Mundo ficciĂłnIniciar sesiĂłnO loft de Ăsis nunca pareceu tĂŁo pequeno quanto naquela tarde. O silĂȘncio era interrompido apenas pelo som rĂtmico de Leo caminhando de um lado para o outro, seus sapatos batendo no piso de madeira como um metrĂŽnomo da ansiedade. Ăsis, no entanto, estava imĂłvel. Ela estava sentada diante de uma tela em branco, mas nĂŁo segurava um pincel; suas mĂŁos estavam fechadas em punhos sobre os joelhos.
â Interditaram o casarĂŁo, Ăsis. Eles lacraram as portas como se fosse a cena de um crime â Leo disse, a voz carregada de indignação. â A Margareth moveu os pauzinhos na Secretaria de Obras com uma velocidade assustadora. Se nĂŁo pagarmos as dĂvidas acumuladas e apresentarmos um laudo de reforma particular em trinta dias, a prefeitura pode colocar o prĂ©dio em leilĂŁo.
Ăsis levantou o olhar. NĂŁo havia lĂĄgrimas, apenas uma chama fria e determinada.
â Ela quer que eu saia de Valverde humilhada. Ela quer apagar o nome Buonavitta para que o impĂ©rio Cezario nĂŁo tenha nenhuma mancha de "instabilidade" por perto. â Ăsis levantou-se, caminhando atĂ© a mesa onde jazia o laudo de interdição. â Mas ela subestimou uma coisa, Leo. Eu nĂŁo sou apenas a neta de uma "lunĂĄtica". Eu sou uma artista que aprendeu a criar beleza no meio do caos.
Leo parou de andar e olhou para ela, confuso. â E como vamos levantar essa quantia? Ă um valor alto, Ăsis. Entre impostos e reformas, precisarĂamos de uma pequena fortuna.
â NĂłs vamos fazer um leilĂŁo de guerrilha â ela declarou, a voz ganhando força. â Se eles nĂŁo me deixam abrir a galeria, eu vou levar a arte para as ruas. NĂŁo no galpĂŁo do Giorgio, nem no casarĂŁo interditado. Vamos fazer um evento clandestino, um "Pop-up de ResistĂȘncia".
â Ăsis, isso Ă© arriscado. A Soraya e a Margareth vĂŁo descobrir.
â Que descubram! â Ăsis aproximou-se de Leo. â Eu tenho dez telas terminadas que ninguĂ©m em Valverde viu. Obras que eu pintei no exterior. Se conseguirmos vender metade delas para os colecionadores que ainda respeitam a memĂłria da minha avĂł, teremos o suficiente para pagar a primeira parcela da dĂvida e suspender a interdição. Eu nĂŁo quero o dinheiro do Giorgio, Leo. Eu quero o direito de ocupar o que Ă© meu por direito.
Leo começou a sorrir, contagiado pela audĂĄcia da amiga. â Um leilĂŁo secreto... podemos usar as redes sociais, convites codificados. Podemos fazer no pĂĄtio da antiga fĂĄbrica de tecidos, que estĂĄ abandonada mas tem aquela estĂ©tica industrial que os crĂticos amam.
â Exato. Vamos transformar a perseguição delas no nosso marketing. â Ăsis pegou um carvĂŁo e começou a rabiscar um plano de custos na margem do laudo da prefeitura. â Margareth acha que o poder estĂĄ no papel timbrado e nos selos do governo. Mas o poder em Valverde sempre foi sobre quem conta a melhor histĂłria. E a histĂłria dos Buonavitta ainda nĂŁo chegou ao capĂtulo final.
Ăsis sentiu uma onda de adrenalina. Pela primeira vez desde que pisara em Valverde, ela nĂŁo estava pensando em Giorgio ou nas cartas perdidas. Estava pensando na sua prĂłpria sobrevivĂȘncia. O legado de sua avĂł â aquela mulher que acreditava que uma pintura poderia mudar o mundo â estava em suas mĂŁos.
â Eles querem que eu seja uma mancha de tinta que se apaga com o tempo â murmurou Ăsis para si mesma, enquanto Leo jĂĄ começava a disparar mensagens para seus contatos na capital. â Mas eu vou ser a cor que vai manchar a reputação impecĂĄvel de cada Cezario desta cidade atĂ© que eles implorem pelo meu perdĂŁo.
A luta nĂŁo era mais apenas por um espaço fĂsico. Era pela alma da famĂlia Buonavitta. E, naquele momento, Ăsis percebeu que a volta por cima nĂŁo seria apenas sobre reaver um casarĂŁo de tijolos; seria sobre provar que a arte, quando alimentada pela fĂșria e pela verdade, Ă© a Ășnica coisa que nenhuma fortuna pode comprar.
Enquanto isso, em sua sala luxuosa, Margareth Cezario brindava com Soraya, acreditando ter dado o xeque-mate. Mal sabiam elas que Ăsis estava apenas começando a preparar suas cores para o contra-ataque. O gosto do triunfo de Margareth estava prestes a se tornar muito amargo.







