Inicio / Romance / A Cor do Nosso Reencontro / 🎨 Capítulo 6: O Gosto do Primeiro Pigmento
🎨 Capítulo 6: O Gosto do Primeiro Pigmento

A porta do loft se fechou, mas o rastro de Giorgio Cezario permaneceu impregnado no ar. Ísis encostou as costas na madeira fria, sentindo o coração galopar contra as costelas, um ritmo frenético que ela não conseguia controlar. A revelação dele sobre as cartas — a insistência de que havia escrito — havia aberto uma fenda no muro de mágoa que ela construíra.

Ela caminhou trêmula até a janela, observando o carro de luxo de Giorgio se afastar pelas ruas desertas de Valverde do Sul. O encontro reabrira feridas que ela acreditava terem cicatrizado como queloides, duras e insensíveis. Mas não. A pele de sua alma ainda estava viva, e doía.

Fechando os olhos, Ísis permitiu-se, pela primeira vez em anos, mergulhar na memória que sempre tentava evitar: o dia em que o mundo ganhou cores definitivas.

Eles tinham quinze anos. Estavam escondidos no sótão da velha Galeria Buonavitta, fugindo de uma tempestade de verão que castigava Valverde. O som da chuva nas telhas de barro era a trilha sonora para a bagunça de telas e molduras antigas. Ísis estava tentando pintar o reflexo da chuva nos vidros, mas Giorgio, sempre metódico, estava fascinado com a mecânica de um antigo relógio de parede que tentava consertar.

Por que você sempre tenta consertar o que já parou, Gió? — ela perguntou, com um pincel sujo de azul cobalto entre os dentes.

Porque tudo o que é quebrado merece uma segunda chance de funcionar, Ísis — ele respondeu, sem desviar os olhos das engrenagens.

Naquele momento, ele levantou o olhar e a viu sob a luz bruxuleante de uma lamparina. Ísis tinha uma mancha de tinta no nariz e o cabelo preso em um coque desleixado. Giorgio soltou as peças do relógio e caminhou até ela. O ar entre eles, antes leve e infantil, tornou-se denso.

Você tem azul aqui — ele sussurrou, aproximando o polegar do rosto dela. Mas ele não limpou a tinta. Ele apenas contornou o lábio inferior dela com o dedo.

O primeiro beijo deles não teve gosto de romance de cinema; teve gosto de tinta a óleo e da eletricidade da tempestade. Foi o momento em que Ísis percebeu que nunca mais conseguiria pintar uma tela sem procurar o cinza dos olhos de Giorgio nela. Foi ali, entre engrenagens velhas e telas empoeiradas, que ela se apaixonou de forma irremediável.


Enquanto isso, no trajeto de volta para a mansão, Giorgio dirigia no automático. Suas mãos apertavam o volante de couro com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. O perfume de Ísis ainda estava em suas roupas, um contraste violento com o cheiro de lavanda artificial e desinfetante caro que dominava sua casa.

Ele se lembrou daquele mesmo dia no sótão. Lembrou-se de como o coração dele quase saltou pela boca quando Ísis correspondeu ao beijo, as mãos pequenas dela sujando a camisa dele de tinta. Naquela tarde, ele não queria ser o herdeiro dos Cezario. Ele queria ser apenas o rapaz que consertava relógios para que o tempo parasse sempre que estivesse com ela.

A dor de Giorgio era uma agulha fina. Ele se lembrava de cada palavra da carta que Margareth dissera ter "extraviado". Ele escrevera sobre o frio da Suíça, sobre como a arquitetura moderna de Zurique parecia morta perto das curvas da Galeria Buonavitta. Ele escrevera que a amava.

"Se ela nunca recebeu...", pensou Giorgio, o peito ardendo, "ela passou dez anos achando que eu a descartei".

Ele parou o carro no acostamento, incapaz de continuar. A percepção de que sua própria família poderia ter orquestrado aquele silêncio era um veneno que começava a circular em suas veias. O reencontro não fora apenas um choque; fora uma ressurreição. O Giorgio que sentia, que amava e que sonhava, estava batendo nas paredes da tumba onde fora enterrado, gritando pelo nome de Ísis.

Mas ao olhar para a aliança de noivado em seu console, o peso da realidade voltou. Ele tinha um acordo com Soraya. Tinha um legado a proteger. E tinha Margareth, que observava cada passo seu como uma ave de rapina.

Giorgio deu partida no carro novamente, mas seus olhos estavam úmidos. Valverde do Sul não era mais apenas o lugar onde ele trabalhava; era o campo de batalha onde ele teria que decidir se continuaria sendo uma estátua de mármore ou se teria coragem de voltar a ser humano, custasse o que custasse.

Ísis, em seu loft, pegou um pincel. Ela não pintou o galpão, nem a cidade. Ela pintou uma mancha azul cobalto no centro de uma tela branca. Uma ferida. Uma promessa. Um beijo que o tempo não conseguiu apagar.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP