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🎹 Capítulo 5: Segredos Entre Tintas e Sombras

O loft de Ísis, no Ășltimo andar de um edifĂ­cio industrial revitalizado, cheirava a cafĂ© fresco e Ăłleo de linhaça. Era o seu santuĂĄrio. Ali, longe dos olhares julgadores de Valverde do Sul, ela podia ser apenas a artista que sempre foi. Mas, naquela noite, a batida na porta nĂŁo era o ritmo familiar do entregador ou de Leo. Era uma batida pesada, hesitante e, de alguma forma, urgente.

Quando Ísis abriu a porta, o ar fugiu de seus pulmĂ”es. Giorgio estava parado no corredor escuro, sem a gravata, com o colarinho da camisa branca aberto e o paletĂł pendurado em um dos dedos. Ele parecia exausto.

— O que vocĂȘ estĂĄ fazendo aqui, Giorgio? — ela perguntou, mantendo a porta entreaberta como um escudo. — O evento no clube ainda deve estar fervendo. Soraya nĂŁo vai sentir sua falta?

— Ela estĂĄ ocupada demais sendo o centro das atençÔes — ele disse, a voz baixa. — Posso entrar? Precisamos falar sobre o galpĂŁo. Sem advogados. Sem... noivas.

Ísis hesitou, mas abriu caminho. Giorgio entrou no loft e parou abruptamente. O espaço era uma explosĂŁo de cores. Telas encostadas nas paredes, esboços espalhados pelo chĂŁo e uma grande obra inacabada no centro, coberta por um lençol fino. Era o oposto da sala da presidĂȘncia. Era um lugar onde se permitia o erro, o borrĂŁo e a vida.

— VocĂȘ nĂŁo mudou nada — murmurou ele, tocando a borda de uma paleta de madeira suja. — Ainda vive no meio do caos.

— E vocĂȘ mudou tudo — rebateu Ísis, cruzando os braços. — Por que veio aqui? Para me dizer pessoalmente que o mĂĄrmore da Soraya venceu?

Giorgio se aproximou dela. No espaço confinado do loft, a tensĂŁo era palpĂĄvel. — Eu nĂŁo assinei o contrato com o fornecedor dela ainda. HĂĄ algo na sua proposta... algo que nĂŁo me deixa dormir. Mas vocĂȘ precisa entender, Ísis, nĂŁo Ă© sĂł sobre a Soraya. Existem forças em Valverde que nĂŁo querem os Buonavitta de volta. Minha famĂ­lia...

— VocĂȘ quer dizer a sua madrasta — Ísis completou, com um toque de amargura.

Enquanto isso, na MansĂŁo Cezario...

A quilĂŽmetros dali, em uma sala de estar decorada com opulĂȘncia excessiva, Soraya Sousa girava uma taça de cristal com vinho tinto. À sua frente, sentada em uma poltrona de veludo como se fosse um trono, estava Margareth Cezario. A mulher exalava uma elegĂąncia gĂ©lida, seus olhos felinos observando a impaciĂȘncia da jovem Ă  sua frente.

— Aquela garota Ă© um cĂąncer, Margareth — Soraya sibilou, os olhos brilhando de raiva. — Ela humilhou a nossa escolha na frente de todos hoje. E o pior: Giorgio ficou mudo. Ele olhou para ela como se... como se estivesse vendo um fantasma que ele ainda quer tocar.

Margareth soltou uma risada curta e sem humor. — Os Buonavitta sempre foram uma praga para esta cidade, querida. A avó dela era uma lunática que achava que arte era mais importante que sobrenome. Eu não permiti que aquela menina arruinasse o futuro de Giorgio dez anos atrás, e não permitirei agora.

Soraya inclinou-se para a frente, interessada. — O que vocĂȘ quer dizer com "nĂŁo permitiu"?

Margareth deu um gole lento em seu vinho antes de responder, um sorriso cruel brincando nos lĂĄbios. — Digamos que eu ajudei a "extraviar" as correspondĂȘncias e a convencer o pai de Giorgio de que a menina tinha seguido em frente com um artista qualquer na capital. Se Giorgio soubesse a verdade na Ă©poca, ele nunca teria ido para a Suíça. Ele teria jogado o impĂ©rio no lixo por ela.

— E o que fazemos agora? — perguntou Soraya. — Ela quer o galpão.

— Deixe-a querer. O terreno da galeria Buonavitta ainda tem dĂ­vidas de impostos que a avĂł dela deixou — Margareth disse com frieza. — Eu vou mover os pauzinhos na prefeitura. Vamos embargar qualquer licença que ela tente tirar. Se ela nĂŁo pode abrir a galeria no galpĂŁo, e se o prĂ©dio antigo for interditado, ela nĂŁo terĂĄ nada. Ísis Buonavitta sairĂĄ de Valverde como entrou: sem um centavo e com os sonhos despedaçados.

De volta ao Loft...

Giorgio estava a centĂ­metros de Ísis. Ele estendeu a mĂŁo, hesitando antes de tocar uma mecha do cabelo dela que estava suja de tinta verde. — Eu queria ter respondido Ă quela Ășltima carta, Ísis.

Ísis recuou, o coração acelerado. — Que carta, Giorgio? VocĂȘ nunca enviou nada. E eu... eu parei de esperar.

— Eu enviei — ele insistiu, a voz carregada de uma dor antiga. — Eu enviei dezenas.

Os dois se olharam, e pela primeira vez, a dĂșvida começou a plantar sementes em seus coraçÔes. Havia um muro de mentiras entre eles, construĂ­do por mĂŁos que agora planejavam sua destruição final na sala ao lado.

— Saia daqui, Giorgio — Ísis pediu, a voz embargada. — Se vocĂȘ nĂŁo vai me dar o galpĂŁo, nĂŁo me dĂȘ esperanças. VĂĄ para casa. VĂĄ para a sua noiva e para a sua madrasta.

Giorgio não saiu imediatamente. Ele olhou para a tela coberta no centro da sala. — O que tem debaixo do lençol?

— O motivo pelo qual eu voltei — ela respondeu. — Mas vocĂȘ sĂł vai ver quando as luzes da minha galeria se acenderem. Se vocĂȘ tiver coragem de aparecer.

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