Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio na sala da presidência era quase físico, interrompido apenas pelo zumbido baixo do sistema de ventilação. Giorgio permanecia estático, como se uma lufada de vento pudesse desmoronar a fachada de mármore que ele levou uma década para construir. Ísis, por outro lado, sentia o sangue ferver — uma mistura de nostalgia indesejada e uma súbita vontade de rir da ironia do destino.
— Dez anos, Ísis — Giorgio finalmente disse, a voz recuperando a cadência profissional, embora um pouco mais rouca. — E você entra na minha empresa exigindo um galpão como se ainda fôssemos as crianças que pulavam o muro da Rua das Violetas.
— Eu não exijo nada, Giorgio. Eu vim fazer uma proposta de negócio — ela caminhou até a mesa dele, colocando o portfólio sobre a superfície polida. — O fato de você ser o dono do imóvel é apenas um azar estatístico. Ou sorte, se você ainda tiver algum senso estético guardado sob esse terno de mil dólares.
Giorgio olhou para o portfólio, mas não o abriu. Ele contornou a mesa, parando a poucos centímetros dela. O perfume dele — algo que lembrava madeira e chuva — atingiu Ísis como uma onda, trazendo flashes de tardes quentes em Valverde.
— Minha noiva, Soraya, quer aquele espaço para um showroom da marca de joias dela — ele declarou, e o nome da outra mulher pareceu uma barreira de gelo entre os dois. — O Grupo Cezario não investe em filantropia artística, Ísis. Investimos em lucro. E Soraya é o que Valverde espera de uma Cezario.
Ísis sentiu a alfinetada. "O que Valverde espera". Giorgio sempre foi prisioneiro das expectativas alheias, e agora ele parecia ter se tornado o carcereiro de si mesmo.
— Então é isso? — Ísis arqueou a sobrancelha, o orgulho Buonavitta brilhando em seus olhos castanhos. — O menino que queria desenhar catedrais agora se contenta em ser o balcão de negócios de uma moça mimada? Valverde do Sul mudou você, Giorgio. Ou talvez você só tenha revelado quem realmente era.
Antes que ele pudesse responder, o telefone sobre a mesa tocou. O visor exibia uma foto de Soraya fazendo um biquinho para a câmera. Giorgio não atendeu, mas o momento de trégua forçada acabou.
— Tenho cinco minutos antes da minha próxima reunião — ele disse, voltando à sua postura de CEO. — Me dê um motivo, um único motivo financeiramente viável, para eu não entregar as chaves daquele galpão para a minha noiva amanhã cedo.
Ísis sorriu. Era um sorriso desafiador, o mesmo que ela usava quando ele dizia que ela não conseguiria misturar certas cores.
— Porque se você me der aquele espaço, eu farei algo que o seu dinheiro não pode comprar: eu farei Valverde do Sul voltar a ter uma alma. E você sabe, no fundo dessa sua armadura, que o nome Cezario precisa de mais do que joias brilhantes para ser lembrado com respeito. Precisa de legado.
Giorgio hesitou. Por um instante, o olhar dele caiu para as mãos de Ísis, onde uma pequena mancha de tinta azul turquesa teimava em permanecer sob a unha do polegar. Aquele detalhe mundano e colorido parecia a coisa mais real naquela sala cinzenta.
— Deixe o projeto — ele murmurou, sem olhar para ela. — Vou analisar. Mas não espere milagres, Ísis. O mundo não é feito de aquarelas.
— O meu é, Giorgio. E você faz parte da pintura, queira ou não.
Ísis saiu da sala sem olhar para trás, os saltos batendo com força contra o granito. Ela sabia que tinha jogado uma isca perigosa. Giorgio estava noivo, estava rico e estava cercado por Soraya, mas o brilho que ela viu nos olhos dele por um segundo... aquele brilho ainda pertencia à menina que ele amou um dia.







