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A Cor do Nosso Reencontro
A Cor do Nosso Reencontro
Por: Maya Flora
🎹 Capítulo 1: Tons de Cinza e a Tela Vazia

Valverde do Sul exibia uma de suas manhĂŁs mais cinzentas quando o tĂĄxi parou em frente ao que um dia fora a gloriosa Galeria Buonavitta. Ísis respirou fundo, e o ar Ășmido e mofado, carregado de lembranças, encheu seus pulmĂ”es. O casarĂŁo antigo, com suas janelas empoeiradas e a placa torta, era uma sombra do vibrante centro de arte que sua avĂł, a excĂȘntrica matriarca da famĂ­lia, havia mantido viva por dĂ©cadas. Agora, a fachada descascada parecia gritar por socorro, refletindo um pouco do que ela mesma sentia.

— É aqui que começa tudo de novo, Ísis — murmurou para si mesma, ajustando a alça da sua mochila pesada, que continha mais pincĂ©is e esperanças do que qualquer outra coisa.

Ela tinha acabado de chegar, apĂłs anos morando e estudando em capitais cosmopolitas, mas o chamado de suas raĂ­zes artĂ­sticas e o desejo de reviver o legado da famĂ­lia a trouxeram de volta. Valverde do Sul era sua tela vazia, e ela estava determinada a preenchĂȘ-la com as cores que a cidade parecia ter esquecido.

O primeiro passo era encontrar um novo espaço. O casarĂŁo da famĂ­lia, infelizmente, estava em condiçÔes deplorĂĄveis e as reformas seriam carĂ­ssimas. Ísis precisava de um lugar que pudesse transformar, que tivesse a alma da arte, mas que tambĂ©m fosse acessĂ­vel. Foi entĂŁo que seu amigo e corretor, Leo, mencionou o antigo galpĂŁo da Rua das Violetas – um espaço amplo, com Ăłtima iluminação natural, perfeito para uma galeria e ateliĂȘ. O Ășnico problema, ele avisara, era o proprietĂĄrio: as Empresas Cezario.

O nome fez um arrepio percorrer a espinha de Ísis. Cezario. Um sobrenome que evocava nĂŁo apenas poder e dinheiro em Valverde, mas tambĂ©m a sombra de um passado que ela havia tentosamente varrido para debaixo do tapete da memĂłria.

— Boa sorte com o "Doutor Cezario", Ísis — Leo brincou ao telefone, poucas horas antes da reuniĂŁo. — Dizem que ele Ă©... metĂłdico. E implacĂĄvel.

"Metódico e implacåvel", ela pensou. Como o tempo pode mudar uma pessoa. O Giorgio que ela conhecia era um menino com as mãos sujas de tinta e o riso fåcil, que sonhava em construir pontes e desenhar arranha-céus imaginårios em cadernos rabiscados. O Giorgio de hoje, o CEO, era uma lenda urbana, um fantasma de um futuro que ela havia abandonado.

Ela estava parada diante do imponente edifĂ­cio de vidro e aço das Empresas Cezario, um arranha-cĂ©u que perfurava o cĂ©u cinzento de Valverde como um agulha. LĂĄ em cima, no Ășltimo andar, ela sabia que a reuniĂŁo aconteceria. A reuniĂŁo que poderia significar o futuro da sua arte ou o fechar de mais uma porta.

Enquanto subia os degraus de mĂĄrmore polido, sentiu o peso do seu portfĂłlio na mĂŁo, mas tambĂ©m a leveza de uma determinação inabalĂĄvel. Ela nĂŁo era mais a garota ingĂȘnua que pintava flores no jardim da avĂł. Era Ísis Buonavitta, artista plĂĄstica, e ela nĂŁo se curvaria. NĂŁo para a herança de ninguĂ©m, muito menos para a sombra de um amor esquecido.

O elevador social das Empresas Cezario era silencioso e rápido, uma caixa de metal polido que parecia isolar o mundo exterior. Ísis observava seu reflexo no espelho: o vestido de linho leve e os cabelos ondulados um pouco rebeldes destoavam completamente das executivas de tailleur que cruzavam o lobby. Ela se sentia como uma mancha de cor em uma fotografia em preto e branco.

