Mundo ficciónIniciar sesiónEm Valverde do Sul, as lembranças de um amor de juventude são as únicas cores que o tempo não conseguiu desbotar. Ísis Buonavitta e Giorgio Cezario foram, um dia, o porto seguro um do outro, até que as ambições familiares e as curvas da vida os lançaram em direções opostas. Dez anos depois, o reencontro acontece sob luzes muito diferentes. Giorgio é agora o implacável CEO das Empresas Cezario, um homem moldado pelo dever e pelo pragmatismo, com o futuro traçado ao lado de Soraya Sousa, uma jovem da alta sociedade cujo interesse pela sua fortuna só é superado por sua petulância. Ísis, por outro lado, retorna à cidade como uma talentosa artista plástica, armada apenas com seu cavalete e o sonho de abrir sua própria galeria. Quando ela descobre que o imóvel ideal pertence ao império do homem que partiu seu coração, o confronto é inevitável. Entre telas vibrantes e relatórios frios, eles descobrirão que o passado nunca foi totalmente enterrado. Conseguirá o cinza do mundo corporativo apagar o brilho de uma paixão antiga? Ou a arte de Ísis será capaz de devolver a cor à vida de Giorgio? Uma história sobre as segundas chances que o destino pinta, mesmo quando tentamos seguir em frente.
Leer másValverde do Sul exibia uma de suas manhãs mais cinzentas quando o táxi parou em frente ao que um dia fora a gloriosa Galeria Buonavitta. Ísis respirou fundo, e o ar úmido e mofado, carregado de lembranças, encheu seus pulmões. O casarão antigo, com suas janelas empoeiradas e a placa torta, era uma sombra do vibrante centro de arte que sua avó, a excêntrica matriarca da família, havia mantido viva por décadas. Agora, a fachada descascada parecia gritar por socorro, refletindo um pouco do que ela mesma sentia.
— É aqui que começa tudo de novo, Ísis — murmurou para si mesma, ajustando a alça da sua mochila pesada, que continha mais pincéis e esperanças do que qualquer outra coisa.
Ela tinha acabado de chegar, após anos morando e estudando em capitais cosmopolitas, mas o chamado de suas raízes artísticas e o desejo de reviver o legado da família a trouxeram de volta. Valverde do Sul era sua tela vazia, e ela estava determinada a preenchê-la com as cores que a cidade parecia ter esquecido.
O primeiro passo era encontrar um novo espaço. O casarão da família, infelizmente, estava em condições deploráveis e as reformas seriam caríssimas. Ísis precisava de um lugar que pudesse transformar, que tivesse a alma da arte, mas que também fosse acessível. Foi então que seu amigo e corretor, Leo, mencionou o antigo galpão da Rua das Violetas – um espaço amplo, com ótima iluminação natural, perfeito para uma galeria e ateliê. O único problema, ele avisara, era o proprietário: as Empresas Cezario.
O nome fez um arrepio percorrer a espinha de Ísis. Cezario. Um sobrenome que evocava não apenas poder e dinheiro em Valverde, mas também a sombra de um passado que ela havia tentosamente varrido para debaixo do tapete da memória.
— Boa sorte com o "Doutor Cezario", Ísis — Leo brincou ao telefone, poucas horas antes da reunião. — Dizem que ele é... metódico. E implacável.
"Metódico e implacável", ela pensou. Como o tempo pode mudar uma pessoa. O Giorgio que ela conhecia era um menino com as mãos sujas de tinta e o riso fácil, que sonhava em construir pontes e desenhar arranha-céus imaginários em cadernos rabiscados. O Giorgio de hoje, o CEO, era uma lenda urbana, um fantasma de um futuro que ela havia abandonado.
Ela estava parada diante do imponente edifício de vidro e aço das Empresas Cezario, um arranha-céu que perfurava o céu cinzento de Valverde como um agulha. Lá em cima, no último andar, ela sabia que a reunião aconteceria. A reunião que poderia significar o futuro da sua arte ou o fechar de mais uma porta.
Enquanto subia os degraus de mármore polido, sentiu o peso do seu portfólio na mão, mas também a leveza de uma determinação inabalável. Ela não era mais a garota ingênua que pintava flores no jardim da avó. Era Ísis Buonavitta, artista plástica, e ela não se curvaria. Não para a herança de ninguém, muito menos para a sombra de um amor esquecido.
O elevador social das Empresas Cezario era silencioso e rápido, uma caixa de metal polido que parecia isolar o mundo exterior. Ísis observava seu reflexo no espelho: o vestido de linho leve e os cabelos ondulados um pouco rebeldes destoavam completamente das executivas de tailleur que cruzavam o lobby. Ela se sentia como uma mancha de cor em uma fotografia em preto e branco.
