Furacão Tina Martins

Na sexta-feira

O ônibus parou diante do prédio imponente da Fortunato Enterprises, todo de vidro, aço e arrogância arquitetônica.

Tina desceu ajeitando o chapéu de palha, inclinou a cabeça e soltou um assobio.

— Credo… parece a mansão da Barbie rica. Murmurou. — Só que sem cor-de-rosa… e sem alma.

Puxou a mochila no ombro e atravessou o saguão com passos firmes, como alguém que não devia explicações nem para Deus.

O porteiro… um senhor simpático, com o uniforme impecável e sorriso acolhedor, ergueu os olhos assim que ela se aproximou, deu uma parada, balançou a cabeça e continuou.

— Bom dia, senhorita. Posso ajudar?

— Pode sim. Ela respondeu, encostando os cotovelos no balcão. — Sou Tina Martins, tenho reunião com a senhora Rita.

Ele piscou, surpreso.

— Ah… a paisagista! Seja muito bem-vinda. Mas… Baixou o tom, conspiratório — tenha cuidado com o senhor Máximo, você parece demais…

Tina franziu o nariz.

— Cuidado? Ele morde? Pareço demais o quê?

José tossiu para disfarçar o riso.

— Deixa para lá. Digamos que ele é… exigente.

Ela apoiou o queixo na mão, observando o saguão como se fosse uma vitrine de comportamentos caros.

— Máximo, né? Esse é o nome dele?

— Sim, senhora. Máximo Sforza.

— Hum… Tina estreitou os olhos, teatralmente. — Nome de vilão elegante. Ou de imperador do gelo.

José arregalou os olhos.

— Imperador do gelo?

— “O Imperador de Gelo”, meu querido. Disse com um sorriso debochado. — Livro da Gabriella Shibata. Homem poderoso, lindo… e emocionalmente incapaz de sentir. Bem, minha vibe literária.

O porteiro soltou uma risada, mas parou no meio quando a porta automática se abriu.

Os passos ecoaram pelo saguão.

Máximo Sforza entrou como quem não divide o mundo… governa. Terno cinza escuro impecável, expressão dura, olhar glacial.

Era o tipo de homem que não somente chega: domina o ar ao redor.

José se endireitou de imediato.

Tina, por outro lado, cruzou os braços, completamente fascinada, como quem vê um personagem saindo do livro.

— Ora, ora… Murmurou baixinho. — O império tem dono. E é muito bonito, para piorar.

Máximo passou por ela sem desviar o olhar da recepção, o perfume caro acompanhando o movimento. Mas… parou. Virou-se devagar, como se alguém tivesse puxado invisivelmente sua atenção.

Olhou Tina dos pés ao chapéu, silencioso.

Durou somente um segundo, mas o impacto ficou.

Havia algo… estranho. Familiar. Impossível.

Ele piscou, afastou o pensamento e retomou seu tom cortante:

— Rita vai recebê-la e levá-la até a sala de reuniões.

E saiu.

Tina acompanhou com os olhos, um sorriso malicioso crescendo.

— Pois é, José… “Disse” — Parece que o imperador acabou de decretar meu próximo passo.

José mordeu o lábio para não rir.

— A senhora é corajosa.

— Corajosa, não. Ela respondeu, ajeitando o chapéu com estilo. — Somente curiosa. E um pouco alérgica a rei mandão e gelado.

Agora entendi por que o jardim daqui morreu: ele congelou.

Seguiu adiante, o som das botinas ecoando pelo saguão como o anúncio de que alguém estava prestes a bagunçar o império.

Chegou à recepção e, com Rita, foi para a sala de reunião.

A sala parecia saída de uma revista de arquitetura.

Tudo simétrico. Impecável. Tudo tão silencioso que dava para ouvir o ego do ambiente respirando.

Paredes em cinza-claro refletiam a luz fria.

O piso de mármore brilhava a ponto de dar medo de pisar, parecia que cada passo tinha que ser aprovado por alguma comissão invisível.

E o ar-condicionado? O exército alemão não era tão preciso.

Rita entrou ao lado de Tina, brilhando de orgulho pela convidada.

A paisagista era um contraste vivo naquele cenário: fogo, sorriso real, energia solta…

Um raio de vida dentro de um freezer corporativo.

Tina tirou o chapéu de palha com um movimento leve, ajeitou o cabelo e olhou tudo com a calma de quem não estava minimamente impressionada.

— Senhor Sforza, esta é Tina Martins, a paisagista — anunciou Rita, com aquele sorriso de quem está prestes a ver um espetáculo.

Máximo ergueu o olhar do notebook. E o tempo… estalou.

Por um segundo, ele travou, como se alguém tivesse puxado o fio de energia dele da tomada.

A semelhança com Valentina atingiu como um soco lento e silencioso: o porte, o olhar firme, o modo de segurar o chapéu.

Mas havia algo que Valentina jamais teve: uma energia bruta, quente, desafiadora.

Tina estendeu a mão com um sorriso que parecia sorrir sozinho.

— Sou Tina Martins.