Quando as portas se abriram no 42Âș andar, o ar condicionado gelado a atingiu. A recepção era minimalista, decorada com mĂłveis de design escandinavo e uma ausĂȘncia absoluta de alma.

— Pois não? — A secretária, uma mulher cuja postura era tão rígida quanto a mobília, mal desviou os olhos da tela.

— Ísis Buonavitta. Tenho uma reunião com o Sr. Cezario sobre o imóvel da Rua das Violetas.

A secretária arqueou uma sobrancelha. — Ah, sim. A... artista. Aguarde um momento. O Sr. Cezario está terminando uma chamada com a noiva, a Srta. Sousa.

O estĂŽmago de Ísis deu um nĂł. Noiva. Ela sabia que ele teria seguido em frente, Ă© claro. Dez anos Ă© tempo suficiente para construir e destruir impĂ©rios, quanto mais para esquecer uma paixĂŁo de adolescĂȘncia. Mas ouvir o tĂ­tulo em voz alta, associado a um nome que exalava status, tornava tudo subitamente real.

Minutos depois, a porta de madeira maciça da presidĂȘncia se abriu. Uma mulher jovem saiu de lĂĄ, saltos altos estalando no chĂŁo de granito. Vestia um conjunto rosa choque que gritava "caro" e ostentava um anel de diamante que poderia cegar alguĂ©m. Era Soraya Sousa. Ela lançou um olhar avaliador e nitidamente desdenhoso para Ísis, medindo-a da cabeça aos pĂ©s antes de seguir para o elevador sem dizer uma palavra.

— O Sr. Cezario a receberá agora — anunciou a secretária.

Ísis ajeitou o portfólio sob o braço, empertigou os ombros e entrou.

A sala era ampla, com janelas do chĂŁo ao teto que mostravam Valverde do Sul como um tabuleiro de xadrez lĂĄ embaixo. AtrĂĄs de uma mesa de carvalho negro, um homem estava de costas, observando a neblina da cidade. O terno grafite era impecĂĄvel, moldado em ombros que pareciam carregar o peso de todo aquele edifĂ­cio.

— VocĂȘ Ă© persistente, Srta. Buonavitta — a voz dele ecoou, mais grave do que Ísis lembrava, desprovida de qualquer calor. — Meu setor imobiliĂĄrio jĂĄ informou que o galpĂŁo nĂŁo estĂĄ disponĂ­vel para locaçÔes... "alternativas".

— A arte nĂŁo Ă© uma alternativa, Sr. Cezario. É uma necessidade — Ísis rebateu, sua voz firme apesar do coração martelando contra as costelas. — E aquele galpĂŁo estĂĄ morrendo no escuro. Eu posso dar vida a ele.

Giorgio Cezario girou a cadeira lentamente. O movimento foi calculado, quase predatĂłrio. Quando seus olhos finalmente encontraram os dela, o tempo em Valverde do Sul pareceu simplesmente parar.

O cinza dos olhos de Giorgio, que antes lembravam a cor do mar em dias de tempestade, agora pareciam feitos de aço frio. Mas, por um milĂ©simo de segundo, Ísis viu uma rachadura naquela mĂĄscara. Um brilho de reconhecimento que ele tentou sufocar instantaneamente.

— Ísis? — O nome escapou pelos lábios dele como um segredo proibido.

— OlĂĄ, Giorgio — ela respondeu, sentindo o peso de cada dia de silĂȘncio entre os dois. — Ou devo dizer... Sr. Cezario?

Ele se levantou, a altura agora imponente, a mĂŁo direita repousando sobre a mesa, onde um porta-retrato com a foto de Soraya parecia vigiar o ambiente. O silĂȘncio na sala era tĂŁo denso que Ísis conseguia ouvir o tique-tique do relĂłgio de luxo no pulso dele. O menino que pintava sonhos havia sido substituĂ­do por um homem que gerenciava realidades. E a realidade deles agora era um abismo.

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