Quando as portas se abriram no 42º andar, o ar condicionado gelado a atingiu. A recepção era minimalista, decorada com móveis de design escandinavo e uma ausência absoluta de alma.
— Pois não? — A secretária, uma mulher cuja postura era tão rígida quanto a mobília, mal desviou os olhos da tela.
— Ísis Buonavitta. Tenho uma reunião com o Sr. Cezario sobre o imóvel da Rua das Violetas.
A secretária arqueou uma sobrancelha. — Ah, sim. A... artista. Aguarde um momento. O Sr. Cezario está terminando uma chamada com a noiva, a Srta. Sousa.
O estômago de Ísis deu um nó. Noiva. Ela sabia que ele teria seguido em frente, é claro. Dez anos é tempo suficiente para construir e destruir impérios, quanto mais para esquecer uma paixão de adolescência. Mas ouvir o título em voz alta, associado a um nome que exalava status, tornava tudo subitamente real.
Minutos depois, a porta de madeira maciça da presidência se abriu. Uma mulher jovem saiu de lá, saltos altos estalando no chão de granito. Vestia um conjunto rosa choque que gritava "caro" e ostentava um anel de diamante que poderia cegar alguém. Era Soraya Sousa. Ela lançou um olhar avaliador e nitidamente desdenhoso para Ísis, medindo-a da cabeça aos pés antes de seguir para o elevador sem dizer uma palavra.
— O Sr. Cezario a receberá agora — anunciou a secretária.
Ísis ajeitou o portfólio sob o braço, empertigou os ombros e entrou.
A sala era ampla, com janelas do chão ao teto que mostravam Valverde do Sul como um tabuleiro de xadrez lá embaixo. Atrás de uma mesa de carvalho negro, um homem estava de costas, observando a neblina da cidade. O terno grafite era impecável, moldado em ombros que pareciam carregar o peso de todo aquele edifício.
— Você é persistente, Srta. Buonavitta — a voz dele ecoou, mais grave do que Ísis lembrava, desprovida de qualquer calor. — Meu setor imobiliário já informou que o galpão não está disponível para locações... "alternativas".
— A arte não é uma alternativa, Sr. Cezario. É uma necessidade — Ísis rebateu, sua voz firme apesar do coração martelando contra as costelas. — E aquele galpão está morrendo no escuro. Eu posso dar vida a ele.
Giorgio Cezario girou a cadeira lentamente. O movimento foi calculado, quase predatório. Quando seus olhos finalmente encontraram os dela, o tempo em Valverde do Sul pareceu simplesmente parar.
O cinza dos olhos de Giorgio, que antes lembravam a cor do mar em dias de tempestade, agora pareciam feitos de aço frio. Mas, por um milésimo de segundo, Ísis viu uma rachadura naquela máscara. Um brilho de reconhecimento que ele tentou sufocar instantaneamente.
— Ísis? — O nome escapou pelos lábios dele como um segredo proibido.
— Olá, Giorgio — ela respondeu, sentindo o peso de cada dia de silêncio entre os dois. — Ou devo dizer... Sr. Cezario?
Ele se levantou, a altura agora imponente, a mão direita repousando sobre a mesa, onde um porta-retrato com a foto de Soraya parecia vigiar o ambiente. O silêncio na sala era tão denso que Ísis conseguia ouvir o tique-tique do relógio de luxo no pulso dele. O menino que pintava sonhos havia sido substituído por um homem que gerenciava realidades. E a realidade deles agora era um abismo.
