O homem de Gelo

Máximo entrou no elevador da diretoria com o humor de alguém que tinha passado a noite inteira caçando sombras…literalmente.

Os olhos ardiam, o terno estava impecável como sempre, mas havia um desgaste ali, escondido nas fendas da postura perfeita.

A porta se abriu no último andar, e ninguém ousou dizer bom dia.

Ele atravessou o corredor como uma tempestade silenciosa e entrou na sala, jogando a chave e o celular sobre a mesa com raiva contida.

A primeira foto, aquela do beco, ainda queimava na mente.

Ele tinha rodado cada rua, cada canto, até o sol nascer, e nada.

Nenhuma pista.

Nenhum movimento.

Nada parecia com as casas que apareciam na foto.

Mas havia o anexo da mensagem.

Aquele que ele ainda não tinha aberto.

O visor do celular acendeu quando ele o tocou.

A notificação estava ali, piscando como um chamado irritante:

“Você está chegando perto.”

Máximo respirou fundo, sentindo o estômago endurecer.

Abriu a mensagem.

Depois tocou no anexo.

A foto ampliou na tela.

E, por um segundo, o mundo pareceu ficar mudo.

Era uma mulher de costas.

Jeans simples, surrado nas pontas.

Camisa branca de mangas dobradas.

Mas o que realmente prendeu os olhos dele foram os cabelos:

Negros.

Lisos.

Indomáveis.

Caindo até quase o quadril como uma cascata escura.

Ela segurava um maço de plantas, inclinada levemente para o lado e havia algo na postura que o atingiu com força inesperada.

Aquela linha dos ombros… a curva da cintura… a altura…

— Não.  Ele murmurou, mais para si do que para o mundo. — Não pode ser.

A garganta secou.

Valentina era loira.

Loira iluminada, loira radiante, loira até a alma…

Nada naquela foto fazia sentido.

Mas o corpo…

O corpo era uma lembrança dolorosamente precisa.

O tipo de semelhança que não era coincidência.

O tipo de semelhança que fazia o coração… aquele músculo que ele fingia não ter, dar um salto.

Aperto no maxilar.

Respiração travada.

— Você não pode ser a Valentina. Sussurrou, com uma convicção que não convencia nem a ele mesmo.

Porque um pensamento indesejado, irritante e terrivelmente lógico se insinuou como veneno:

“Ela pode ter mudado a cor do cabelo.”

Máximo jogou o celular na mesa, como se pudesse afastar a possibilidade com força física.

Mas a imagem ficou presa.

Cravada.

Latejando no fundo da mente.

E pela primeira vez desde que ela desapareceu…

Algo quente… quente demais, passou pelo gelo dele.

Ele odiou sentir.

E odiou mais ainda não conseguir parar de olhar para aquela foto.

Rita, sua secretária, entrou com o tablet nas mãos e uma calma que já era quase santidade.

— Senhor, mandei o e-mail para a paisagista. Assim que ela responder, aviso.

Máximo fechou o celular e ergueu o olhar por cima dos óculos, voltando para sua rotina.

— A paisagista de que cidade mesmo?

— Monte Verde (MG), senhor.

Ele arqueou a sobrancelha, o canto da boca se curvando num meio sorriso cético.

— Monte Verde. Repetiu como se provasse o nome e não gostasse do sabor. — E você realmente acha que alguém de uma cidade chamada Monte Verde vai dar conta de refazer os jardins da Fortunato Enterprise?

Rita respirou fundo, tentando manter a serenidade. Trabalhar para Máximo era quase uma prova de resistência psicológica.

— Com todo respeito, senhor, os projetos dela são incríveis.

Ele girou a caneta entre os dedos, impaciente.

— Como é o nome dela mesmo?

— Tina Martins.

Máximo franziu o cenho.

— Tina Martins? Repetiu devagar. — Isso não soa como nome de arquiteta paisagista. Parece nome de personagem de novela das seis, a vendedora de pamonha.