— Tina? Ele repetiu, baixinho, como se o nome tivesse um gosto desconhecido.

— Isso! Tina. Como Tina Turner.

— O senhor não deve saber quem é, né?

O canto dos lábios dele ameaçou um sorriso, uma raridade, quase uma lenda urbana.

— Sei quem é Tina Turner.

— Ah… então ainda existe esperança. Provocou.

Rita quase se engasgou tentando esconder uma gargalhada.

Máximo se inclinou um pouco para frente, analisando-a como quem tenta montar um quebra-cabeça de memória.

— Você tem parentes na Itália?

Tina arqueou uma sobrancelha, a postura mudou levemente.

— Não que eu saiba. Por quê?

— Seu sobrenome… é seu mesmo? Ou você é casada?

Ela cruzou os braços devagar, o olhar afiado.

— O senhor quer contratar uma paisagista… ou abrir uma delegacia?

O silêncio caiu como uma pedra na sala.

Rita ficou estática… aquilo era inédito.

Máximo percebeu o próprio erro, recostou-se, retomando o semblante controlado.

— Só curiosidade.

— Claro. Respondeu Tina, com um sorriso doce e mortal. — O senhor poderia começar perguntando sobre flores. Ia soar menos… interrogatório.

Rita andou em direção à porta, queria sair da sala antes que o riso escapasse.

— Rita, providencie um café para a senhora Martins. Ordenou Máximo, tentando recuperar terreno.

— Suco! Gritou Tina, antes de a secretária cruzar a porta. — De abacaxi!

Máximo a encarou como se ela tivesse solicitado um drink com glitter.

— Suco?

— Café me deixa elétrica. E, acredite, o senhor não quer lidar comigo… elétrica.

Rita sumiu no corredor com o riso estampado no rosto.

Tina puxou uma cadeira, sentou-se e abriu o tablet com naturalidade de quem já se sente dona do espaço.

— Então, vamos falar do jardim, imperador de gelo?

Ele franziu o cenho.

— Imperador?

— Apelido carinhoso. Disse ela, naturalmente. — O José me contou que o senhor é meio imperador. Eu só adicionei o “de gelo”.

Máximo piscou, incrédulo.

— José falou isso?

— Fique tranquilo. Foi só um comentário… Tipo: tome cuidado com o homem…

A expressão dele oscilou entre irritação e… curiosidade.

Tina levantou, abriu seu tablet e começou a mostrar as combinações de flores, mas estava difícil com uma mesa tão grande no meio. Então, deu a volta e parou ao lado dele e, sem perceber o efeito que causava, começou a mostrar as flores.

Rita chegou com o suco e encontrou ambos quase encostados, Tina mostrando algo no tablet.

Máximo Sforza, o homem que controlava até o oxigênio da empresa, estava imóvel, olhando cada detalhe das imagens… ou dela.

Tina explicava com entusiasmo:

— Essas são as que combinam com as rosas brancas…

Lavanda para contraste… Hortênsias para volume… Gypsophila para dar leveza…

E sálvia ornamental… minhas queridinhas… fazem as rosas parecerem menos… solitárias.

Ela falava com paixão; ele tentava focar no tablet, mas sua atenção estava grudada nela.

Tina foi até Rita, pegou o copo de suco e voltou para perto de Máximo, que só sabia fazer comparações.

Valentina era uma pintura perfeita.

Tina era um vendaval colorido.

E talvez por isso o derrubasse sem pedir licença.

— Rita disse que o senhor quer só rosas brancas. Comentou Tina, bebendo suco.

— É verdade… ou podemos variar as cores?

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Gosto de ordem. Rosas brancas trazem paz.

— Ou solidão. Devolveu, sem hesitar. — Mas tudo bem. Faço vida nascer até de pedra.

Houve um silêncio carregado.

Ele não sabia se ela o provocava, ensinava ou desmontava.

Uma hora depois, Maximo não sabia se queria que a reunião terminasse ou continuasse. Tina foi para o outro lado da mesa, se sentou, anotou algumas coisas e se levantou.

— Agora preciso ver o espaço.

Rita se preparou para acompanhá-la, mas Máximo falou antes:

— Eu vou.

A secretária congelou.

— O senhor… vai acompanhar a senhorita?

Ele a encarou, irritado:

— Sim. Algum problema?

— Não! Disse Rita, levantando as mãos. — Só… surpresa.

Tina deu uma risada satisfeita.

— Viu, Rita? O imperador está descendo do trono.

Máximo lançou-lhe um olhar afiado.

Ela somente piscou, inocente como um fósforo aceso.

— Então, imperador. Disse, caminhando em direção à porta — vamos ver se o senhor sabe diferenciar uma flor de uma folha seca.

Ao sair, sua voz ecoou pelo corredor:

— E desligue esse ar-condicionado! Suas plantas estão congelando. E eu também, odeio o frio!

Máximo respirou fundo.

Ele não sabia se queria rir… ou pedir demissão de si mesmo.

Mas uma coisa era certa:

Pela primeira vez em cinco anos…

O gelo trincou e ele não queria sair de perto do sol de Tina Martins.

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