As Marcas da RedençãoNaquela tarde, a família recebia uma visita especial. Um carro simples parou na entrada e dele desceu uma mulher vestida com sobriedade e elegância discreta. Soraya.O tempo fora o seu maior juiz e, surpreendentemente, o seu melhor aliado. Após cumprir sua pena e passar por anos de terapia intensiva, ela não buscava mais os holofotes de Valverde. Soraya vivia agora em uma cidade vizinha, onde gerenciava uma oficina de restauração de obras de arte financiada anonimamente pela fundação de Giorgio.— Tia Soraya! — Olívia correu ao seu encontro.Soraya a abraçou com um carinho que era real, despido de qualquer interesse. Ela olhou para Ísis e Giorgio, e houve um aceno silencioso de respeito mútuo. Eles nunca seriam uma família tradicional, mas haviam aprendido a conviver com as cicatrizes do passado. Soraya trazia consigo um quadro que terminara de restaurar: uma antiga pintura da avó Buonavitta, que Margareth tentara destruir.— Devolvi a luz aos olhos dela — Soraya
Três anos haviam passado desde que as sombras da Casa da Falésia se dissiparam. Valverde já não era a cidade dos escândalos Cezario, mas sim o cenário de uma das maiores renascentistas culturais da região, graças à consolidada Galeria Buonavitta.O dia estava radiante para o batismo de Olívia. A pequena, agora com três anos, corria pelos jardins da casa de campo com os caracóis loiros ao vento, a personificação viva da saúde e da alegria que Giorgio e Ísis tanto lutaram para proteger.A cerimônia, realizada na capela privativa da propriedade, foi íntima. Eleonora e Léo, agora casados e à espera do seu primeiro filho, ocuparam o altar como os padrinhos orgulhosos. Soraya, em regime de liberdade condicional e trabalhando como restauradora de arte na galeria, assistia a tudo da última fila, com um sorriso sereno. Ela encontrara a paz no anonimato e no trabalho manual, longe da ganância que quase a destruiu.Quando o padre derramou a água sobre a cabeça de Olívia, Giorgio segurou a mão de
Os meses que se seguiram à noite na Casa da Falésia foram marcados por um silêncio reflexivo em Valverde. A morte de Margareth Cezario foi confirmada após dias de busca nas rochas costeiras, encerrando um capítulo de sombras que durava décadas. Mas para Soraya, o verdadeiro julgamento estava apenas começando — e não era apenas o tribunal que a aguardava.Soraya passava os dias em uma cela especial, mergulhada em uma confusão mental profunda. A revelação de sua origem a deixara em frangalhos; ela não sabia mais se sentia ódio pela mãe que a usara, ou luto pela identidade que perdera.Surpreendentemente, o socorro não veio de seus antigos contatos sociais, que lhe deram as costas, mas de quem ela menos esperava. Ísis e Giorgio, em um gesto de gratidão pelo fato de ela ter segurado Olívia no último segundo, decidiram bancar os melhores advogados e especialistas em saúde mental para ela.— Não fazemos isso para te livrar da culpa, Soraya — Giorgio disse, em uma das poucas visitas que fez
O som da madeira estalando foi como um tiro no silêncio da noite. No momento em que a varanda cedeu, Margareth soltou um grito — não de medo, mas de fúria — ao sentir que o controle escapava de suas mãos. O peso da gravidade a puxou para a escuridão do abismo, e sua silhueta desapareceu no nevoeiro denso da falésia, tragada pelo rugido do mar revolto lá embaixo.Giorgio sentiu os músculos de seus braços quase rasgarem. Em um esforço sobre-humano, com Ísis ancorando seu corpo ao chão firme, ele conseguiu agarrar o pulso de Soraya e, com a outra mão, segurar a pequena Olívia pelas roupas, puxando-as com um solavanco para dentro do quarto seguro.O impacto no chão de madeira foi seco. Por um momento, o único som no quarto era a respiração ofegante dos quatro. Giorgio rapidamente pegou Olívia, checando se ela respirava. A bebê soltou um choro agudo — o som mais bonito que Ísis já ouvira na vida.— Ela está viva! Ela está bem! — Ísis soluçava, abraçando Giorgio e a filha, formando um escud
O uivo do vento na varanda da falésia parecia gritar as verdades que Margareth cuspia. Giorgio sentia as pernas fraquejarem. A imagem do pai, que ele acreditava ter morrido em um trágico acidente naquela mesma casa anos atrás, foi substituída por uma cena de horror: o homem que ele amava fora silenciado pela mulher que ele chamava de mãe.— Ele se tornou fraco, Giorgio! — Margareth gritou sobre o barulho das ondas. — O remorso é uma doença que consome os homens. Ele queria te contar tudo, queria te entregar para a Ísis, queria destruir o império que nós construímos sobre os ossos dos Buonavitta. Eu não podia deixar que ele jogasse trinta anos de esforço no lixo por causa de uma consciência tardia. Eu apenas o ajudei a encontrar o caminho mais rápido para o mar... exatamente onde estamos agora.Ísis estava paralisada. Ela olhava para Olívia nos braços daquela mulher e via o ciclo se repetindo. Margareth não via na bebê apenas uma neta; ela via a chance de "recuperar" a filha que o velho
O andar de cima da Casa da Falésia era um labirinto de sombras. No centro do quarto principal, Margareth estava sentada em uma cadeira de balanço, segurando Olívia com uma calma que gelava o sangue. A lamparina que Giorgio carregava iluminava o rosto da vilã, que parecia uma rainha destronada em seu castelo de pó.— Finalmente, a família reunida — Margareth disse, sua voz soando como o arrastar de folhas secas. — Não se aproximem. A pequena está dormindo... e eu gostaria que ela acordasse em um mundo sem mentiras.Ísis deu um passo, mas Giorgio a segurou. Ele sentia que a estrutura da sua vida estava prestes a ruir.— Po
Último capítulo