Rita conteve o riso.

— Pois é, senhor. Mas parece que o nome combina com o talento.

Ele bufou, recostando-se na cadeira.

— Deve ser daquelas mulheres que conversam com as plantas. Ironizou. — Nem nome de gente tem.

Rita deixou escapar uma risadinha.

— E quem sabe é justamente por isso que o jardim dela floresce, senhor.

O olhar gélido de Máximo foi suficiente para calar qualquer outro comentário.

— Rita, eu já disse que um dia ainda te demito.

— O senhor diz isso toda semana. Respondeu ela, virando-se sem pressa. — E toda semana eu continuo aqui, evitando que o senhor mate alguém antes do café da manhã.

Máximo a observou sair, e, por um instante raro, um sorriso quase imperceptível ameaçou escapar.

Mas sumiu tão rápido quanto veio.

Ele olhou o nome no e-mail, Tina Martins, e algo ali o incomodou, como se o som daquela combinação de letras abrisse uma fresta onde ele jurava não haver portas.

Sacudiu a cabeça, afastando o pensamento.

O homem de gelo não se permitia desconfortos. Pelo menos não que pudessem ser percebidos pelos outros.

Tocou o celular, lembrou da foto…mas não abriu. Precisava trabalhar para ocupar a cabeça com coisas que dominava para assim manter a sanidade.

 

Horas depois, o escritório estava vazio. O relógio marcava nove da noite quando Máximo saiu, ignorando o motorista.

Precisava dirigir. Precisava sentir o motor responder ao toque firme das mãos.

O carro cortava a noite chuvosa, e as luzes da cidade piscavam distantes, pequenas demais para preencher o vazio.

Chegou ao prédio.

O apartamento era um reflexo perfeito dele: imenso, moderno e impessoal.

Vidro, concreto, aço. Nenhum enfeite, nenhuma planta, nenhum rastro de vida que não fosse o seu.

Apenas silêncio e uma ordem milimétrica que beirava a obsessão.

Máximo tirou o paletó, afrouxou a gravata e soltou um suspiro que parecia conter cinco anos de exaustão.

Foi até a estante.

Ali, no centro, entre troféus corporativos e prêmios de “Homem de Negócios do Ano”, havia o que realmente o definia: um porta-retrato de cristal.

Valentina Sforza.

Cabelos dourados, sorriso de capa de revista, olhos castanhos e vivos.

Ela vestia um longo preto, o mesmo que ele ajudou a fechar o zíper na noite em que o retrato foi tirado e parecia tão real que ele ainda se sentia lá naquele momento congelado naquela foto.

Ele tocou o vidro com cuidado.

— Você deveria ver o que a Rita aprontou hoje. Murmurou, com ironia cansada. — Quer contratar uma paisagista de Monte Verde.

Riu sozinho, mas o som saiu quebrado.

— Aposto que você acharia graça disso, não é?

O gelo tilintou no copo de uísque quando ele se serviu.

O líquido âmbar caiu como memória líquida.

Flashback.

“Max, querido, fecha o zíper para mim.”

A voz dela era leve, divertida, a mistura perfeita entre doçura e provocação.

Ele se aproximou, o perfume floral e quente dela invadindo o quarto.

O toque do zíper subindo lentamente, os dedos dele roçando a pele dela.

Valentina virou o rosto, rindo baixo, e o riso dela parecia acender tudo.

— Amor... assim a gente não sai daqui.

— Prefiro não sair. Ele respondeu, a voz rouca. — Não suporto te dividir com aquele bando de idiotas.

— É só trabalho, Máximo. Ela ajeitou o colar, paciente. — E eu amo o que faço.

— Eu também amo o que faço. Ele rebateu. — Só não gosto quando todo mundo também ama o que é meu.

Valentina riu.

Beijou-o rápido, atravessou, e foi até o banheiro.

