Mundo de ficçãoIniciar sessĂŁoO loft de Ăsis, no Ășltimo andar de um edifĂcio industrial revitalizado, cheirava a cafĂ© fresco e Ăłleo de linhaça. Era o seu santuĂĄrio. Ali, longe dos olhares julgadores de Valverde do Sul, ela podia ser apenas a artista que sempre foi. Mas, naquela noite, a batida na porta nĂŁo era o ritmo familiar do entregador ou de Leo. Era uma batida pesada, hesitante e, de alguma forma, urgente.
Quando Ăsis abriu a porta, o ar fugiu de seus pulmĂ”es. Giorgio estava parado no corredor escuro, sem a gravata, com o colarinho da camisa branca aberto e o paletĂł pendurado em um dos dedos. Ele parecia exausto.
â O que vocĂȘ estĂĄ fazendo aqui, Giorgio? â ela perguntou, mantendo a porta entreaberta como um escudo. â O evento no clube ainda deve estar fervendo. Soraya nĂŁo vai sentir sua falta?
â Ela estĂĄ ocupada demais sendo o centro das atençÔes â ele disse, a voz baixa. â Posso entrar? Precisamos falar sobre o galpĂŁo. Sem advogados. Sem... noivas.
Ăsis hesitou, mas abriu caminho. Giorgio entrou no loft e parou abruptamente. O espaço era uma explosĂŁo de cores. Telas encostadas nas paredes, esboços espalhados pelo chĂŁo e uma grande obra inacabada no centro, coberta por um lençol fino. Era o oposto da sala da presidĂȘncia. Era um lugar onde se permitia o erro, o borrĂŁo e a vida.
â VocĂȘ nĂŁo mudou nada â murmurou ele, tocando a borda de uma paleta de madeira suja. â Ainda vive no meio do caos.
â E vocĂȘ mudou tudo â rebateu Ăsis, cruzando os braços. â Por que veio aqui? Para me dizer pessoalmente que o mĂĄrmore da Soraya venceu?
Giorgio se aproximou dela. No espaço confinado do loft, a tensĂŁo era palpĂĄvel. â Eu nĂŁo assinei o contrato com o fornecedor dela ainda. HĂĄ algo na sua proposta... algo que nĂŁo me deixa dormir. Mas vocĂȘ precisa entender, Ăsis, nĂŁo Ă© sĂł sobre a Soraya. Existem forças em Valverde que nĂŁo querem os Buonavitta de volta. Minha famĂlia...
â VocĂȘ quer dizer a sua madrasta â Ăsis completou, com um toque de amargura.
A quilĂŽmetros dali, em uma sala de estar decorada com opulĂȘncia excessiva, Soraya Sousa girava uma taça de cristal com vinho tinto. Ă sua frente, sentada em uma poltrona de veludo como se fosse um trono, estava Margareth Cezario. A mulher exalava uma elegĂąncia gĂ©lida, seus olhos felinos observando a impaciĂȘncia da jovem Ă sua frente.
â Aquela garota Ă© um cĂąncer, Margareth â Soraya sibilou, os olhos brilhando de raiva. â Ela humilhou a nossa escolha na frente de todos hoje. E o pior: Giorgio ficou mudo. Ele olhou para ela como se... como se estivesse vendo um fantasma que ele ainda quer tocar.
Margareth soltou uma risada curta e sem humor. â Os Buonavitta sempre foram uma praga para esta cidade, querida. A avĂł dela era uma lunĂĄtica que achava que arte era mais importante que sobrenome. Eu nĂŁo permiti que aquela menina arruinasse o futuro de Giorgio dez anos atrĂĄs, e nĂŁo permitirei agora.
Soraya inclinou-se para a frente, interessada. â O que vocĂȘ quer dizer com "nĂŁo permitiu"?
Margareth deu um gole lento em seu vinho antes de responder, um sorriso cruel brincando nos lĂĄbios. â Digamos que eu ajudei a "extraviar" as correspondĂȘncias e a convencer o pai de Giorgio de que a menina tinha seguido em frente com um artista qualquer na capital. Se Giorgio soubesse a verdade na Ă©poca, ele nunca teria ido para a SuĂça. Ele teria jogado o impĂ©rio no lixo por ela.
â E o que fazemos agora? â perguntou Soraya. â Ela quer o galpĂŁo.
â Deixe-a querer. O terreno da galeria Buonavitta ainda tem dĂvidas de impostos que a avĂł dela deixou â Margareth disse com frieza. â Eu vou mover os pauzinhos na prefeitura. Vamos embargar qualquer licença que ela tente tirar. Se ela nĂŁo pode abrir a galeria no galpĂŁo, e se o prĂ©dio antigo for interditado, ela nĂŁo terĂĄ nada. Ăsis Buonavitta sairĂĄ de Valverde como entrou: sem um centavo e com os sonhos despedaçados.
Giorgio estava a centĂmetros de Ăsis. Ele estendeu a mĂŁo, hesitando antes de tocar uma mecha do cabelo dela que estava suja de tinta verde. â Eu queria ter respondido Ă quela Ășltima carta, Ăsis.
Ăsis recuou, o coração acelerado. â Que carta, Giorgio? VocĂȘ nunca enviou nada. E eu... eu parei de esperar.
â Eu enviei â ele insistiu, a voz carregada de uma dor antiga. â Eu enviei dezenas.
Os dois se olharam, e pela primeira vez, a dĂșvida começou a plantar sementes em seus coraçÔes. Havia um muro de mentiras entre eles, construĂdo por mĂŁos que agora planejavam sua destruição final na sala ao lado.
â Saia daqui, Giorgio â Ăsis pediu, a voz embargada. â Se vocĂȘ nĂŁo vai me dar o galpĂŁo, nĂŁo me dĂȘ esperanças. VĂĄ para casa. VĂĄ para a sua noiva e para a sua madrasta.
Giorgio nĂŁo saiu imediatamente. Ele olhou para a tela coberta no centro da sala. â O que tem debaixo do lençol?
â O motivo pelo qual eu voltei â ela respondeu. â Mas vocĂȘ sĂł vai ver quando as luzes da minha galeria se acenderem. Se vocĂȘ tiver coragem de aparecer.







