Mundo de ficçãoIniciar sessãoValverde do Sul possuía uma elite que se alimentava de aparências, e o evento de inauguração da nova ala do Clube de Golfe era o cenário perfeito para a exibição de poder. Ísis não queria estar ali. Ela preferia o cheiro de terebintina ao perfume francês sufocante daquelas mulheres, mas seu amigo Leo insistira: "Se você quer patrocinadores para a galeria, Ísis, precisa ser vista onde o dinheiro circula".
Ela vestia um vestido de seda verde-esmeralda, simples e elegante, que realçava a cor vibrante de sua pele e a determinação em seu olhar. Mas, assim que entrou no salão, percebeu que a atmosfera mudou. Os sussurros começaram.
No centro do salão, sob um lustre de cristal que parecia tentar competir com o seu ego, estava Soraya Sousa.
Soraya era o epítome da perfeição fabricada. Cada fio de seu cabelo loiro estava no lugar, e seu sorriso era tão ensaiado quanto um discurso político. Ao seu lado, Giorgio parecia um guarda-costas de luxo, impecável em seu smoking negro, mas com o olhar perdido em algum ponto distante do horizonte.
— Giorgio, querido, veja — a voz de Soraya era aguda, carregada de uma doçura falsa que fez os dentes de Ísis rangerem. — Não é aquela... moça? A que apareceu no seu escritório hoje, agindo como se fosse a dona da cidade?
Soraya caminhou em direção a Ísis, arrastando Giorgio pelo braço. O salão pareceu diminuir de tamanho à medida que elas se aproximavam. Giorgio, ao notar Ísis, endureceu a postura. Seus olhos cinzentos encontraram os dela, e por um breve momento, o mundo corporativo desapareceu, sobrando apenas o rapaz e a moça do coreto. Mas Soraya não permitiu que o silêncio durasse.
— Srta. Buonavitta, não é? — Soraya disse, parando a poucos centímetros de Ísis. Ela não ofereceu a mão; em vez disso, ajustou o colar de diamantes que brilhava em seu pescoço. — Giorgio me contou sobre sua... hum... pequena fixação pelo meu galpão. É uma gracinha que você tenha esses sonhos artísticos, de verdade. O mundo precisa de passatempos.
Ísis sentiu o veneno escorrer em cada palavra. Ela respirou fundo, mantendo a calma que só os anos de paciência diante de uma tela em branco poderiam ensinar.
— Não é um passatempo, Srta. Sousa. É um projeto cultural — Ísis respondeu, sua voz calma e firme ecoando pelo círculo de curiosos que se formava. — E o galpão não é seu. Ainda pertence às Empresas Cezario.
Soraya soltou uma risadinha estridente, lançando um olhar possessivo para Giorgio. — Oh, querida. O que é do Giorgio é meu. Já estamos decidindo as cores das paredes para o meu showroom de joias. Peças que realmente têm valor, sabe? Coisas sólidas. Não borrões de tinta que ninguém entende.
Giorgio pigarreou, claramente desconfortável com o rumo da conversa. — Soraya, não é o momento para discutir negócios imobiliários.
— Por que não, amor? — Soraya se inclinou para ele, mas seus olhos permaneceram fixos em Ísis, como uma predadora marcando território. — Eu só queria avisar à Srta. Buonavitta para não alimentar esperanças inúteis. Valverde do Sul tem um padrão. Nós valorizamos o que é eterno, como diamantes. A arte... bem, a arte é tão passageira quanto uma paixão de infância, você não concorda?
O golpe foi direto. Soraya sabia. De alguma forma, ela tinha farejado a história entre os dois e estava usando isso como uma arma. O rosto de Giorgio empalideceu levemente, e ele desviou o olhar para o chão.
Ísis sentiu a provocação queimar, mas em vez de explodir, ela deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Soraya. — Você está certa sobre uma coisa, Soraya. Diamantes são eternos, mas são frios. Eles não têm pulso. Eles não contam histórias. E quanto às paixões... algumas pessoas passam a vida tentando enterrá-las, mas a cor sempre acaba encontrando uma fresta para brilhar.
Ela olhou diretamente para Giorgio agora, ignorando a noiva petulante. — Espero que o mármore do seu showroom não seja frio demais, Sr. Cezario. Seria uma pena ver um espaço tão bonito transformado em um mausoléu.
Ísis virou as costas e caminhou em direção à saída, sentindo o olhar de Giorgio queimando em suas costas. Ela tinha perdido a batalha pela cortesia, mas tinha acabado de declarar guerra pelo coração de Valverde — e, talvez, pelo que restava da alma de Giorgio.
Atrás dela, Soraya bufava de indignação. — Você viu isso, Giorgio? Que insolente! Você precisa garantir que ela nunca consiga um contrato nesta cidade!
Giorgio não respondeu. Ele apenas observava a silhueta verde-esmeralda desaparecer na noite, sentindo que, pela primeira vez em dez anos, ele odiava o brilho das joias que o cercavam.







