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🎹 CapĂ­tulo 8: Pigmentos de ResistĂȘncia

O loft de Ísis nunca pareceu tĂŁo pequeno quanto naquela tarde. O silĂȘncio era interrompido apenas pelo som rĂ­tmico de Leo caminhando de um lado para o outro, seus sapatos batendo no piso de madeira como um metrĂŽnomo da ansiedade. Ísis, no entanto, estava imĂłvel. Ela estava sentada diante de uma tela em branco, mas nĂŁo segurava um pincel; suas mĂŁos estavam fechadas em punhos sobre os joelhos.

— Interditaram o casarĂŁo, Ísis. Eles lacraram as portas como se fosse a cena de um crime — Leo disse, a voz carregada de indignação. — A Margareth moveu os pauzinhos na Secretaria de Obras com uma velocidade assustadora. Se nĂŁo pagarmos as dĂ­vidas acumuladas e apresentarmos um laudo de reforma particular em trinta dias, a prefeitura pode colocar o prĂ©dio em leilĂŁo.

Ísis levantou o olhar. Não havia lágrimas, apenas uma chama fria e determinada.

— Ela quer que eu saia de Valverde humilhada. Ela quer apagar o nome Buonavitta para que o impĂ©rio Cezario nĂŁo tenha nenhuma mancha de "instabilidade" por perto. — Ísis levantou-se, caminhando atĂ© a mesa onde jazia o laudo de interdição. — Mas ela subestimou uma coisa, Leo. Eu nĂŁo sou apenas a neta de uma "lunĂĄtica". Eu sou uma artista que aprendeu a criar beleza no meio do caos.

Leo parou de andar e olhou para ela, confuso. — E como vamos levantar essa quantia? É um valor alto, Ísis. Entre impostos e reformas, precisaríamos de uma pequena fortuna.

— NĂłs vamos fazer um leilĂŁo de guerrilha — ela declarou, a voz ganhando força. — Se eles nĂŁo me deixam abrir a galeria, eu vou levar a arte para as ruas. NĂŁo no galpĂŁo do Giorgio, nem no casarĂŁo interditado. Vamos fazer um evento clandestino, um "Pop-up de ResistĂȘncia".

— Ísis, isso Ă© arriscado. A Soraya e a Margareth vĂŁo descobrir.

— Que descubram! — Ísis aproximou-se de Leo. — Eu tenho dez telas terminadas que ninguĂ©m em Valverde viu. Obras que eu pintei no exterior. Se conseguirmos vender metade delas para os colecionadores que ainda respeitam a memĂłria da minha avĂł, teremos o suficiente para pagar a primeira parcela da dĂ­vida e suspender a interdição. Eu nĂŁo quero o dinheiro do Giorgio, Leo. Eu quero o direito de ocupar o que Ă© meu por direito.

Leo começou a sorrir, contagiado pela audĂĄcia da amiga. — Um leilĂŁo secreto... podemos usar as redes sociais, convites codificados. Podemos fazer no pĂĄtio da antiga fĂĄbrica de tecidos, que estĂĄ abandonada mas tem aquela estĂ©tica industrial que os crĂ­ticos amam.

— Exato. Vamos transformar a perseguição delas no nosso marketing. — Ísis pegou um carvão e começou a rabiscar um plano de custos na margem do laudo da prefeitura. — Margareth acha que o poder está no papel timbrado e nos selos do governo. Mas o poder em Valverde sempre foi sobre quem conta a melhor história. E a história dos Buonavitta ainda não chegou ao capítulo final.

Ísis sentiu uma onda de adrenalina. Pela primeira vez desde que pisara em Valverde, ela nĂŁo estava pensando em Giorgio ou nas cartas perdidas. Estava pensando na sua prĂłpria sobrevivĂȘncia. O legado de sua avĂł — aquela mulher que acreditava que uma pintura poderia mudar o mundo — estava em suas mĂŁos.

— Eles querem que eu seja uma mancha de tinta que se apaga com o tempo — murmurou Ísis para si mesma, enquanto Leo jĂĄ começava a disparar mensagens para seus contatos na capital. — Mas eu vou ser a cor que vai manchar a reputação impecĂĄvel de cada Cezario desta cidade atĂ© que eles implorem pelo meu perdĂŁo.

A luta nĂŁo era mais apenas por um espaço fĂ­sico. Era pela alma da famĂ­lia Buonavitta. E, naquele momento, Ísis percebeu que a volta por cima nĂŁo seria apenas sobre reaver um casarĂŁo de tijolos; seria sobre provar que a arte, quando alimentada pela fĂșria e pela verdade, Ă© a Ășnica coisa que nenhuma fortuna pode comprar.


Enquanto isso, em sua sala luxuosa, Margareth Cezario brindava com Soraya, acreditando ter dado o xeque-mate. Mal sabiam elas que Ísis estava apenas começando a preparar suas cores para o contra-ataque. O gosto do triunfo de Margareth estava prestes a se tornar muito amargo.

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