O som do salto ecoou.

Depois, o silêncio.

Um silêncio que nunca mais foi embora.

 

Máximo piscou, voltando ao presente.

O apartamento estava mergulhado na penumbra.

O gelo no copo derretia devagar, diferente dele, que não derretia nunca.

— O que te aconteceu, Valentina? Murmurou. — Onde você está?

A porta se abriu atrás dele, e ele nem precisou olhar.

— Lucas, você deveria tocar a campainha. Disse, sem emoção.

Lucas Amorim entrou sem cerimônia, como sempre. Amigo de infância, advogado, e o único que ainda ousava dizer o que pensava.

— Pra quê? Respondeu, jogando o paletó na poltrona. — Você está sempre sozinho. A única concorrência é esse retrato e o litro de whisky.

Máximo lançou um olhar de lado.

— O que você quer, Lucas?

— Notícias. Ele cruzou os braços. — Os detetives voltaram de mãos abanando, aquelas mensagens levam de um lugar inexistente a lugar nenhum.

Fez uma pausa, antes de completar: — Se eu não fosse seu amigo, ia achar que a polícia está certa. Que você matou Valentina e sumiu com o corpo.

O riso de Máximo foi curto, amargo.

— Engraçado. E eu fiquei no Brasil porque gosto de me torturar.

— Não para mim. Lucas se aproximou, o tom sério. — Já faz cinco anos, Max. E você continua vivendo esse tormento. Já pensou na possibilidade dela ter morrido? Porque a história da fuga para mim é quase impossível de ter acontecido.

A pergunta atravessou o ar como uma lâmina.

Máximo demorou um segundo antes de responder, e quando respondeu, veio com a frieza que sempre o salvava:

— Claro que pensei, faz cinco anos que penso. Mas se ela morreu, por que não achamos os restos mortais?

E se fugiu, fugiu de mim, da família dela, e de todo o dinheiro. Brilhante ideia.

— Vamos supor que seja verdade e ela fugiu. Insistiu Lucas. — Como ela vive sem movimentar um centavo da conta?

— Talvez ela tenha resolvido viver nas montanhas. Ironizou Max. — Ou talvez exista uma explicação que você, com toda sua lógica, não descobriu.

Lucas o observou. — Ou talvez ela tenha fugido de você e seja lá quem ajudou a sustenta só assim para explicar a falta de movimento na conta dela.

O copo estalou nas mãos de Máximo.

— Você acha que ela teria motivos para fugir de mim? Eu amava minha esposa, nunca faria mal a ela.

— Acho que você a amava muito, mas seu controle sobre ela a sufocava.

O silêncio se instalou como uma sentença.

Máximo virou o copo, esvaziando o resto do uísque.

— Já contratei investigadores, já quebrei acordos, já arrisquei tudo o que podia. Se alguém a levou, quero saber quem. Se ela se foi, quero saber por quê. — Olhou fixo para o amigo. — Mas não admito que digam que eu a matei.

Lucas assentiu, finalmente, vencido pelo cansaço.

— Eu sei. E vou continuar procurando. Só tenta dormir um pouco. Você já congelou demais o que sobrou de você.

Máximo sorriu sem humor.

— Não fui eu quem congelou. Foi o mundo depois que ela sumiu.

Lucas deixou o apartamento em silêncio.

A porta se fechou, e Máximo ficou de novo entre o whisky e o retrato, com a cidade refletida nos olhos.

A chuva voltou fina, desenhando linhas tristes na janela.

Ele serviu outro copo, sem medir.

E, pela primeira vez em muito tempo, permitiu-se um pensamento que não tinha lógica, nem plano, nem controle:

“E se ela ainda estiver viva, e se fugiu do meu controle?”

O gelo tilintou outra vez, e o homem de gelo bebeu, sem saber que, em poucos dias, o nome Tina Martins voltaria para acender tudo o que ele acreditava estar morto.

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