sempre sonhou: ser normal. Invisível. Intocável pelo caos que ela mesma criava.

— O que você está fazendo…? Murmuro, dedo roçando a tela como se fosse a pele dela.

E então a terceira mensagem chega.

Sem foto.

Sem ameaça.

Sem assinatura.

Apenas algumas palavras que cortam meu fôlego:

“Pare de procurar, sua Valentina morreu.”

Eu rio.

Um riso curto, amargo, torto.

A primeira reação espontânea que tenho em anos.

Porque se existe uma coisa no mundo que me faz procurar mais é justamente alguém me mandando parar.

Coloco o celular no bolso.

Pego as chaves do carro.

Bato a porta com força suficiente para acordar o prédio inteiro.

Cinco anos sem respostas.

Cinco anos sendo acusado.

Cinco anos dormindo com um fantasma.

Se ela está viva…

Eu vou encontrar.

Se alguém está me usando…

Eu vou descobrir.

E se for realmente Valentina…

Então que Deus ajude quem quer que esteja ao lado dela hoje.

Porque eu não aprendi a desistir.

Aprendi a sobreviver.

E estou cansado de sobreviver sem ela.

Rodei as ruas que Lucas me enviou por horas, como um homem que procura oxigênio com as próprias mãos. Nada.

Nenhum sinal da mulher da foto, nem das casas que aparecem nela.

Nenhum perfume conhecido no ar.

Nenhum rastro, toque, sombra, pista… nada.

A madrugada foi virando aquela luz pálida e cruel do amanhecer, que sempre parece zombar de quem passou a noite inteira perdendo. E eu perdi. De novo.

Quando finalmente voltei para o meu apartamento, o céu já estava azulando, como se o universo estivesse começando o dia normalmente enquanto eu continuava preso no mesmo pesadelo.

Joguei as chaves no balcão.

Respirei fundo.

Não ajudou.

Tomei um banho rápido, água quente batendo nas costas como se pudesse afogar a frustração, não podia. Só deixou mais nítido o gosto amargo de ter chegado perto demais e, ao mesmo tempo, de mãos vazias.

Vesti a camisa social no automático e mecanicamente, como quem veste armadura.

A empresa.

A única coisa sólida neste meu mundo caótico e esburacado que se tornou minha existência.

Entrei no carro, liguei o motor e deixei o caminho me levar.

Pelo menos no escritório ninguém perguntava sobre Valentina.

Pelo menos lá ninguém falava de acidente, desaparecimento ou investigações intermináveis.

Lá… eu mandava.

Lá… eu controlava alguma coisa.

Ou pelo menos fingia que controlava.

Quando estacionei na garagem privativa do prédio, a sensação voltou,  aquele nó quente no estômago, metade ansiedade, metade raiva, e um pouco do veneno chamado esperança que insiste em me acompanhar feito sombra.

O elevador subiu devagar.

Me encarou no espelho polido.

Cara de homem exausto, barba por fazer, olhos que não dormem desde 24 de maio de 2018.

As portas abriram no andar da diretoria.

E antes mesmo que eu desse o primeiro passo, meu celular vibrou no bolso.

De novo.

Eu fecho os olhos por um segundo.

Rezo ou amaldiçoo… não sei ao certo.

Tiro o celular e vejo uma nova notificação.

Número desconhecido.

O mesmo estilo.

Mensagem curta.

“Você está chegando perto, mas pare, ela não merece voltar a viver no inferno.”

Meu coração disparou.

E dessa vez…

Veio junto um anexo.

Falei para o celular.

— Viver em um inferno, e o que vivi até agora? Foi o quê?

Entrei em minha sala e mergulhei em meu trabalho.

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