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🎨 Capítulo 3: Onde o Tempo Parou

O Olhar de Giorgio: O Cárcere de Vidro

Após a porta da presidência se fechar com um estalo seco, o silêncio que restou na sala de Giorgio parecia ter o peso de uma tonelada. Ele caminhou até a parede de vidro que oferecia uma visão panorâmica de Valverde do Sul, mas seus olhos não enxergavam a metrópole em crescimento. Eles estavam fixos na imagem residual de Ísis Buonavitta, que parecia ainda flutuar no centro da sala, uma mancha de cor vibrante em seu mundo monocromático.

Ele se permitiu fechar os olhos por um momento, e o presente desmoronou.

De repente, ele não era mais o CEO de quase trinta anos em um terno sob medida. Ele era o jovem Giorgio, de dezoito anos, sentado no parapeito da janela do casarão dos Buonavitta, observando Ísis misturar tintas com uma concentração quase divina. Ele se lembrou do cheiro de terebintina e jasmim que sempre a acompanhava, e da maneira como ela olhava para ele — não como o herdeiro de uma fortuna, mas como o rapaz que conhecia todos os seus medos.

Você vai esquecer o jeito que a luz b**e nas árvores de Valverde, Gió — ela dissera naquela última tarde, os dedos manchados de ocre tocando o rosto dele. — Lá na Europa, tudo vai ser arquitetura e pedra. Você vai esquecer de mim entre as linhas retas que seu pai quer que você desenhe.

Nunca — ele prometera, e na época, aquela palavra parecia uma rocha inabalável. — Eu vou estudar, vou cumprir o que meu pai exige, mas cada ponte que eu projetar terá o seu nome escondido nos cálculos. Eu volto, Ísis. Eu prometo.

Mas a Suíça não fora apenas sobre estudos. Fora sobre a desconstrução sistemática de quem Giorgio era. Cada carta que ele escrevia para ela era interceptada pelo pai; cada tentativa de ligação era sufocada por uma agenda exaustiva e cobranças implacáveis. Com o tempo, o silêncio dela — que ele acreditava ser por indiferença, sem saber que ela também era silenciada — tornou-se uma ferida infeccionada. Para sobreviver à dor, Giorgio escolheu a dormência. Ele parou de sentir para poder liderar.

Agora, ver Ísis ali, com a mesma altivez e os mesmos olhos que pareciam ler sua alma, era como se o gelo de dez anos estivesse rachando sob seus pés. Ele olhou para a mesa, para o porta-retrato de Soraya Sousa. Soraya era a escolha lógica, a escolha segura. Ela não pedia que ele fosse humano; ela apenas exigia que ele fosse um Cezario. Mas o toque invisível de Ísis ainda queimava em sua pele, e o "nunca" que ele prometera no passado ecoava como uma acusação em sua mente.

O Olhar de Ísis: A Anatomia da Saudade

Do outro lado da cidade, no pequeno loft que alugara temporariamente, Ísis estava sentada no chão, rodeada por telas em branco. Suas mãos tremiam, algo que raramente acontecia. Ela tentou segurar um carvão para esboçar, mas a única forma que surgia no papel era o perfil severo e anguloso de Giorgio.

Ela se lembrou do dia em que a última esperança morreu. Seis meses após a partida dele, ela tinha economizado cada centavo para uma passagem de ônibus até a capital, na esperança de conseguir falar com o pai de Giorgio na sede da empresa e obter notícias. Ela fora recebida no saguão, não pelo patriarca, mas por um advogado da família que lhe entregou um envelope frio.

O Sr. Giorgio Cezario está focado em sua nova vida e em seus novos compromissos sociais na Europa, senhorita — o homem dissera sem um pingo de emoção. — Ele pediu que não houvesse mais interrupções. Este cheque cobre qualquer... promessa que você julgue ter recebido.

Ísis não aceitara o dinheiro, mas aceitara a derrota. Ela rasgara o envelope na frente do homem e saíra de lá com o coração transformado em granito. Aquele foi o dia em que ela jurou que sua arte seria seu único amor, a única coisa que ninguém poderia lhe tirar ou comprar.

Mas o Giorgio que ela vira hoje na presidência não era o monstro que ela imaginara. Ele era algo muito pior: um homem que parecia ter morrido por dentro. Ela vira o breve lampejo de agonia nos olhos dele quando seus olhares se cruzaram. E isso a assustava. Era mais fácil odiar um vilão do que ter pena de um prisioneiro.

Ísis levantou-se e caminhou até a janela de seu loft, olhando para as luzes de Valverde. Ela viera para a cidade para recuperar sua história, mas percebeu que a história não era feita apenas de quadros nas paredes. Era feita de conversas inacabadas e finais que nunca foram escritos.

— Você não vai me impedir, Giorgio — ela sussurrou para a noite escura. — Eu vou abrir aquela galeria, e vou pintar cada centímetro desta cidade até que você não consiga olhar para lugar nenhum sem se lembrar de quem costumava ser.

A batalha não era apenas por um galpão na Rua das Violetas. Era uma guerra entre a memória e o esquecimento. E Ísis estava disposta a usar todas as cores de sua paleta para vencer.

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